Cientistas testam tratamento com nanopartículas que elimina Covid-19

Terapia conseguiu impedir replicação do vírus e promoveu sua eliminação do organismo em camundongos e macacos; pesquisa ainda precisa ser realizada em humanos

Da CNN, em São Paulo

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Nanopartículas feitas de células esferoides do pulmão humano (chamada de LSCs, na sigla em inglês) podem se ligar e neutralizar o vírus SARS-CoV-2, promovendo a eliminação do vírus do organismo e reduzindo a lesão pulmonar causada pela Covid-19, segundo uma pesquisa da North Carolina State University, publicada nesta sexta-feira (17), na revista Nature Nanotechnology.

O estudo foi feito em camundongos e em um modelo de macaco infectados com o vírus da Covid-19 e ainda precisa de estudos adicionais para traduzir a terapia em humanos. 

Essas nanopartículas agem no sentido de capturar o vírus, por isso são chamadas de decoys (armadilha em inglês). Ao imitar o receptor ao qual o vírus se liga, em vez de alvejar o próprio vírus, a terapia com nanodecoys pode ser eficaz contra variantes emergentes do vírus, concluiu a pesquisa.

O SARS-CoV-2 entra na célula quando sua proteína spike se liga ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (chamada de ACE2 em inglês) na superfície da célula.

As nanodecoys – uma mistura natural de células-tronco epiteliais pulmonares (dos pulmões) e células mesenquimais (ao redor de vasos sanguíneos) – também expressam ACE2, tornando-as um veículo perfeito para enganar o vírus.

“Se você pensar na proteína spike como uma chave e no receptor ACE2 da célula como uma fechadura, então o que estamos fazendo com as nanodecoys é sobrecarregar o vírus com fechaduras falsas para que ele não consiga encontrar aquelas que o deixam entrar nas células pulmonares”, disse Ke Cheng, professor de Medicina Regenerativa na North Carolina State University, autor da pesquisa. “As iscas falsas prendem o vírus, impedindo-o de infectar as células e se replicar, e o sistema imunológico do corpo cuida do resto”, ressaltou.

Cheng e outros pesquisadores converteram LSCs individuais em nanovesículas, ou pequenas bolhas de membrana celular com receptores ACE2 e outras proteínas específicas de células pulmonares na superfície.

Eles confirmaram que a proteína spike se ligou aos receptores ACE2 em amostras in vitro, e então usaram um vírus mimetizador de SARS-Co-V-2 fabricado para testes em camundongos. Em camundongos, as nanodecoys permaneceram nos pulmões por 72 horas após a terapia por inalação e promoveram a eliminação acelerada do vírus.

Ao testarem a terapia em macacos com Covid-19, descobriram que a terapia com as nanodecoys acelerou a depuração viral e reduziu a inflamação e a fibrose nos pulmões. 

“Essas nanodecoys são essencialmente ‘fantasmas’ celulares, e um LSC pode gerar cerca de 11.000 deles”, disse Cheng. “A implantação de milhões destas iscas aumenta exponencialmente a área de superfície de fechaduras falsas para capturar o vírus, e seu tamanho pequeno basicamente os transforma em pequenos lanches para macrófagos (células do sistema imunológico), de modo que são eliminados de forma muito eficiente”, afirmou.

Os pesquisadores apontam três outros benefícios das nanodecoys LSC. Primeiro, eles podem ser administrados de forma não invasiva aos pulmões por meio de terapia de inalação. 

Em segundo lugar, como as nanodecoys são acelulares – não há nada vivendo dentro delas – elas podem ser facilmente preservadas e permanecerem estáveis ??por mais tempo, estando prontas para o uso. Por fim, as LSCs já estão em uso em outros estudos clínicos, portanto, há uma probabilidade maior de poderem ser usadas em um futuro próximo.

“Ao nos concentrarmos nas defesas do corpo, em vez de um vírus que continuará mutando, temos o potencial de criar uma terapia que será útil a longo prazo”, disse Cheng. “Enquanto o vírus puder entrar na célula do pulmão, podemos continuar a enganá-lo.”

Visualização da partícula do novo coronavírus
Visualização da partícula do novo coronavírus
Foto: Fusion Medical Animation/Unsplash

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