Covid-19: 95% dos internados em hospital de referência no Rio não se vacinaram

Médico relata desespero de paciente idoso impedido pela família de se imunizar: "Ele dizia que queria se vacinar, mas a família era contra e não o levou"

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Dos internados em consequência da Covid-19 no Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência no Rio de Janeiro para o tratamento contra a doença, 95% dos pacientes não se vacinaram. A afirmação é do diretor da unidade, Roberto Rangel.

Lamentando o cenário, que poderia ser diferente para essas pessoas, se tivessem optado pela imunização, Rangel relatou um caso recente, porém, não raro, e que deixou a equipe do hospital bastante sensibilizada: um paciente idoso, que foi impedido pela família de se vacinar.

O médico garante que o caso não é isolado e também não é exclusividade dos hospitais do Rio de Janeiro. Situações como essa também são vistas no Instituto Emílio Ribas, unidade de referência no tratamento contra em São Paulo. De acordo com a médica e coordenadora da unidade, Ana Freitas Ribeiro, a cada dez pacientes internos no Emílio Ribas, nove não estão vacinados.

O paciente idoso do Ronaldo Gazolla e que não resistiu, conta Rangel, disse que queria ter tomado a vacina, mas a família não permitiu.
“O paciente relatou que não tinha se vacinado. Ele chorava muito porque dizia que queria se vacinar, mas a família dele era toda contra e não o levou para se imunizar. Ele tinha certeza que não iria se salvar”, relembra Rangel.

Quando a decisão de não se imunizar é do paciente, o comportamento é diferente, ressalta a médica Ana Ribeiro.

“Já vimos diversas pessoas que tentaram escolher uma vacina específica e acabaram precisando ser internadas antes de se imunizarem. Isso já aconteceu sim. Mas quando acontece com pessoas que optaram por não se vacinar mesmo, que não querem tomar nenhum imunizante, aí elas precisam bancar essa decisão”, destacou a médica do Emílio Ribas.

O coordenador das Unidades de Atendimento à Covid-19 do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Gustavo Picolotto, também confirmou ocorrências de pacientes que escolheram não se imunizar e acabaram hospitalizados. Entretanto, ele afirma que, atualmente, os internados são idosos que ainda não tomaram a terceira dose do imunizante contra o vírus.

“A vacinação reduziu muito o número de pessoas internadas, tanto que atualmente só temos oitos pessoas hospitalizadas. O que podemos dizer é que todos são pessoas acima dos 60 anos que ainda não tomaram a dose de reforço. A hipótese mais forte é que a imunidade dessas pessoas está diminuindo, e facilitando o agravamento do vírus”, explica o pneumologista.

Segundo um estudo italiano inédito, pessoas vacinadas contra o novo coronavírus têm pouca probabilidade de morrer em decorrência do vírus. A pesquisa foi feita pelo Instituto Nacional de Saúde (ISS) e divulgada na última quarta-feira (20).

O levantamento traz que a idade média das pessoas imunizadas que morreram por Covid-19 foi de 85 anos e que elas já tinham, em média, cinco doenças preexistentes.

Já para os indivíduos que não completaram o esquema vacinal, a média foi de 78 anos. A análise contou com a participação de 130 mil pessoas entre os dias 1° e 15 de fevereiro. Dessa forma, a pesquisa destaca a pouca probabilidade de morrer em decorrência do coronavírus, a menos que a pessoa seja muito idosa ou esteja seriamente doente antes mesmo de ser contaminada.

O artigo italiano aponta ainda que pessoas com problemas cardíacos, demência e câncer foram responsáveis pela maior amostragem de óbitos entre vacinados.

O diretor do Departamento de Doenças Cardiovasculares, Endócrino-Metabólicas e Envelhecimento do ISS, Graziano Onder, destacou, entretanto, que a imunização é fundamental para os idosos e os indivíduos com comorbidade. E que a vacinação contra o novo coronavírus reduz o risco de morte em qualquer faixa etária.

“Os resultados indicam que as pessoas que morreram após completar o esquema de vacinação apresentam um alto nível de complexidade clínica. É possível hipotetizar que pacientes muito idosos com inúmeras doenças podem ter uma resposta imunológica reduzida e, portanto, ser suscetíveis à infecção por SARS-CoV-2 e suas complicações, apesar de terem sido vacinados”, explica Graziano Onder, diretor do Departamento de Doenças Cardiovasculares, Endócrino-Metabólicas e Envelhecimento do ISS.

“Essas pessoas muito frágeis com uma resposta imunológica reduzida, eles são os que mais podem se beneficiar de uma ampla cobertura de vacinação para toda a população, pois isso reduz ainda mais o risco de infecção. Reduzir a circulação do vírus é a melhor forma de protegê-los”, reforça o profissional de saúde.

Infectologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o médico Celso Ramos, corroborou as informações apresentadas na pesquisa. Ele ressalta que a vulnerabilidade dessa faixa etária está relacionada ao envelhecimento do sistema imunológico, o que resulta em uma menor resposta do corpo às vacinas.

“As doenças infecciosas trazem um risco para as pessoas que são mais suscetíveis a elas, como pessoas mais velhas e enfermos. Tanto que as vacinas têm uma eficácia menor nesse público, a partir do momento que a idade da pessoa aumenta. Por isso, temos que dar doses de reforço para essa parte da população. A saída para tudo isso sempre que nós temos: vacina”, frisou.

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