Carta mostra que Catarina, a Grande, foi uma das primeiras defensoras da vacinação

Acredita-se que a imperatriz da Rússia seja a primeira pessoa no país vacinada contra a varíola através de uma técnica considerada insegura pelos padrões atuais

Dmitry Levitzky

Harmeet Kaurda CNN

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Uma carta que deverá ir a leilão nesta semana mostra que a governante Catarina, a Grande, foi umas primeiras defensoras da vacinação contra doenças.

A carta nos dá um vislumbre da preocupação da imperatriz da Rússia com a epidemia de varíola, que estava devastando a Europa na época. Em correspondência com um oficial do exército russo, datada em 20 de abril de 1787, ela escreveu sobre a urgência de proteger a população em geral contra a varíola usando uma técnica agora considerada um precursor da vacinação.

“Conde Piotr Aleksandrovich, entre as demais atribuições dos Conselhos de Previdência das Províncias que lhe foram confiadas, uma das mais importantes deveria ser a introdução da inoculação contra a varíola, que, como sabemos, causa grandes prejuízos, principalmente entre as pessoas comuns”, escreveu Catarina, segundo uma tradução da casa de leilões MacDougall’s de Londres.

“Essa inoculação deveria ser comum em todos os lugares, e agora é ainda mais conveniente, uma vez que existem médicos ou assistentes médicos em quase todos os distritos e não exige grandes despesas”.

A carta e um retrado de Catarina feito pelo artista russo Dmitry Levitsky estarão à venda na quarta-feira. Juntos, eles podem chegar ao valor estimado entre £ 800 mil a £ 1,2 milhão, ou cerca de US$ 1 milhão a US$ 1,6 milhão.

Catarina é considerada a primeira pessoa na Rússia vacinada contra a varíola, em um procedimento que ocorreu quase 20 anos antes das preocupações expressas na carta de 1787. De acordo com um artigo de 1984 no então Bristol Medico-Chirurgical Journal, a monarca temia a doença há muito tempo e, depois que um membro da nobreza russa sucumbiu à varíola, ela procurou os serviçoes de um médico inglês que tinha vacinado com sucesso a elite britânica.

O método de inoculação da época, conhecido como variolação, seria considerado bastante inseguro pelos padrões atuais. Envolvia retirar parte do material das pústulas de um paciente infectado com varíola e inserir em uma incisão no braço de outra pessoa – sendo infectada deliberadamente com uma forma branda da doença. O procedimento tinha seus riscos – cerca de 2% das pessoas que foram inoculadas dessa forma morreram da doença -, mas foi adotado em toda a Europa, porque a taxa de mortalidade por contração natural de varíola era ainda maior.

Catarina estava ciente dos perigos. Qando o médico Thomas Dimsdale foi convidado a São Petersburgo para vaciná-la, havia uma carruagem pronta para que ele pudesse escapar do país sem retaliações de seus súditos, caso o procedimento falhasse. Ainda assim, ela estava determinada a prosseguir.

“Como eu poderia introduzir a vacinação contra a varíola sem dar um exemplo pessoal?”, escreveu ela em uma carta separada ao rei prussiano Frederico, o Grande. “Comecei a estudar o assunto… Devo permanecer em perigo real, junto com milhares de pessoas, ao longo da minha vida, ou devo preferir um perigo menor, muito breve, e assim salvar muitas pessoas? Escolhendo este último, eu estava selecionando o melhor curso”.

Catarina se recuperou com sucesso da infecção de varíola e logo fez com que seu filho e herdeiro ao trono fosse vacinado também. A notícia foi comemorada em novembro de 1768.

“Agora temos apenas dois tópicos de conversa: o primeiro é a guerra (russo-turca) e o segundo é a vacinção”, escreveu Catarina a um embaixador na Grã-Bretenha. “A começar por mim e por meu filho, que também está se recuperando, não existe casa nobre onde não haja várias pessoas vacinadas, e muitos lamentam ter tido varíola naturalmente e, por isso, agora não estarem na moda”.

Mas as vitórias seriam prematuras. Embora a vacinação tenha sido introduzida em toda a Rússia nos anos após o procedimento de Catarina, não se sustentou de forma significativa – duas décadas depois, ela ainda estava preocupada, pois não havia pessoas suficientes vacinadas contra a doença.

(Texto traduzido, leia original em inglês aqui)

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