Entenda como o descarte incorreto de antibióticos amplia a resistência bacteriana

Relatório da agência para o meio ambiente das Nações Unidas (ONU) chamou atenção para os riscos do descarte de antibióticos na natureza para a saúde global

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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A resistência de microrganismos aos antibióticos é uma das maiores ameaças à saúde global atualmente. O problema está associado diretamente ao uso excessivo e incorreto dos antibióticos disponíveis.

O aumento no número de bactérias resistentes aos medicamentos, chamadas popularmente de superbactérias, coloca em risco a saúde de humanos e de animais em todo o mundo.

Um relatório da agência das Nações Unidas para o meio ambiente aponta que o descarte de antibióticos no meio ambiente amplia a ameaça da resistência antimicrobiana.

O documento estima que somente em 2015 foram consumidas 34,8 bilhões de doses diárias de antibióticos, sendo que até 90% desses medicamentos foram parar no meio ambiente como substâncias ativas.

Na edição desta quarta-feira (13) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, o neurocirurgião Fernando Gomes explicou como funciona o fenômeno da resistência.

“Quando você lança um antibiótico, aquelas bactérias que são sensíveis a determinada substância podem ser eliminadas, mas as outras que são resistentes ganham mais força de proliferação, por isso que é extremamente importante fazer o diagnóstico preciso quando uma pessoa tem determinada infecção”, explica Gomes.

Os antibióticos são medicamentos capazes de matar ou inibir o crescimento de bactérias. A sua eficácia está associada diretamente ao agente causador da infecção. A resistência aos antibióticos acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso dos medicamentos.

“São as bactérias que se tornam resistentes e não os seres humanos. Com o uso inadequado de antibiótico, pode ocorrer um processo de ‘seleção’: enquanto as bactérias ‘sensíveis’ são eliminadas a partir do tratamento, as ‘resistentes’ permanecem e se multiplicam”, explica a pesquisadora Ana Paula Assef, do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Segundo a pesquisadora da Fiocruz, o uso indiscriminado desses medicamentos por instituições de saúde, pela população e em práticas agropecuárias tem contribuído para o aumento da resistência.

A falta de sistemas de saneamento eficazes, com o lançamento de esgoto de hospitais e domicílios no ambiente sem o tratamento adequado, também favorece o aumento da resistência. Na natureza, as bactérias entram em contato com outros microrganismos e resíduos de antibióticos, o que gera novos processos de seleção e resistência.

Além de elevar os custos dos tratamentos, a resistência prolonga a permanência dos pacientes nos hospitais e aumenta os índices de mortalidade. Conforme os antibióticos vão se tornando ineficazes, o número de infecções que se tornam mais difíceis de tratar também tende a aumentar.

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