Cientistas trabalham para concluir em outubro testes pré-clínicos da UFRJ-Vac

Projeto piloto da Coppe/UFRJ já recebeu adaptações contra variantes do coronavírus

Paula Martini, da CNN, no Rio de Janeiro

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Pesquisadores
Foto: Divulgaçao coppe/ufrj

Um grupo de cientistas corre contra o tempo, a burocracia e a falta de orçamento para que a UFRJ-Vac, vacina desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possa chegar ao mercado até o segundo semestre de 2022.

A produção do Ingrediente Farmacêutico Ativo da vacina, até escala piloto, é feita por apenas cinco pesquisadores do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares da Coppe/UFRJ. Além deles, cerca de 20 pessoas de outros institutos da UFRJ, do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e do Instituto D’or de Pesquisa e Ensino trabalham nas outras etapas de desenvolvimento da vacina – controle de qualidade, teste em animais e o planejamento dos futuros testes em humanos.

O grupo é liderado pela engenheira química Leda Castilho, que em entrevista exclusiva à CNN detalhou o andamento do trabalho e as perspectivas para que uma vacina desenvolvida integralmente por pesquisadores brasileiros seja utilizada em larga escala no país.

Os testes da vacina estão em fase avançada de estudos pré-clínicos, feitos em animais, e o objetivo do laboratório é concluir essa etapa em meados de outubro. A previsão é considerada “realista” pela própria professora Leda, que já constatou uma indução significativa de anticorpos do coronavírus nos animais que receberam amostras do imunizante.

“A vacina que estamos desenvolvendo entrega para o organismo uma proteína pronta, igual a do vírus, para estimular o sistema imune. Já as vacinas baseadas em RNA mensageiro ou vetores virais entregam uma sequência para que o corpo produza a proteína e estimule o sistema imune. As vacinas que vêm de proteínas são amplamente conhecidas pela sua segurança e eficácia, como a da Hepatite B, dada a recém nascidos, e a do HPV, indicada há 14 anos para crianças e adolescentes no mundo todo”, explica. 

O LECC deu início às pesquisas com a proteína S, que reveste o vírus Sars-Cov-2, em fevereiro de 2020. Durante um ano, os cientistas desenvolveram técnicas de engenharia para modificar geneticamente as células do coronoravirus e produzir em escala piloto cópias da proteína S (spike). Inicialmente, o processo foi feito a partir de amostras do coronavírus que começou a circular no Brasil em março do ano passado. Mas diante da transmissão acelerada da doença em todo o planeta, o surgimento de novas variantes se tornou um desafio para os sistemas de saúde e desenvolvedores de vacinas. 

Na Coppe/UFRJ, os pesquisadores já conseguiram aplicar a mesma tecnologia para reproduzir a proteína da variante brasileira P1 e da sul-africana B.1.351. O grupo está otimista sobre a possibilidade de adaptação do imunizante para outras cepas, como a originária da Índia. 

Engenheira química Leda Castilho
Engenheira química Leda Castilho
Foto: Divulgação Coppe/UFRJ

“A nossa vacina já está adaptada para as novas variantes. O que desenvolvemos ao longo de um ano para a proteína ‘original’, conseguimos fazer em apenas três meses para duas variantes. Nós estamos olhando constantemente a situação epidemiológica para escolher quais serão as próximas variantes que vamos começar a produzir”, garante Leda.

A Coppe/UFRJ procura parcerias com farmacêuticas para concluir o desenvolvimento do projeto e realizar a produção e comercialização da vacina em larga escala. Um ponto considerado positivo é a presença de indústrias no Brasil que produzem medicamentos com tecnologia de proteína recombinante, similar à da vacina, o que permitiria a produção através de pequenas adaptações em fábricas já existentes. 

Com o fim dos experimentos em animais, o laboratório da Coppe/UFRJ precisa apresentar os resultados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pedir autorização para realizar os testes clínicos em humanos. A ideia é que essa etapa também comece no 2º semestre deste ano.

Recursos financeiros

Mas se o provável avanço dos estudos traz otimismo sobre os rumos da vacinação no país, também gera insegurança nos cientistas sobre a viabilidade financeira para a continuação dos trabalhos.

A UFRJ-Vac foi financiada com R$ 2 milhões de um fundo internacional para pesquisas de combate à Covid-19 e, segundo a coordenadora Leda Castilho, esse valor só cobre a etapa de testes pré-clínicos.

Pesquisador
Foto: Divulgaçao coppe/ufrj

“Estamos tentando obter financiamento de toda e qualquer instituição que possa nos ajudar, no Brasil e no exterior. Se tudo que a gente tentou até agora não for aprovado, aí teremos um problema. Precisamos ter, daqui a três meses, o dinheiro na mão para poder começar os estudos clínicos. E se não surgir rapidamente uma nova fonte de financiamento, o projeto para porque o dinheiro não é suficiente”. 

Além do custeio direto da pesquisa sobre a vacina, a redução drástica do orçamento das universidades federais é mais uma ameaça que ronda o dia a dia dos cientistas. No início de maio, a CNN mostrou que o orçamento da Universidade Federal do Rio de Janeiro terá R$ 87 milhões a menos do que em 2020. A UFRJ corre risco de interromper as atividades no segundo semestre do ano, período crucial para o andamento das pesquisas com a UFRJ-Vac.

“Uma imagem que fica muito clara, é que o laboratório só trabalha a todo vapor se tiver água, luz, limpeza e segurança. São incertezas que a gente vive que, certamente, desgastam o nervo dos envolvidos porque temos que nos preocupar não só com a ciência, mas com todos esses aspectos envolvidos”.

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