Apenas 2,5% das cidades do país estão rumo à universalização do saneamento

Segundo ranking, a maioria dos municípios brasileiros avaliados (74,22%) está na categoria "Empenho para a universalização"; falta de saneamento básico adequado pode causar doenças diarreicas

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
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Apenas 63 municípios brasileiros estão se aproximando da universalização do saneamento básico, de acordo com o Ranking ABES (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental), divulgado no último dia 18. Esse número equivale a apenas 2,54% das cidades analisadas e 1,13% dos municípios.

A análise abrange 2.483 cidades, que concentram cerca de 80% da população brasileira, incluindo todas as capitais. Baseado em cinco indicadores oficiais do Sinisa (Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico), o ranking reúne dados inéditos e comparáveis, permitindo identificar os municípios e capitais que mais avançaram.

Os cinco indicadores são:

  • Abastecimento de água;
  • Coleta de esgoto;
  • Tratamento de esgoto;
  • Coleta de resíduos sólidos domiciliares;
  • Disposição final adequada de resíduos sólidos urbanos.

A maioria das cidades avaliadas (74,22%) está na categoria "Empenho para a universalização", um estágio intermediário, ainda distante da universalização plena. Em seguida, 307 municípios (12,36%) aparecem na categoria "Compromisso com a universalização", 270 (10,87%) em "Primeiros passos para a universalização" e 63 (2,54%) em "Rumo à universalização", a categoria mais alta.

Segundo a análise, as regiões Sudeste e Sul figuraram no topo das categorias, enquanto Nordeste, Norte e Centro-Oeste possuem a maioria dos municípios no estágio "Empenho para a universalização". Do total de capitais, apenas Curitiba foi classificada como "Rumo à universalização". Outras cinco (Salvador, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e João Pessoa) figuram no segundo nível, "Compromisso com a universalização".

Saneamento básico e saúde

O ranking também reforçou a relação entre saneamento e saúde pública. De acordo com os dados, quanto maior for o acesso aos serviços de saneamento, menor será a incidência de internações.

Para chegar a essa conclusão, o estudo fez um recorte específico dentro das DRSAI (Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado), considerando apenas as doenças de transmissão feco-oral, por representarem de forma mais direta os efeitos da precariedade dos serviços de saneamento.

Os achados vão ao encontro de estudos internacionais. O relatório Water Under Fire, por exemplo, evidencia que, em contextos de vulnerabilidade, crianças menores de 15 anos têm quase o triplo das chances de morrer por doenças diarreicas ligadas à falta de saneamento do que por violência direta.

"O tratamento adequado do esgoto deve ser um tratamento que reduz a carga microbiana por um lado e, por outro, a carga de elementos que podem produzir efeitos maléficos para a saúde, como metais pesados", explica o médico sanitarista Gonzalo Vecina à CNN Brasil.

"O esgoto não tem relação direta com a doença. O que tem é a água. Doenças são transmitidas pela água. É o caso da hepatite A e das gastrenterocolites, assim como também foi o caso do cólera", esclarece. "Hoje em dia, de longe, o mais importante é a água tratada", completa.

Segundo Vecina, é necessário o investimento e inteligência para realizar o tratamento adequado do esgoto, da água e a disposição final adequada de resíduos sólidos urbanos. "Não dá para fazer um planejamento de saneamento básico individual. É preciso haver um planejamento regional. A responsabilidade do saneamento básico é do estado", afirma.