Água com sal, dez segundos sem ar: o que não se deve fazer contra o coronavírus

Especialistas afirmam que experimentos de ‘auto-verificação’, muito populares na internet, são completamente equivocados

Alaa Elassar
Mulher usa máscara enquanto caminha por Londres de olho no celular
Mulher usa máscara enquanto caminha por Londres de olho no celular  • Foto: Dylan Martinez - 17.mar.2020/ Reuters
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Ao contrário do que muitos pensam, nem tudo o que está nas redes sociais é verdade. E acreditar em teorias sem uma base confiável pode ser muito perigoso. Nos últimos dias, por exemplo, têm circulado, na internet, “testes simples de auto-verificação” para detectar se você está ou não com o coronavírus. Especialistas alertam: as ideias são completamente equivocadas.

Escrita no que parece ser um aplicativo de anotações do iPhone, uma publicação - de três partes - alega falsamente, por exemplo, que uma pessoa pode descobrir se têm a COVID-19 simplesmente segurando a respiração por mais de 10 segundos. Se conseguir fazê-lo sem tossir, a indicação é que ela não tem o vírus.

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A dica, que começou a circular no Twitter, no Facebook e por e-mail na semana passada, foi falsamente creditada a um membro da “equipe médica do Hospital Stanford”. A porta-voz do Centro Médico de Stanford, Lisa Kim, disse à CNN que essa dica “perigosa” não está afiliada à instituição e “contém informação imprecisa”.

Para desmentir algumas teorias falsas, a CNN conversou com o Robert Legare Atmar, um especialista em doenças infecciosas da Escola de Medicina Baylor, no estado americano do Texas. Veja abaixo

Mito: Beber água protege contra o novo coronavírus. Alegação: “Se você não beber muita água regularmente, o vírus pode entrar na traqueia e nos pulmões.” Quem escreveu essa “dica” também disse que as pessoas devem beber água “a cada 15 minutos, pelo menos”, para limpar o vírus da garganta e do estômago, onde o ácido gástrico supostamente o mata.

Verdade: Atmar afirma que não há evidências que comprovem que isso funciona. “Mesmo que funcionasse, o que não acontece, as pessoas inspiram pelo nariz, não apenas pela boca”, disse. “Isso protegeria apenas a boca, e não o nariz.”

Mito: Fazer gargarejo com água e sal protege contra a CODIV-19. Alegação: “Uma simples solução de sal e água quente é o suficiente.” Além do gargarejo, a publicação também sugere que beber água quente pode matar o vírus.

Verdade: Com base em dados relacionados a outras viroses respiratórias, água salgada “não deve funcionar”, afirmou Atmar. Ao recomendar que se beba água quente, a publicação sugere que a temperatura da água inativa o vírus, o que Atmar garante que é inteiramente incorreto.

Mito: Se conseguir segurar a respiração por 10 segundos, você está bem. Alegação: “Respire fundo e segure a respiração por mais de 10 segundos. Se você conseguir fazê-lo sem tossir, sem desconforto, isso prova que não há fibrose nos pulmões, e basicamente indica que não há infecção.”

Realidade: Atmar ressalta que isso “não está correto”. “Quando alguém tem uma infecção viral, pode ser difícil respirar fundo e não tossir porque as vias respiratórias ficam irritadas. Isso é tudo que pode significar. Não tem nada a ver com fibrose, mesmo que as pessoas que tenham fibrose possam ter problemas ao fazer o tal teste. Conseguir segurar a respiração por 10 segundos também não significa que alguém não tem o novo coronavírus”.

Mito: Se o nariz está escorrendo, é apenas um resfriado. Alegação: “Se você está expectorando e com o nariz escorrendo, é um resfriado comum. A pneumonia do novo coronavírus é uma tosse seca sem nariz escorrendo.”

Verdade: Isso não é completamente verdade. Nariz escorrendo pode ser um sintoma de gripe, alergias ou outras doenças. E apesar de muitos pacientes com COVID-19 apresentarem tosse seca, os que têm pneumonia resultante da doença também podem apresentar uma tosse “molhada” que produz catarro, de acordo com Atmar.

Mito: Se você tem o novo coronavírus, contrairá pneumonia. Alegação: “O vírus gruda no fluido nasal que entra na traqueia e, depois, nos pulmões, causando pneumonia.” A publicação também diz que o vírus infecta primeiro a garganta, o que dá aos pacientes dor de garganta por três a quatro dias antes de grudar no fluido nasal.

Realidade: Isso também não é preciso. O tempo para os sintomas do novo coronavírus aparecerem varia de paciente para paciente, e nem todos apresentam dor de garganta, segundo Atmar. Além disso, nem todo mundo com dor de garganta tem o novo coronavírus, e nem todos os pacientes com COVID-19 irão desenvolver pneumonia.

Mito: Pacientes com o novo coronavírus têm uma sensação de afogamento. Alegação: “A congestão nasal não é do tipo comum. Você sente como se estivesse se afogando”.
Realidade: Não é verdade. “Isso não se parece com qualquer outro vírus respiratório que infecta pessoas, e muitos pacientes com o novo coronavírus não têm infecção nasal”, disse Atmar.

Mito: Quando uma pessoa com COVID-19 é hospitalizada, os pulmões já têm fibrose. Alegação: “Quando o paciente apresenta febre e/ou tosse e vai ao hospital, normalmente 50% do pulmão já está com fibrose e é tarde demais”.

Realidade: É totalmente incorreto. “Essa informação é extremamente alarmista”, afirmou Atmar. “A fibrose se desenvolve apenas na minoria dos pacientes, e 80% dos que têm o novo coronavírus apresentam somente os sintomas leves da doença.” A fibrose é uma cicatriz irreversível nos pulmões, o que pode levar a uma falha respiratória.

O período de incubação para a COVID-19, explicou Atmar, é de 2 a 14 dias. Os sintomas costumam aparecer entre 5 e 6 dias após a exposição ao vírus, com a primeira semana de tosse, dor de garganta, febre e dor nos músculos. Apenas a minoria dos pacientes tem uma segunda semana de sintomas respiratórios severos e corre risco de ter fibrose.

Enquanto o novo coronavírus é um problema que todo o mundo deveria levar a sério, a disseminação de informações falsas pode ser perigosa e mortal. Se você não tem certeza se o que está lendo sobre a doença é verdade, a melhor coisa a fazer é checar com o departamento de saúde local - e não nas redes sociais.

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