Como os médicos aprendem a dar más notícias
Uma das regras da comunicação de informações difíceis em saúde é respeitar o direito do doente de não querer saber; protocolo inclui seis orientações que devem ser cumpridas

"Não vou falar de como os profissionais de saúde dão as más notícias mas de como estas devem ser dadas", diz Irene Carvalho, especialista em comunicação clínica e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em Portugal.
Este foi o primeiro estabelecimento de ensino superior a implementar, em 2005, um componente prático de comunicação na disciplina de Psicologia Médica. Nela, os futuros médicos começam por tentar dominar "as competências básicas de relação". A partir de vídeos, os estudantes observam como são informadas as questões de saúde difíceis e discutem perspectivas sobre o que assistiram. O próximo passo consiste no treinamento entre os colegas e com situações de simulação com doentes.
Mas existem regras para dizer a um doente aquilo que ele não quer ouvir, de forma a não deixar mais sequelas? Irene Carvalho afirma que há vários regulamentos que explicam os passos a se seguir, mas aquele que faz parte da unidade curricular é o protocolo SPIKES, amplamente conhecido e utilizado no mundo.
O protocolo é constituído por seis fases e "preconiza que se tenha sensibilidade suficiente para com a pessoa que está do outro lado". Caso não seja praticado de forma correta, a informação transmitida pode criar ansiedade e deixar cicatrizes para a vida.
1 – Preparação (Setting up)
De acordo com a docente, o primeiro passo está relacionado com a preparação do ambiente. A comunicação de más notícias deve ser feita sempre de forma presencial, com ambos os interlocutores sentados num espaço privado, para que o doente possa estar à vontade e sinta disponibilidade por parte do profissional de saúde.
“Não pode ser uma coisa feita na correria, no meio de um corredor, para depois o médico ir embora e deixar a pessoa ali”.
A postura do médico também é crucial, no sentido em que deve ser tranquila e descontraída. Não deve apresentar uma expressão facial que revele imediatamente a gravidade, para não alarmar ainda mais o paciente.
2 – Percepção (Perception)
O médico deve perguntar como o doente está e ouvir a resposta. Ao fazer isto, já está avaliando como a pessoa se encontra clinicamente.
“Tem alguma ideia do que isto possa ser?”, também é uma sugestão de pergunta, para ter a percepção daquilo que o doente já tem de informação. “Não se pode correr o risco de se dar informação a um nível e a pessoa estar num patamar completamente diferente. O doente pode não estar à espera daquilo ou até tornar-se repetitivo”.
3 – Convite (Invitation)
Mais concretamente, “o que é que a pessoa está interessada em saber?”. É a fase em que o profissional de saúde, caso o paciente deseje, explica o que ele tem, as causas e o que fazer. Há ainda quem não esteja imediatamente preparado para esta etapa e nestes casos a sua vontade deve ser respeitada.
O direito de não saber está inclusivamente contemplado no código da Ordem dos Médicos. A conversa deve ser feita no ritmo do doente.
4 – Conhecimento (Knowledge)
O quarto passo do protocolo passa por comunicar finalmente a notícia, “com muito pouca informação, porque as pessoas deixam de ouvir ou podem não ouvir tão bem”. Deve ser apenas transmitido aquilo que for importante e dar-se espaço para a pessoa fazer mais perguntas.
5 – Emoções (Emotions)
Chegou a parte mais difícil: lidar com as reações e emoções. “Se não fosse este passo, era muito fácil dar más notícias”.
O médico deve reconhecer que a pessoa reage de forma emocional, compreender a dificuldade da situação e ajudá-la a conter esse sofrimento, colocando-se na sua pele.
“Falamos de empatia, que é muito importante na área da saúde”. Irene Carvalho explica que o paciente fica muitas vezes desnorteado e olha para o médico como um farol, em busca de orientação, compreensão e conforto.
6 – Estratégia e resumo (Strategy and summary)
É na sexta e última fase que o profissional de saúde passa a definir objetivos concretos, focando-se naquilo que é possível controlar e nos passos que devem ser seguidos. Pode ser feito em conjunto com o doente, mas também, se este o desejar, com um membro da família que o acompanhe.
Habitualmente, depois da comunicação de uma má notícia, é marcada uma consulta para os próximos dias. Uma semana ou duas depois. A pessoa já terá deixado de pensar tanto naquele momento e começam a surgir mais perguntas. O médico quer ouvir, saber como está e até pode receber um acompanhante do paciente, caso ele o deseje.
“Muitas vezes pensamos na má notícia como uma sentença ou o largar de uma bomba, mas este protocolo não dita nada disso”, diz Irene Carvalho. “É, sim, um diálogo”. Sobretudo nos primeiros três passos, quem fala é o paciente.
O que deve ser evitado
1 - "Tiro de aviso"
Serve de exemplo a frase "não tenho boas notícias". Não é indicado deixar indícios da gravidade desta forma, a menos que o paciente não faça qualquer ideia do que se trata - e mesmo assim deve ser ponderado.
O profissional de saúde também não se pode rir, mas ao mesmo tempo não deve dar a entender que vai dizer algo muito negativo. "Às tantas, a pessoa fica num estado de ansiedade tremendo e a má notícia pode nem ser tão terrível como o médico transpareceu".
2 - Presunção
De acordo com a professora, é provavelmente a prática que mais ocorre mas que deve ser evitada: presumir que o doente tem de saber e aquilo que deve saber, não respeitando o seu ritmo.
3 - Linguagem técnica
A linguagem é muito importante quando se trata de dar as más notícias. Uma forma mais técnica pode fazer com que a pessoa do outro lado não entenda a gravidade da situação. Deve ser adaptada a cada paciente.
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