Pesquisa traz evidências de surgimento de superbactéria na natureza há 200 anos

Processos biológicos naturais, e não o uso de antibióticos, impulsionaram o surgimento da bactéria Staphylococcus aureus resistente, diz estudo

Resistência aos antibióticos acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso dos medicamentos
Resistência aos antibióticos acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso dos medicamentos Gutemberg Brito/IOC/Fiocruz

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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A resistência aos antibióticos acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso dos medicamentos. Uma das maiores ameaças à saúde global atualmente, a resistência está associada diretamente ao uso excessivo e incorreto dos fármacos disponíveis.

Embora o mecanismo de resistência já seja amplamente conhecido pela comunidade científica, um grupo de pesquisa internacional encontrou evidências de que um tipo de bactéria resistente – chamada popularmente de superbactéria, possa ter surgido na natureza muito antes do uso de antibióticos em humanos e animais.

No estudo, publicado no periódico científico Nature, os pesquisadores revelaram que linhagens específicas da bactéria Staphylococcus aureus resistente ao antibiótico meticilina apareceram em ouriços na Europa na era pré-antibiótica. Segundo o artigo, essas linhagens se espalharam dentro das populações locais de ouriços e de hospedeiros secundários, incluindo gado e humanos.

Como se deu o processo de resistência na natureza

Os ouriços podem conviver com fungos da espécie Trichophyton erinacei e com a bactéria Staphylococcus aureus em sua pele.

Os pesquisadores descobriram que, em prol da sobrevivência, esses fungos produzem naturalmente antibióticos com o objetivo de eliminar as bactérias. A partir da exposição contínua a essas substâncias, a bactéria Staphylococcus aureus desenvolveu mecanismos de resistência.

A Staphylococcus aureus resistente à meticilina é conhecida entre a comunidade científica como a superbactéria MRSA (na sigla em inglês). A MRSA foi identificada pela primeira vez em 1960, logo após a introdução da meticilina como uma opção de tratamento contra Staphylococcus aureus resistentes à penicilina.

“A descoberta de que amostras de mecC-MRSA [tipo de Staphylococcus aureus] isoladas em humanos provavelmente se originam de reservatórios de ouriços locais indica que a mecC-MRSA tem sido uma causa de infecções esporádicas em humanos nos últimos 200 anos, mais de um século antes da MRSA ser identificada pela primeira vez em pacientes em 1960″, diz o artigo.

A análise incluiu 828 amostras da área nasal, pele e pés de 276 ouriços provenientes de 16 centros de resgate de vida selvagem em dez países europeus e dois da Nova Zelândia. “Juntos, esses resultados sugerem que a resistência à meticilina surgiu na era pré-antibiótica como uma adaptação coevolutiva de S. aureus à colonização de ouriços infectados por dermatófitos”, diz o estudo.

De acordo com a pesquisa, a evolução de genes de resistência a antibióticos clinicamente relevantes em animais selvagens e a conectividade de ecossistemas naturais, agrícolas e humanos reforçam a necessidade da abordagem em Saúde Única (One Health) para a compreensão e gestão da resistência a antibióticos.

O conceito de Saúde Única inclui abordagens voltadas para o cuidado humano, animal e do meio ambiente, de forma conjunta, como estratégia de saúde pública.

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