‘Anúncio da aceleração da vacinação não nos permite relaxar’, diz infectologista

Médica Raquel Stucchi avalia impacto da variante Delta no Reino Unido e na França: a prova de que ter as duas doses em um intervalo curto é importante

Produzido por Elis Franco, CNN em São Paulo

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Embora haja uma previsão de aumento no ritmo de vacinação contra a Covid-19, as medidas de distanciamento, isolamento, uso de máscaras e higienização das mãos devem ser mantida sem flexibilizações. A orientação é da infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi.

“O anúncio que a vacinação está acelerando não nos permite relaxar nenhuma medida de bloqueio da transmissão”, afirma em entrevista à CNN.

A infectologista enfatiza o perigo da variante originária da Índia, 97% mais ágil na transmissão em comparação ao vírus original segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Stucchi acredita que seja provável a prevalência da cepa entre os novos casos detectados no Brasil.

“Nós sabemos que ela [variante originária da Índia] já está sendo detectada em vários estados e, pela sua capacidade de transmissão, é possível, assim como acontece no Reino Unido — e tem a chance de acontecer em Israel –, que ela predomine circulando aqui entre nós.”

A infectologista afirma que a aceleração da aplicação do esquema vacinal completo, ou seja, duas doses de Coronavac, AstraZeneca ou Pfizer e uma dose da Janssen, é a saída para tentar combater a variante no Brasil.

“Existe uma recomendação da própria OMS, que se acelere a vacinação para completar as duas doses. A variante Delta [originária da Índia] preocupa demais pela sua capacidade de se transmitir muito fácil de pessoa para pessoa porque ela diminui um pouquinho a proteção das vacinas.”

A infectologista fez um comparativo entre a França e o Reino Unido em relação à incidência da variante originária da Índia. Ela explica que ambos aplicam as mesmas vacinas em suas populações, no entanto, “na França a gente não vê um aumento no número de casos importante e nem um aparecimento importante da variante originária da Índia, enquanto no Reino Unido, sim.”

Na avaliação de Stucchi, isso se daria pela maneira como a campanha de vacinação foi planejada: enquanto os ingleses decidiram vacinar a maior quantidade possível de pessoas com a primeira dose, esticando o intervalo, os franceses reservaram as segundas aplicações.

“A França optou por fazer o esquema de vacinação usando as vacinas com o seu prazo original, entre a primeira e segunda dose da bula, sem esticar, isso faz com que se vacine menos pessoas em um primeiro momento, porque reserva a segunda dose, e a Inglaterra resolveu esticar.”

A variante originária da Índia se espalhou e já é a variante predominante nos novos casos de Covid-19 no Reino Unido.

“Então, eu tenho uma proporção de pessoas com as duas doses na Inglaterra bem menor do que na França e isto é uma prova na vida real de que ter as duas doses em um intervalo curto de tempo, no intervalo da bula, é importante”, avalia.

“Nós desejamos uma revisão aqui no Brasil para que a gente possa voltar para o prazo da vacina da Pfizer, que foi prolongado aqui no Brasil, assim que a gente tiver doses suficientes. Para a gente poder completar a vacinação no prazo de 28 dias e poder combater ou diminuir o risco desta variante se espalhar muito entre nós, mesmo entre vacinados”, conclui.

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