Meta de imunização completa da população do Brasil só deve ser alcançada em 2022

Quase seis meses depois do início da imunização, cobertura vacinal é insuficiente no país, diz estudo

Isabelle Resende, da CNN, no Rio de Janeiro
15 de julho de 2021 às 05:41 | Atualizado 15 de julho de 2021 às 07:37
Vacinação contra o coronavírus em Botucatu, interior de São Paulo
Vacinação contra o coronavírus em Botucatu, interior de São Paulo
Foto: Vitor Orsola/Uai Foto/Estadão Conteúdo

Um levantamento feito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) revela que o Brasil precisa aplicar mais 207 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 para atingir a imunização completa de toda a população.  

Segundo projeção do IBGE de 2021, a população elegível para a vacinação, com mais de 18 anos, corresponde a aproximadamente 160 milhões de brasileiros. Desse total, 49% da população, o equivalente a 78 milhões de pessoas, ainda não recebeu nenhuma dose da vacina.  

Apenas 19% da população, cerca de 30 milhões de brasileiros, está com o esquema de vacinação completo, ou seja, uma dose única do imunizante da Janssen ou as duas doses das demais vacinas.  

Apesar de o ritmo de vacinação ainda ser considerado lento pelos especialistas em saúde pública, nas últimas semanas, houve um crescimento na cobertura da primeira dose em relação aos meses anteriores. A velocidade da cobertura com o esquema completo, ou seja, as duas doses, teve um discreto aumento.  

Na população de 50 a 59 anos, o levantamento aponta um aumento mais significativo da cobertura para a primeira dose de 66%, em 27 de junho, para 72% até 04 de julho e um ligeiro aumento de 6% no percentual com duas doses.  

Segundo os autores do estudo, o ritmo ainda é insuficiente para que se chegue à cobertura vacinal desejável de pelo menos 90% da população completamente imunizada até o fim deste ano.  

“A velocidade da vacinação até agora, apesar de mais acelerada nas últimas semanas, ainda é inadequada ao cenário epidemiológico no país”, afirma a pesquisa. 

Para alcançar a meta da população vacinada com duas doses, cerca de 176 milhões de doses a mais teriam que ser aplicadas até final de 2021. Isso exigiria a aplicação de mais de um milhão de doses diárias até 31 de dezembro. 

Caso não haja aumento na oferta de vacinas e a velocidade de vacinação não aumente substancialmente, a imunização completa de pelo menos 90% dos brasileiros só será alcançada no primeiro semestre de 2022.  

Atraso na 2ª dose 

Até o dia 4 de julho, 2,1 milhões de pessoas acima dos 60 anos de idade não tinham retornado para tomar a 2ª dose da vacina contra a Covid-19, ou ainda não tiveram a aplicação registrada no sistema.  O não comparecimento para a segunda dose é maior nos estados do Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Pará e Paraíba.  

Entre a faixa etária de 60 a 69 anos, 90% já recebeu a primeira dose da vacina e apenas 39% está com o esquema de vacinação completo. De 70 a 79 anos, 95% receberam uma dose e 86% completaram o esquema vacinal; e dentre aqueles com 80 anos e mais, 94% foram vacinados com a primeira dose e 85% com o esquema vacinal completo.  

Chama a atenção que 15% das pessoas que têm acima de 80 anos, faixa etária extremante vulnerável, menos numerosa e convocada prioritariamente, ainda não tenham sido completamente imunizadas. Os percentuais de cobertura vacinal nessa população variam entre os estados. Apenas 7 estados e o Distrito Federal ultrapassaram os 90% com esquema vacinal completo. Outros 20 estados ainda não atingiram os 90% .  

Com relação ao número de idosos com mais de 80 anos que sequer tomaram a primeira dose da vacina, o estado do Rio de Janeiro é o que apresenta a pior taxa. Cerca de 15% dos idosos com mais de 80 anos não tomaram nenhuma das vacinas. No geral, o Brasil vacinou 94% dessa população. 

Para resolver essa questão, a médica Lígia Bahia, que participa do estudo, defende uma maior divulgação e reforço das “repescagens”. 

“Precisamos deixar claro que todo dia é dia de se vacinar. O Sistema Único de Saúde sabe fazer isso, tem experiência anterior.  Uma medida importante seria reservar sempre vacinas para quem ainda não tomou nenhuma dose, separadas das disponíveis para aqueles que precisam da segunda”, afirma a pesquisadora. 

Doses ofertadas 

Os autores do estudo ressaltam que as doses de vacinas previstas pelo Ministério da Saúde, a partir de agosto e, especialmente, entre outubro e dezembro, são mais que suficientes para a vacinação da população adulta. Porém, as pressões para a retomada integral das atividades econômicas e sociais que, implicitamente, pressupõem vacinação de crianças e adolescentes e a aplicação de uma terceira dose, não são compatíveis com a atual oferta prevista de vacinas. 

Cerca de 44% das doses administradas correspondiam à vacina Coronavac, 47% à vacina Covishield/AstraZeneca-Oxford) e 8% da vacina da Pfizer/BioNTech. Os dados apresentados no estudo foram coletados no “Registro de Vacinação Covid-19", obtido no site do Open DataSUS.