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    Billie Eilish e pornô: especialistas pedem que pais falem de sexo com filhos

    Cantora revelou que pornografia desde criança "devastou" sua vida

    A cantora Billie Eilish em uma imagem promocional de seu segundo álbum de estúdio, "Happier Than Ever"
    A cantora Billie Eilish em uma imagem promocional de seu segundo álbum de estúdio, "Happier Than Ever" Reprodução/CNN

    Matt Villanoda CNN

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    Ter acesso à pornografia apenas em revistas e locadoras de vídeo é algo do passado. Hoje, os serviços de internet e televisão a cabo disponibilizam conteúdo pornográfico para quase qualquer pessoa. Muita pornografia na internet está disponível gratuitamente, e algumas histórias em quadrinhos e animes japoneses incorporaram imagens e tramas pornográficas ou quase pornográficas.

    Na era cibernética, a pornografia é facilmente acessível online para adolescentes. Na verdade, a maior parte da pornografia hoje em dia é acessada pela internet, de acordo com uma meta-análise de 2016 publicada no “The Journal of Sex Research”.

    Adolescentes que viram pornografia explícita e violenta tinham seis vezes mais probabilidade de serem sexualmente agressivos do que aqueles que não foram expostos a esse conteúdo, de acordo com um estudo de 2011 citado por um revisão de pesquisa de 2012. As crianças não só estão vendo pornografia cada vez mais cedo como estão vendo mais do que seus pais. A pornografia, no entanto, não substitui a educação sexual aberta e honesta.

    Esse foi o consenso entre alguns psicólogos e educadores na semana passada, após comentários brutalmente honestos – e comoventes – da cantora Billie Eilish sobre a exposição ao pornô ainda muito nova.

    Em uma participação no programa de rádio “The Howard Stern Show” da SiriusXM, Eilish disse que começou a assistir à pornografia por volta dos 11 anos. “Isso realmente destruiu meu cérebro”, disse, acrescentando que as imagens visivelmente violentas lhe causavam pesadelos e paralisia do sono.

    “Nas primeiras vezes que fiz sexo, não disse não às coisas que não eram boas. E foi porque pensei que era isso que deveria me atrair”, contou Eilish, que fez 20 anos no dia 18 de dezembro. Eilish continuou dizendo que “não entendia por que isso era uma coisa ruim” e que “achava que era assim que a gente aprendia a fazer sexo”. Quando ela contou para sua mãe, a mulher teria ficado horrorizada com a ideia de que sua filha estava aprendendo sobre sexo dessa maneira.

    Seus comentários sobre estar “traumatizada” foram um doloroso lembrete de como a pornografia e outras mídias sexualizadas podem impactar os jovens adultos no mundo de hoje, disseram educadores sexuais à CNN.

    Emily Rothman, chefe do departamento de terapia ocupacional da Universidade de Boston, que também é professora de pediatria e medicina, disse que os comentários da artista servem como um alerta para que os pais e outros adultos de confiança desempenhem um papel mais ativo na vida das crianças.

    “Ter uma conversa com os jovens sobre o que eles viram, quando, onde e quantas vezes pode ser muito útil para tentar prevenir futuros incidentes e responder às suas perguntas”, aconselhou a professora Rothman, que ensina e pesquisa sobre sexo, sexualidade e gênero e forneceu consultoria relacionada à violência para departamentos estaduais de saúde pública e coalizões de programas de violência doméstica.

    “Precisamos fazer mais para evitar que os jovens vejam a mídia sexualmente explícita. E já que, não importa o que façamos, alguns deles verão de qualquer maneira, também precisamos dar informações e educação a todos os jovens sobre o fato de que a pornografia não é um manual de instruções sobre como fazer sexo”.

    Acesso fácil

    Eilish descreveu o que estava assistindo como “pornografia abusiva”, retratando a violência contra as mulheres “sem consentimento”. Além do mais, suas experiências podem ser mais comuns do que a maioria dos adultos admite.

    A pornografia “está disponível o tempo todo na internet e mesmo que os pais coloquem aplicativos de bloqueio, as crianças estão encontrando maneiras de acessá-la”, disse Michael Robb, diretor sênior de pesquisa da Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos com sede em São Francisco que publica entretenimento e recomendações de tecnologia para famílias. “Quer estejam eles mesmos procurando ou acessando involuntariamente por meio de amigos ou irmãos mais velhos, a pornografia está lá”.

    Não há muitas pesquisas confiáveis e recentes sobre a interseção de adolescentes e pornografia, de acordo com Robb. É uma área que os pesquisadores têm dificuldade em estudar por questões éticas e falta de participação. Além disso, Robb analisa os estudos sobre crianças e pornografia, e disse que muitos desses esforços tiveram metodologias questionáveis.

    Para Robb, dados mais confiáveis que existem sugerem que as experiências de Eilish são típicas entre adolescentes. Um que ele cita com frequência é uma pesquisa de 2017 com 1.001 jovens e crianças no Reino Unido que indicou que 28% dos jovens de 11 a 12 anos relataram ter visto pornografia, índice que chega a 65% entre os jovens de 15 a 16 anos. Robb disse que esses números são provavelmente maiores agora por causa do aumento do uso de telas durante a pandemia de Covid-19.

    Tudo sobre educação

    É claro que, como Rothman sugeriu, a verdadeira questão por trás da maioria das conversas sobre pornografia é a educação.

    Adolescentes e pré-adolescentes assistem ao material como Eilish fez e pensam que é a vida real, estabelecendo as bases para uma realidade distorcida e problemas associados no futuro, de acordo com David Ley, psicólogo clínico e terapeuta sexual em Albuquerque, Novo México.

    Ley acrescentou que a verdadeira desconexão vem com o que a pornografia não mostra.

    “As interações sexuais saudáveis exigem negociação, consentimento, honestidade, autocontrole e respeito”, enumerou. “A maior parte da pornografia pula tudo isso e, sem o contexto adequado, as crianças que estão curiosas e assistem não vão entender como todas essas questões são importantes para relacionamentos sexuais saudáveis”.

    Parte do desafio aqui é educar as crianças sobre interações saudáveis, observou Ley.

    A maior parte da educação sexual formal nos Estados Unidos só se inicie no ensino médio, mas muitas nações começam a ensinar as crianças sobre isso em uma idade mais jovem. Ley disse que os efeitos dessa exposição precoce são indiscutíveis. Na Holanda, onde os fundamentos da educação sexual começam entre as idades de 4 e 6 anos, há taxas mais baixas de gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis e agressão sexual.

    “Temos essa ideia e a convicção de que, se você não falar sobre algo, isso não acontecerá”, opinou. “A realidade é que não falar sobre isso leva as crianças a lições infelizes”.

    A autora Peggy Orenstein concorda com os comentários. Nos últimos 15 anos, ela escreveu seis livros sobre jovens, sexualidade e sexo, e entrevistou centenas de pré-adolescentes e adolescentes. Nas conversas, a autora disse que aprendeu que eles estão captando mensagens soltas a partir de uma variedade de meios de comunicação.

    “É fundamental conversar com os jovens sobre uma sexualidade que seja legal, ética e boa”, disse Orenstein. “Os valores da prerrogativa sexual masculina, submissão e disponibilidade feminina e desempenho feminino para o prazer masculino prevalecem no mundo de hoje. Não é apenas na pornografia (onde as crianças veem esses valores). É fácil ficar alarmado com muitas das coisas que os jovens estão assistindo”.

    Sexo como conexão humana

    Muitos especialistas dizem que a melhor maneira de os pais conversarem com as crianças sobre a sexualidade humana é discuti-la como uma celebração da condição humana e como as pessoas podem se conectar em níveis mais profundos e significativos.

    Isso também torna extremamente importante reconhecer diferentes identidades sexuais.

    Aredvi Azad, codiretor(e) executivo da The Heal Project, uma organização sem fins lucrativos que ensina crianças sobre uma vida saudável, observou que qualquer conversa moderna sobre sexo, sexualidade e gênero deve se estender além dos relacionamentos heteronormativos e cisgêneros descritos na maioria da pornografia convencional.

    “Se não falarmos sobre sexo de forma mais ampla, criaremos, sem querer, uma situação em que crianças que não têm interesses dentro do que é considerado normal podem facilmente cair em uma espiral de vergonha. Precisamos ajudar as crianças a entender todos os aspectos da identidade sexual e de gênero, e que a assexualidade também existe”, explicou Azad, que se identifica como pessoa de gênero fluido e usa pronomes neutros.

    Apenas para adultos

    Também é importante observar que a pornografia nem sempre é considerada ruim.

    Um artigo recente assinado pela renomada educadora sexual Cindy Gallop apontou que a pornografia pode ser inovadora, criativa e até francamente feminista se feita com foco no conforto e nos desejos da mulher.

    Chelsea Kurnick, uma defensora dos direitos LGBTQIA+ e organizadora de comunidades em Sonoma County, Califórnia, concorda. Kurnick disse que há uma série de pornografia fora do mainstream que é “bonita e instrutiva e pode ser estimulante para os adultos assistirem”.

    Em muitos casos, “pessoas queer e trans, gordas e deficientes” podem obter conhecimento útil da pornografia que é feita por e para eles, disse Kurnick. Ela acrescentou que este material é estritamente para adultos.

    “É totalmente verdade que muitas vezes existem expectativas irreais criadas pela pornografia e que você pode encontrar coisas violentas ou perturbadoras online”, disse. “Também é importante lembrar que a pornografia não é feita para crianças de 11 anos, pode ser saudável para os adultos ver e é algo que as pessoas reais fazem para viver”.

    O que os pais podem fazer

    A melhor maneira de os pais responderem à curiosidade natural dos filhos sobre pornografia é ser proativos e apoiar o processo de discuti-la com as crianças.

    Como a educadora sexual Gallop escreveu em seu artigo recente, isso significa que os pais devem se comprometer a falar com os filhos sobre sexo de maneira franca e direta.

    Orenstein disse que as conversas devem se concentrar na noção de que todas as pessoas são dignas de honra e respeito.

    Para atingir esses objetivos, os pais devem se esforçar para criar desde o início uma atmosfera onde as crianças não sintam ou experimentem vergonha por expressar curiosidades à medida que se desenvolvem, de acordo com Jennifer Kelman, terapeuta e assistente social clínica em Boca Raton, Flórida.

    Os pais também devem se comprometer com a paternidade com positividade, respondendo a quase todas as perguntas que as crianças fazem, disse Kelman, mesmo que as respostas simplesmente afirmem que as crianças ainda não têm idade suficiente para obter mais informações para satisfazer sua curiosidade.

    “Os pais precisam ser abertos sobre a possibilidade de (as crianças) serem expostas (à pornografia) e validar sua curiosidade natural em relação a isso, ao mesmo tempo que permitem que expressem seus pensamentos e sentimentos em relação à intimidade sexual”, afirmou Kelman. “Não há vergonha no crescimento e na curiosidade, então (os pais devem) conversar com as crianças sobre o amor verdadeiro e os danos que a pornografia pode causar”.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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