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    Entenda as questões por trás da quantidade de água recomendada por dia

    Beber água é importante, mas dois litros por dia não é regra, dizem especialistas

    Perdas de água ocorrem de três maneiras: uma parte corresponde à produção de secreções, como saliva, suco gástrico e suor, por exemplo
    Perdas de água ocorrem de três maneiras: uma parte corresponde à produção de secreções, como saliva, suco gástrico e suor, por exemplo Nigel Msipa/Unsplash

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    A água é uma grande parte da composição do corpo humano, de cerca de 60 a 70%.

    Que beber água é imprescindível para a manutenção da saúde não há dúvidas – isso é um consenso. No entanto, a quantidade diária a ser ingerida ainda é alvo de divergências entre as comunidade médica e científica.

    “Por ser tão crítica para a vida, há processos fisiológicos que controlam de forma estrita o balanço de sal e água no organismo. De forma simplificada, para manter a quantidade de água do nosso corpo, é preciso repor as perdas”, afirma o professor Eduardo Barbosa Coelho, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

    Um estudo da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, publicado em novembro de 2022, colocou mais lenha na fogueira da discussão sobre a quantidade ideal de água por dia.

    A pesquisa aponta que a ingestão recomendada de água de oito copos, cerca de dois litros, por dia raramente corresponde às necessidades reais e, muitas vezes, pode ser alta. Segundo a pesquisa, a quantidade necessária para ser bebida varia entre 1,3 a 1,8 litros por dia, a depender da idade, clima e onde a pessoa vive.

    Um estudo publicado na revista Science indica que o volume para consumo diário é determinado por diversos fatores como sexo, idade, aspectos físicos, umidade do ar, temperatura e até mesmo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

    Nesse sentido, pode não existir uma quantidade ideal de água ー como os famosos dois litros ー, já que a influência de múltiplos pontos modifica a necessidade de cada indivíduo.

    “Não há um valor ‘normal’ ou recomendável para se ingerir ao dia. Geralmente, para um adulto numa dieta normoproteica padrão, cerca de um a um e meio litros de água serão suficientes para manter o balanço hídrico. Porém, esse valor dependerá do metabolismo individual, da idade, da distribuição de gordura corporal, das condições ambientais, da atividade física e de outros fatores que afetam a perda de água. Há uma ideia generalizada de que consumir água faz bem à saúde. Como descrito acima, há mecanismos fisiológicos para a manutenção de um equilíbrio hídrico e caso haja falta de água a sede aparecerá”, afirma Coelho.

    Importância da ingestão de água

    Para que o organismo se mantenha funcionando, as reações bioquímicas necessitam da água e são fundamentais: desde a troca de CO2 por O2 na respiração até a digestão.

    “Ela transporta nutrientes e oxigênio pela corrente sanguínea, mantém a concentração correta para a manutenção do equilíbrio eletrolítico e ácido-base, regula a temperatura corporal, mantém a estrutura celular, incluindo a membrana celular e a estrutura das proteínas e dos ácidos nucleicos (DNA) e é vital para a excreção de substâncias tóxicas pela urina e fezes”, explica.

    “A água é tão crítica para a vida que, se você perder mais que 4% da água corporal total, os sintomas de desidratação irão surgir e, se houver uma perda maior que 15%, ela pode ser fatal”, prossegue o pesquisador.

    Como ocorre a perda da água no organismo?

    No processo de respiração celular, as células humanas convertem os nutrientes e o oxigênio que chegam pela corrente sanguínea em gás carbônico (CO2) e água. Assim, um adulto de cerca de 70 kg ‘fabrica’, aproximadamente, 700 ml de água por dia.

    As perdas de água ocorrem de três maneiras: uma parte corresponde à produção de secreções, como saliva, suco gástrico e suor, por exemplo, a outra parte é eliminada na respiração e uma última parte está presente na urina e nas fezes.

    Embora não haja um volume ideal de água a ser ingerido, o professor Roberto Zatz, da disciplina de Nefrologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, alerta que certos grupos populacionais devem ficar mais atentos à quantidade de água.

    “Alguns grupos costumam ser encorajados a manter um certo nível de consumo, em geral algo próximo aos famosos dois litros/dia, para aumentar o fluxo urinário. Os exemplos são: indivíduos com infecção urinária ou com tendência a desenvolvê-la: embora não haja evidências conclusivas, firmou-se o conceito, muito razoável, de que um fluxo urinário alto dificulta a fixação de bactérias à via urinária”, explica.

    “Outro grupo que pode se beneficiar de um consumo mais alto de fluidos é constituído de pessoas com propensão a formar cálculos urinários ー as ‘pedras nos rins’. Na ausência de tais condições, não há fundamento para o conceito de que o hábito de consumir altas quantidades de água sirva para ‘limpar o organismo’ ou traga qualquer outro benefício”, acrescenta Zatz.

    Mesmo não havendo um valor predeterminado, consumo de água é importante / Manu Schwendener/Unsplash

    Sensação de sede

    O mecanismo da sede é o principal alerta do corpo para a desidratação. Especialistas explicam que o hábito de beber água recorrentemente só se faz necessário, do ponto de vista biológico, quando há a indicação de que o corpo está começando a ficar desidratado, ou seja, quando a sede aparece.

    “Habitualmente já ingerimos mais do que o suficiente ー quando comemos ou bebemos outros tipos de líquidos ー, e se por qualquer motivo deixarmos de fazê-lo, o mecanismo da sede nos obrigará a corrigir eventuais desequilíbrios. A sede é uma espécie de rede de proteção que garante que as perdas de água nunca superem os ganhos, evitando assim que o indivíduo se desidrate”, diz Zatz.

    Os rins são capazes de modificar a concentração da urina por meio da alteração da quantidade de água livre eliminada. Coelho explica que podemos eliminar de 150 ml, em condições de extrema perda de água ou falta de ingestão, a 20 litros de urina em situações de abundância de líquidos e nutrientes.

    Além desses órgãos, o hormônio antidiurético (ADH), conhecido também como vasopressina, produzido na hipófise, também atua na regulação da urina. Quando a concentração de água no organismo diminui, a concentração de eletrólitos, que são minerais se concentra no sangue.

    “Células sensíveis, os osmorreceptores sinalizam para a hipófise, que produz o ADH. Esse hormônio age nos rins, aumentando a reabsorção de água e concentrando a urina”, explica o especialista.

    Nesse processo, o cérebro identifica a concentração sanguínea e, assim, controla o restante dos mecanismos de eliminação hídrica do organismo. O pesquisador explica que é muito difícil o excesso de consumo de água ser perigoso, porém, existem algumas circunstâncias específicas que podem levar a isso.

    “Os rins têm uma grande capacidade de eliminar excessos de água, o que permite uma ingestão máxima superior a 15 litros por dia. Isso significa que, em geral, beber mais líquidos do que o necessário não causa grandes problemas. No entanto, existem algumas situações de intoxicação hídrica, uma espécie de ‘overdose de água’. Essa condição pode resultar de um consumo superior a 15 litros por dia ou de uma ingestão tão rápida, por exemplo, cinco litros em meia hora, que não há tempo para que os rins eliminem o excesso”.

    Um acúmulo excessivo de água no organismo causa diluição de solutos e, em consequência, inchaço cerebral e um quadro neurológico grave que pode ter desfecho fatal, afirma Zatz.

    O pesquisador acrescenta que também existem grupos de risco, como alguns cânceres, que produzem anormalmente um hormônio que dificulta a excreção de água pelos rins, sendo a intoxicação hídrica uma das prováveis primeiras manifestações da doença.

    A doença renal crônica, conhecida também como insuficiência renal crônica, é uma condição em que ocorre a perda lenta dos rins, seja por hipertensão, diabetes ou processos inflamatórios na maioria dos casos. Em fases avançadas, a capacidade de eliminar excessos de água é comprometida.

    O fator idade

    A questão etária é um dos fatores estudados pelo artigo. Há mudanças do corpo com relação à água, conforme a variação da idade. Os idosos, por exemplo, têm maior dificuldade em economizar água quando preciso, afirma Zatz.

    “Se o idoso se mantém lúcido e ativo, não costuma haver grandes problemas. No entanto, a sensação de sede está frequentemente embotada nessas pessoas, especialmente se já têm algum acometimento neurológico sério, como acidentes vasculares anteriores ou demência. Por essa razão, é frequentemente necessário oferecer-lhes água várias vezes ao dia, procedimento observado por bons cuidadores e casas de repouso”, explica.

    Quanto aos jovens, não há necessidade de qualquer recomendação especial segundo o especialista. “É evidente que indivíduos que praticam esportes necessitam de um consumo maior, que pode ser ativo ou motivado pela sede. O mesmo vale para idosos que se mantêm fisicamente ativos”. diz.

    A questão da água, quando analisada do ponto de vista biológico, depende de diversos fatores individuais que juntos modificam a quantidade necessária a ser ingerida. Mas, mesmo não havendo um valor predeterminado, seu consumo é importante.

    “Água é a essência da vida e, por esse motivo, nosso organismo está preparado para conservá-la. Manter a saúde é aprender a ouvir o que o seu corpo fala. Consuma a água que precisa e evite os excessos. Uma forma simples de saber se você está ingerindo pouca água é olhar a sua urina. Se ela estiver bem alaranjada e em pouca quantidade, é provável que esteja concentrada e uma pausa para hidratação seja recomendável”, finaliza Coelho.

    (Com informações de Alessandra Ueno, do Jornal da USP)