Documento da Saúde defende efetividade da cloroquina

Pasta também afirma que estudos da vacina não atendem a requisitos de segurança. Diretora da Anvisa atesta eficácia dos imunizantes e classifica nota como "infeliz surpresa"

Rudá MoreiraAna Carolina Nunesda CNN

em São Paulo e em Brasília

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Uma nota técnica do Ministério da Saúde publicada na sexta-feira (21) e assinada pelo secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Helio Angotti Neto, diz que a hidroxicloroquina tem efetividade no combate à Covid-19 e a vacinação, não.

O posicionamento está no documento usado para barrar recomendações da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao Sistema Único de Saúde (Conitec) que contraindicavam o uso do chamado “kit Covid”. Na nota, há uma tabela com as propostas de enfrentamento à Covid e as recomendações para o tratamento da doença.

Nela, o ministério afirma que a hidroxicloroquina tem efetividade em estudos controlados e randomizados, e que existiria a demonstração de segurança em estudos experimentais e observacionais. Na tabela, consta ainda que as vacinas não atendem a esses requisitos.

Na página 25, ao tratar de estudos feitos sobre a eficácia dos procedimentos analisados contra a Covid-19, aparece a tabela em que o Ministério da Saúde diz que há demonstração de efetividade da cloroquina e que não há a mesma demonstração a respeito da vacina.

Quando é questionado sobre se há demonstração de efetividade e estudos de controlados e randomizados, para a cloroquina a resposta é SIM e para a vacina a resposta é NÃO. A mesma coisa acontece quando se é questionado sobre a segurança do medicamento e da vacina. No final da tabela a pasta diz que as sociedades médicas recomendam a vacina e não recomendam a cloroquina.

Tabela documento Ministério da Saúde de 21/01/2022 / Reprodução

Vale ressaltar, que ao final da tabela, há as seguintes observações:

“Treze estudos controlados e randomizados com direções de efeito favoráveis à hidroxicloroquina, com efeito médio de redução de risco relativo de 26% nas hospitalizações, altamente promissor para o uso discricionário e prosseguimento dos estudos”, afirma o ministério.

Ao analisar as vacinas, a pasta diz que há “dezoito ensaios não finalizados, dos quais, oito ainda em fase de recrutamento, nove ainda não finalizaram o seguimento e um finalizado, mas ainda em fase insuficiente para a avaliação de segurança”.

As menções favoráveis à cloroquina e críticas à vacina contrariam as avaliações de estudos científicos, de entidades médicas e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Infeliz surpresa”, diz diretora da Anvisa

A CNN questionou o Ministério da Saúde sobre o documento, que retornou com uma nota. A pasta alega que a tabela, observada isoladamente, “não traduz o real contexto” do que afirmava a nota técnica em questão. Leia a manifestação completa:

O Ministério da Saúde esclarece que em nenhum momento afirmou que medicamentos contra Covid são seguros para tratamento da doença, nem questionou a segurança das vacinas, que é atestada pela agência reguladora. A interpretação foi retirada erroneamente de uma manifestação de nota técnica da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos (SCTIE). A secretaria informou que observada isoladamente não traduz o real contexto, explicitado no próprio texto. A interpretação de que ela afirma existência de evidências para o medicamento cloroquina e não existência de evidências para vacinas é errada e descontextualizada.

Meiruze Freitas, diretora da Anvisa, afirmou à CNN que a nota é uma “infeliz surpresa”, já que as vacinas passaram por todos os protocolos necessários a fim de atestar a qualidade, eficácia e segurança dos imunizantes utilizados no Brasil, argumenta ela.

“Num primeiro momento, nós achamos que esse documento era falso. Que não era do Ministério da Saúde. Num segundo momento, uma surpresa, e uma infeliz surpresa”, disse.

“A posição da Anvisa é reafirmar as vacinas como a melhor estratégia para o enfrentamento da pandemia. E quando um paciente precisa ser tratado da Covid-19, há medicamentos autorizados pela Anvisa. Há outros medicamentos que os médicos utilizam, considerando a realidade do paciente, a evolução. Não existe receita mágica para tratar a Covid-19”, complementou.

Na noite do sábado (22), a Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) também publicou uma nota de repúdio ao documento.

De acordo com o texto, “fármacos como a cloroquina, a ivermectina, entre outras, surgiram como opções legítimas, e todos nós gostaríamos que tivessem sido realmente eficazes. Mas, infelizmente, não o foram. Após inúmeros estudos sérios e bem conduzidos, os dados globais indicaram que o tratamento através do reposicionamento destes fármacos não apenas não afeta o curso da Covid-19, como pode colocar ainda mais em risco a saúde do paciente.”

*Esta matéria, publicada no sábado (22), teve título alterado às 14h do domingo (23)

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