Apesar de preocupante, fase da pandemia pode ser “janela de oportunidade”, diz Fiocruz

Entidade faz balanço de dois anos de pandemia, destacando importância da vacinação

Iuri Corsini, da CNN, no Rio de Janeiro
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A explosão de casos de Covid-19 impulsionada pela variante Ômicron pode criar uma imunidade temporária ao vírus, gerando uma oportunidade de controle da pandemia.

Uma espécie de “janela de oportunidades” que, aliada à uma alta cobertura vacinal, pode "tanto reduzir o número de casos, internações e óbitos, como bloquear a circulação do vírus". É o que dizem os pesquisadores da Fiocruz que divulgaram, nesta quarta-feira (9), o novo Boletim do Observatório Covid-19 Fiocruz, com um balanço de dois anos da pandemia.

Os cientistas reforçam que, para que isso aconteça, é essencial garantir a continuidade da campanha de vacinação e ampliar seu alcance para todas as regiões do país; realizar busca ativa por pessoas que ainda não se vacinaram, massificar a campanha de incentivo à vacinação de crianças e reforçar os benefícios gerados pela correta higienização, assim como o bom uso de máscaras.

A continuidade da vacinação em massa e das medidas não farmacológicas, aliada à uma autoimunização natural referente às pessoas que já se contaminaram, e diante de uma grande quantidade de casos, pode representar uma chance de chegar a um controle da pandemia. Isso mitigaria os efeitos na população.

Importância das vacinas

Apesar dessa possibilidade otimista, a Fiocruz destacou que o cenário atual ainda é preocupante e de muitas incertezas.

Os pesquisadores reforçam a necessidade e importância de melhorar a campanha de vacinação. Especialmente em relação a um acesso homogêneo dos imunizantes.

Os cientistas citam que a desigualdade da imunização expôs problemas básicos como a gestão de estoque, armazenamento, acesso geográfico, logística de distribuição e velocidade na informação.

“Em meio à pandemia, problemas que deveriam ter sido enfrentados antes, para trazer mais equidade e eficiência no processo de imunização, podem tornar populações com baixa taxa de cobertura mais vulneráveis e permitir o surgimento de novas variantes, como observado em áreas mais pobres do continente africano”, alertaram os pesquisadores.

Eles ainda chamam atenção para dados de outros países que mostram que "áreas com baixa vacinação favorecem a ocorrência de surtos localizados, com intensidade amplificada devido à movimentação das pessoas e queda no cuidado com medidas não farmacológicas".

E criticam a falta de uma "ampla campanha de comunicação para sustentar os benefícios das vacinas e das medidas não farmacológicas".

"Mesmo com a trajetória de sucesso do Programa Nacional de Imunização (PNI), manter a qualidade e o desempenho de um programa dessa natureza em um país com as características do Brasil, não é tarefa fácil. Sendo assim, é preciso planejar e investir permanentemente de modo a promover o acesso, a equidade e a universalização dos cuidados de saúde necessários", diz o estudo.

No Brasil, segundo a entidade, ainda existem diversos locais em que há baixo percentual de população vacinada.

São áreas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste que constituem “de menor Índice de Desenvolvimento Humano, populações mais jovens, menos escolarizadas, baixa renda e residentes de cidades de pequeno porte".

Número de casos

Das 5,7 milhões de mortes por Covid-19 no mundo, 11% aconteceram no Brasil. O equivalente a mais de 630 mil mortes. Além disso, dos 388 milhões de casos no mundo, 26 milhões, (6,7% do total), estão em nosso país.

Essa quantidade elevada de mortes e de casos acaba sobrecarregando os sistemas de saúde e aumentando as desigualdades estruturais da sociedade.

O boletim voltou a apontar que a velocidade de transmissão da Ômicron tem sido maior do que em outros momentos da pandemia, mas que a gravidade dos casos tem diminuído bastante, tanto em decorrência da vacinação, como na aparente possibilidade desta variante ser menos nociva.

“A redução da gravidade da doença, da sua mortalidade e das demandas por internação, é devida à alta cobertura da vacinação alcançada para a população adulta e idosa, bem como uma menor virulência dessa variante em relação às cepas anteriores”, indica o documento.

Endemia ou pandemia?

O estudo do Observatório citou que em alguns países já há uma discussão em relação à transição de pandemia para endemia.

Segundo os pesquisadores da Fiocruz, uma possível mudança de classificação não representaria a desobrigação de medidas de proteção individuais e coletivas, muito menos a eliminação do vírus da Covid-19.

Mesmo alguns países caminhando para a flexibilização de medidas de distanciamento físico, como alternativa à redução da transmissão do Sars CoV-2, este ainda é um caminho a longo prazo e, como disse à CNN o pesquisador do Observatório Covid-19/ Fiocruz, Raphael Guimarães, ainda é cedo para determinar que este é o sinal de transição de classificação.

“Em primeiro lugar, é preciso compreender que antes de ser classificada como endemia, há outras etapas: ela irá se tornar uma emergência de saúde pública de interesse internacional – quando ainda houver um padrão epidêmico em alguns países; uma emergência de saúde pública de interesse nacional – quando houver uma dinâmica epidêmica dentro de alguns países de forma heterogênea; para então alcançar um patamar onde conseguiremos prever o comportamento do vírus”, explicou.

O pesquisador disse que não adianta haver bons índices apenas em alguns países. Assim como em relação à vacinação, essas melhorias precisam ser homogêneas ao redor do mundo.

“Em segundo lugar, é preciso compreender que a superação da pandemia requer um cenário mais controlado de transmissão, incidência e mortalidade no mundo como um todo. Ter um punhado de países com efetivo controle não vira automaticamente uma chave que redefine o que é a Covid-19. É preciso haver solidariedade entre países para mitigar a pandemia de forma concomitante entre as nações”, concluiu.