Descarte de antibióticos no meio ambiente traz risco para saúde mundial, diz ONU

Mundo pode viver nova pandemia caso não se invista em saneamento básico para tratar a água e esgoto onde esses medicamentos são lançados, alerta organização

Volodymyr Hryshchenko/Unsplash

Nathalie Hanna Alpaca*da CNN

Rio de Janeiro

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A população mundial está cada vez mais exposta à água contaminada por antibióticos, segundo relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), da ONU. O documento alerta que 90% dos antibióticos são lançados no meio ambiente ainda como substâncias ativas, por meio de esgotos ou por defecação a céu aberto. Os microrganismos resistentes a medicamentos presentes na água podem provocar outra pandemia, segundo a Organização.

O relatório da ONU pontua que quanto mais os microrganismos são expostos aos produtos farmacêuticos, maior é a capacidade de adaptação e resistência a eles. Em 2019, as infecções que apresentaram resistência a antibióticos foram associadas a morte de mais de 1 milhão de pessoas. Sem uma ação imediata, de acordo com o levantamento, essas infecções poderão causar até 10 milhões de mortes por ano até 2050.

A ONU também chama atenção para os impactos em cadeia que podem se consolidar com o possível surgimento de uma nova pandemia. Para além da saúde, os prejuízos econômicos podem chegar a US$ 3,4 trilhões a menos no PIB mundial a cada ano em que a doença persistir. Além disso, 24 milhões de pessoas podem ser empurradas para a pobreza extrema.

De acordo com a pesquisa, existem diversos fatores que fazem a resistência antibiótica se desenvolver no solo e na água, como os resíduos de centros de saúde, o saneamento precário, efluentes da fabricação farmacêutica, liberação da produção animal; e o uso de antimicrobianos e esterco na produção agrícola. Esses antibióticos também são comumente lançados no meio ambiente nos lixos das residências e dos hospitais, o que afeta a biodiversidade e o ecossistema, segundo o relatório.

Para o pesquisador de ecotoxicologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Cerrados), Eduardo Cyrino, que estuda os efeitos tóxicos dos poluentes naturais ou sintéticos nos ecossistemas, a falta de saneamento básico é o ponto inicial para o surgimento e proliferação de novas doenças. Ele destacou a necessidade de políticas que promovam a ação.

“Os antibióticos e medicamentos não passam por avaliação de impacto ambiental como os agrotóxicos. O que sabemos dos antibióticos é que eles tem efeito sobre um ser vivo, a função deles é matar organismos vivos. Do ponto de vista de contaminação aquática, o esgoto é sempre o principal problema. Enquanto não tivermos uma política de saneamento realizada em todas as cidades, você sempre vai ter ambiente aquático contaminado. Saneamento é básico, tem que ter em todas as cidades. Falamos de esgoto porque ele é contínuo, uma fonte de poluição pontual contínua, e temos que olhar para isso”, diz Cyrino.

O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Paulo Barrocas, explicou que bactérias diferentes em um ambiente podem trocar características entre si, aumentando a resistência aos produtos químicos ou farmacêuticos.

“Como as bactérias são geneticamente muito plásticas, elas facilmente se adaptam ao ambiente, existe uma troca genética horizontal muito grande, então você pode ter uma bactéria resistente no meio e elas transferirem esses genes de resistência para outras bactérias que originalmente não eram resistentes a antibióticos”, explica.

“Essa é uma questão de saúde pública importante que precisa ser analisada porque poderemos ter em breve uma situação de surtos sem um remédio adequado para tratá-los”, ressaltou o pesquisador.

*sob supervisão de Helena Vieira

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