Aumento da exposição às telas, ampliado pela pandemia, pode prejudicar a visão

No Dia Mundial da Saúde Ocular (10 de julho), especialistas alertam que falta de cuidados pode ocasionar prejuízos permanentes à saúde ocular

Foto: Getty Images (Pollyana Ventura)

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo

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A pandemia de Covid-19 provocou um aumento da utilização de dispositivos como celulares, tablets e computadores. Com o distanciamento social, os recursos passaram integrar de forma mais frequente a rotina de trabalho e o contexto escolar, além de já fazer parte das atividades de lazer, segundo especialistas consultados pela CNN.

No Dia Mundial da Saúde Ocular, 10 de julho, especialistas reforçam que a exposição constante à iluminação artificial dos eletrônicos pode ser nociva e causar danos irreversíveis para a visão.

Aumento de casos de miopia em crianças

O uso em excesso de equipamentos como celular, tablets e computadores pode provocar danos que vão da saúde ocular ao desenvolvimento cognitivo das crianças. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o tempo de uso diário recomendado varia de acordo com a idade, sendo restrita a utilização por crianças menores de dois anos (veja quadro abaixo).

Segundo o médico Sérgio Fernandes, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a exposição intensa aos eletrônicos pode levar ao desenvolvimento e agravamento de casos de miopia nas crianças, que podem ser irreversíveis. A miopia é um distúrbio da visão definido principalmente pela dificuldade de enxergar a distância devido a alterações provocadas no globo ocular.

“A visão aproximada de telas, como computadores e celulares, a uma distância de cerca de 40 centímetros e por tempo prolongado tem levado a um aumento da miopia. Isso é preocupante, é um fenômeno mundial”, afirma.

Segundo o especialista, o uso deve ser reduzido e intercalado com outras atividades. “Elas devem ter atividades ao ar livre diante da luz do sol, uma das coisas que inibem o aumento da miopia”, explicou.

Um estudo publicado na revista Nature revelou que o ensino em casa durante a pandemia aumentou a taxa de progressão da miopia em crianças, em comparação com os anos anteriores. A pesquisa avaliou 115 crianças e adolescentes de 8 a 17 anos. O aumento está relacionado principalmente à redução do tempo dedicado às atividades ao ar livre. Segundo o artigo, passar 2 horas por dia em uma atividade ao ar livre diminui a progressão da miopia.

Já uma pesquisa publicada no periódico científico Lancet mostrou que, entre 2019 e 2020, a progressão da miopia cresceu 40% entre os jovens de 5 a 18 anos, principalmente devido às restrições de circulação impostas pela pandemia. A pesquisa contou com a colaboração de oftalmologistas de países de todas as regiões da América do Sul.

Recomendação de tempo de uso de tela por crianças e adolescentes
Foto: Arte/CNN Brasil

Outros impactos negativos do uso de telas 

A professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Delma Simão, alerta que o maior tempo de exposição a telas também pode ocasionar prejuízos ao desenvolvimento cognitivo das crianças. “Uma criança que tem exposição precoce e exagerada às telas, em geral, pode ter atrasos no desenvolvimento de fala, de interação social e coordenação motora”, explica.

Segundo a especialista, a substituição de atividades de interação familiar e social pelo recurso tecnológico pode comprometer o aprendizado. “Esse tempo de tela exagerado acaba por limitar o desenvolvimento neuropsicomotor como um todo”, acrescentou.

A exposição precoce às telas também traz impactos negativos para o desenvolvimento visual e das primeiras estratégias de comunicação das crianças. De acordo com a professora da UFMG, as crianças aprendem a imitar os movimentos faciais dos adultos, incluindo as mais diferentes expressões, como medo, alegria e raiva. O contato com as imagens reproduzidas nas telas, no entanto, pode levar à uma espécie de desorganização do aprendizado dessas expressões. 

“Brincar de careta, por exemplo, é algo que pedimos para que os pais façam com as crianças exatamente pelo aprendizado. É uma forma de desenvolvimento da comunicação não verbal, que faz com que elas aprendam a emitir melhor as suas emoções”, explica Delma. “A exposição prolongada à tela acaba por desorganizar o processo de comunicação e pode gerar um comportamento inapropriado socialmente, como as birras”, complementa.

Crianças devem ser envolvidas em atividades da casa para reduzir uso de telas
Especialistas sugerem que as crianças sejam envolvidas nas atividades de rotina da casa de modo a reduzir o uso de celulares e computadores
Foto: Getty Images (Lerexis)

Incentivo a atividades alternativas

Os especialistas ressaltam que a exposição das crianças às telas é um problema anterior à pandemia e que a mobilização voltada para a realização de atividades alternativas deve ser constante.

Segundo o professor da Faculdade de Educação da UFMG, Rogério Correia, um dos passos para reduzir o uso de computadores e celulares pelas crianças é a criação de rotinas funcionais, como horários regulares para dormir e realizar as atividades ao longo do dia. 

O especialista recomenda que os pais estimulem o envolvimento dos filhos com as atividades da casa. “É importante para a criança participar das atividades diárias, como cuidar do quarto, organizar os brinquedos, ajudar a arrumar a casa ou a preparar os alimentos, fazer as refeições juntos. Além do tempo para as brincadeiras e para realizar as atividades da escola”, diz. 

Segundo Correia, até mesmo o tempo diante das telas pode ser utilizado de maneira mais produtiva. “Não dá para afirmar tempo de assistir a  um desenho animado ou programa televisivo tenha o mesmo valor de uma chamada com parentes que estão confinados em outros espaços, por exemplo. Vale a pena saber escolher aquilo que seja mais interessante”, afirma.

Ressecamento dos olhos causa desconforto

Segundo o oftalmologista Sérgio Fernandes, uma das principais consequências do excesso de uso de telas para os adultos é o ressecamento dos olhos. “Com o isolamento social, estar e trabalhar em casa fez com que as pessoas ficassem muito mais tempo nos computadores e celulares. Ao usarem as telas, as pessoas piscam metade das vezes do que acontece normalmente, que é de 15 a 20 vezes por minuto. Isso causa desconforto, sensação de ardência e cansaço no final do dia por conta do olho seco”, explica.

Para reduzir o problema, o oftalmologista orienta que, entre uma e duas horas de uso do computador, as pessoas façam intervalos de pelo menos cinco minutos. “Os recursos para combater o ressecamento causado pelo uso excessivo das telas envolvem ensinar o corpo a piscar para lubrificar os olhos. Também podem ser utilizados colírios lubrificantes, de duas a quatro vezes ao dia”, acrescentou.

A Sociedade Brasileira de Oftalmologia recomenda, ainda, que as atividades em computadores, celulares e tablets com duração superior a quatro horas devem ser interrompidas para pausas maiores com o objetivo de evitar a intensificação do desconforto visual.

Pandemia reduziu consultas oftalmológicas

Os especialistas apontam que a pandemia provocou quedas nos números de consultas, exames e procedimentos oftalmológicos, principalmente devido às medidas de distanciamento social e ao receio dos pacientes do contágio pela Covid-19.

Em uma comparação entre os anos de 2019 e 2020, houve uma redução de 81% no volume de atendimentos, segundo estimativas da National Patient and Procedure Volume Tracker Analysis, nos Estados Unidos. O cenário, de acordo com os especialistas, seguiu a mesma tendência no Brasil.

Segundo o médico Rodrigo Pegado, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, a interrupção de tratamentos oculares no período levou ao agravamento do quadro clínico de pacientes com doenças como catarata, ceratocone e problemas oculares em decorrência de diabetes

“No retorno das pessoas para a continuidade do tratamento vemos que os quadros estão mais graves. Houve uma progressão de uma série de condições, principalmente aquelas crônicas como os pacientes diabéticos e a degeneração macular relacionada à idade. Foram doenças que pioraram bastante porque perderam o seguimento do tratamento”, afirmou Rodrigo.

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