Dia da Saudade: quando sentir faz bem e quando é sinal de alerta emocional?

Especialistas explicam como identificar os diferentes tipos de saudade e o caminho para acolher cada emoção

Dora Arai, colaboração para a CNN Brasil
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O Dia da Saudade é celebrado nesta sexta-feira (30) e convida à reflexão sobre um dos sentimentos mais profundos da experiência humana, aquele que nos conecta ao passado, às memórias e aos vínculos construídos ao longo da vida.

Presente em diferentes fases e contextos, a saudade nem sempre nasce do mesmo lugar e compreender sua origem é essencial para lidar de forma mais consciente e saudável.

De acordo com Renata Fornari, especialista em autodesenvolvimento e autoamor, existem pelo menos dois tipos distintos de saudade. Uma delas está ligada à carência emocional, enquanto a outra é legítima e precisa ser vivida.

“É preciso cuidado para não confundir carência com saudade. Muitas vezes, acreditamos sentir falta de alguém quando, na realidade, estamos tentando preencher, por meio do outro, uma lacuna emocional interna. Isso pode gerar dependência emocional e relações desequilibradas”, alerta.

Segundo ela, esse padrão tende a se repetir quando o autoamor não está fortalecido, já que apenas ele é capaz de sustentar emocionalmente o indivíduo.

Por outro lado, existe a saudade genuína, aquela que nasce da ausência real de alguém importante, seja por uma perda, um afastamento físico ou pelo encerramento de uma fase significativa da vida. Nesse contexto, sentir falta faz parte do processo emocional e não deve ser reprimido.

“Essa saudade precisa ser sentida. Reprimir emoções só intensifica a dor. A tristeza precisa ser vivida para ser elaborada. Quando permitimos que o sentimento venha, abrimos espaço para a cura e para o novo”, explica. Para ela, chorar, lembrar e sentir são movimentos naturais e necessários no processo de elaboração emocional.

O olhar da saúde mental

Essa distinção também é destacada pelo psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-estar, do Hospital Israelita Albert Einstein. Segundo ele, identificar os sinais que diferenciam a saudade saudável da saudade ligada à carência é fundamental para evitar sofrimento prolongado e relações disfuncionais.

“A saudade saudável e genuína surge a partir da falta de um vínculo de amor, um vínculo com significado. Ela costuma vir acompanhada de emoções positivas como ternura, gratidão e boas lembranças”, explica. Embora possa envolver dor emocional, esse tipo de saudade não compromete a funcionalidade do dia a dia.

Já a saudade associada à carência tem outra origem. “Ela nasce de um vazio interno, do medo de abandono e da dependência emocional, e costuma vir acompanhada de ansiedade, ruminação de pensamentos e idealização do outro”, afirma.

“A saudade saudável conecta, enquanto a saudade carente aprisiona. Uma é memória afetiva, a outra é uma tentativa de anestesiar uma ferida.”

Como viver a saudade de forma saudável?

De acordo com Zoldan, viver a saudade de maneira saudável é não apenas possível, como essencial para a saúde mental. “Toda perda ativa um processo de luto, mesmo quando não há um falecimento. Términos, afastamentos, mudanças de vida ou até o fim de um projeto importante podem desencadear esse processo”, explica.

Quando a saudade é vivida, e não evitada, o cérebro consegue reorganizar o vínculo, integrar a memória emocional e impedir que essa dor se transforme em um sofrimento persistente.

Autocuidado e autoamor

Nesse caminho, o autocuidado e o fortalecimento do autoamor têm papel central. Desenvolver uma base interna de amparo permite que a pessoa deixe de usar o outro como regulador emocional. Isso envolve aprender a tolerar a falta, a frustração e o vazio, mudando a forma como a saudade é vivenciada.

Quando pedir ajuda?

A saudade pode se tornar um problema quando deixa de ser uma emoção passageira e se transforma em um estado de aprisionamento psicológico.

Entre os sinais de alerta estão a paralisação das atividades do dia a dia, dificuldade de criar coisas novas, pensamentos recorrentes sobre o mesmo assunto, insônia, ansiedade e sintomas depressivos.

“Idealizar o passado e desvalorizar o presente, além do uso de estratégias pouco saudáveis para lidar com o estresse, como abuso de álcool, excesso de comida, workaholismo ou uso exagerado de telas, indicam um quadro de desorganização emocional”, alerta o psiquiatra.

“Quando a saudade vem da carência, o caminho é o autoamor. Quando ela é legítima, o caminho é o acolhimento. Emoções precisam ser sentidas para se transformarem”, conclui Renata Fornari.