Entenda momento em que médicos descobriram 1º paciente dos EUA com varíola dos macacos

Homem foi testado e tratado para infecções comuns, mas resultados foram negativos; médicos identificaram mudanças nas erupções cutâneas compatíveis com a doença

Cynthia S. Goldsmith/CDC

Jacqueline Howardda CNN*

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A Dra. Nesli Basgoz conheceu seu paciente pela primeira vez em maio, quando ele havia sido internado no Hospital Geral de Massachusetts com sintomas bastante comuns para muitas doenças infecciosas – febre, erupção cutânea, fadiga, suores.

Basgoz e seus colegas do hospital testaram o paciente para catapora. O resultado foi negativo. Eles também fizeram o teste para sífilis. E foi negativo.

Os médicos ainda o trataram com antibióticos e antivirais que são usados para infecções comuns enquanto aguardavam os resultados dos vários testes feitos – mas a condição dele não melhorou em resposta a esses tratamentos.

Com o passar dos dias, Basgoz notou que a erupção cutânea do paciente mudou de aparência. Naquele momento, ela sabia que ele não tinha uma doença comum. Sua mente acelerou, juntando peças de um quebra-cabeça médico.

“Algumas das lesões da pele, chamadas pústulas, começaram a fazer cavidades, e essa é uma característica que pode ser vista nos vírus da varíola”, disse Basgoz, que é chefe associada do hospital e diretora clínica da divisão de doenças infecciosas.

“A combinação de não melhorar quando ele foi tratado para coisas comuns; os resultados dos testes para infecções comuns dando negativo; e alguma mudança na aparência da erupção – tudo isso levantou a possibilidade de que pudesse ser um vírus da varíola”, disse ela. Esse foi o momento que ela percebeu que poderia ser a varíola dos macacos.

O paciente, que Basgoz descreveu como “um homem relativamente jovem e saudável”, havia viajado para o Canadá e foi a primeira pessoa a ser confirmada com varíola dos macacos nos Estados Unidos este ano, em meio a um surto global. Até agora, as autoridades de saúde de todo o mundo identificaram mais de 1.200 pacientes em pelo menos 31 países, até sexta-feira (10).

Por que os sintomas no surto atual parecem mais sutis

A varíola dos macacos “não estava inicialmente em nosso radar”, disse Basgoz sobre o tratamento do primeiro caso nos EUA.

À medida que o vírus da varíola dos macacos se espalha, alguns médicos e autoridades de saúde pública notaram que os pacientes apresentam sintomas mais leves que podem ser confundidos com outras doenças. Dois fatores podem ajudar a explicar por que a doença às vezes se apresenta de maneiras mais sutis, disse Basgoz.

“Uma das principais razões é que a cepa dominante associada a este surto é o clado [grupo de organismos originados de um único ancestral comum exclusivo] da África Ocidental, e isso está associado a doenças mais leves”, disse Basgoz, em comparação com o outro, que é o clado da África Central.

“Até agora, dos pacientes que são relatados, há um grande número de pessoas relativamente jovens e saudáveis”, disse Basgoz. “Quando você vê uma infecção em pessoas relativamente jovens e saudáveis, geralmente é mais leve do que quando você vê em pessoas mais velhas ou com outras condições médicas”.

A varíola dos macacos se espalha através do contato direto com fluidos corporais ou feridas no corpo de alguém que foi infectado, ou através do contato direto com materiais que tocaram fluidos corporais ou feridas, como lençóis ou roupas, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA.

A propagação da varíola dos macacos por meio de pequenas partículas de vírus que permanecem no ar “não foi relatada”, disse o CDC em orientações publicadas na quinta-feira (9). A doença pode se espalhar através de “saliva ou secreções respiratórias” durante o contato pessoal, mas essas secreções “caem do ar rapidamente”, e esse método de transmissão parece incomum.

O CDC disse que o risco para o público em geral permanece baixo, mas os profissionais de saúde devem estar alertas para pacientes com erupções cutâneas ou doenças consistentes com a varíola dos macacos.

“Historicamente, as pessoas com varíola dos macacos relatam sintomas semelhantes aos da gripe, como febre, dores no corpo e glândulas inchadas, antes que uma erupção cutânea característica, muitas vezes difusa, apareça em vários locais do corpo, geralmente no rosto, braços e mãos. Mas durante o surto atual, alguns pacientes desenvolveram uma erupção cutânea localizada, muitas vezes ao redor dos órgãos genitais ou ânus, antes de experimentar qualquer sintoma de gripe, e alguns nem desenvolveram tais sintomas de gripe”, disse a diretora do CDC, Rochelle Walensky, em uma notícia para imprensa na sexta-feira.

Ela acrescentou que, para alguns pacientes, a erupção cutânea nem sempre se estende além de seu local inicial para outras partes do corpo, ou pode aparecer apenas em alguns locais do corpo.

“Isso pode parecer um monte de coisas diferentes – as febres, calafrios, dores no corpo, dores de cabeça sobre as quais temos na Covid-19 também podem ocorrer como o pródromo, os primeiros sinais ou sintomas, da varíola dos macacos”, disse a Dra. Christina Wojewada, presidente do comitê de microbiologia do College of American Pathologists e diretora de microbiologia clínica do Centro Médico da Universidade de Vermont. Ela não esteve envolvida nas orientações publicadas pelo CDC.

“As próprias lesões podem se confundir com as lesões de herpes ou catapora ou sífilis, e assim as clínicas de doenças sexualmente transmissíveis podem estar atendendo mais desses pacientes por causa disso, porque elas podem se apresentar de forma semelhante a essas doenças”, disse Wojewada. “Então, acho importante que os pacientes e os médicos forneçam um histórico completo de suas exposições potenciais para que, se apropriado, o teste para varíola dos macacos possa ser realizado”.

Tubos de ensaio com rótulos sobre vírus da varíola dos macacos / Dado Ruvic/Reuters

É necessário aumentar a testagem para varíola dos macacos

Os 45 pacientes com varíola dos macacos que foram identificados nos Estados Unidos até agora estão localizados em 15 estados e em Washington, DC, e o vírus não parece estar se espalhando em “uma área específica” do país, disse uma autoridade do CDC à imprensa nesta sexta-feira.

“Até agora, não temos uma área identificada nos Estados Unidos que pareça estar tendo um surto urbano, como o que foi relatado em Montreal e alguns outros lugares. Não temos uma área onde pareça haver muita transmissão comunitária acontecendo”, disse a Dra. Jennifer McQuiston, veterinária e vice-diretora da Divisão de Patógenos e Patologia de Alta Consequência do CDC, na nota divulgada.

A maioria dos casos nos Estados Unidos – 75% ou mais – ainda relata que pode ter sido exposta ao vírus durante viagens internacionais, disse McQuiston. Alguns outros pacientes relataram contato com um caso conhecido de varíola dos macacos e foram identificados através do rastreamento de contatos.

Mas há também alguns pacientes que não têm certeza de como contraíram a varíola dos macacos, “e isso pode sugerir que há alguma transmissão comunitária acontecendo em níveis abaixo do que chama a atenção das autoridades de saúde pública”, disse McQuiston.

“Existem apenas esses casos esparsos ocasionais que não têm certeza de como contraíram a varíola dos macacos”, acrescentou ela. “Com toda a probabilidade, contraíram a doença de alguém que viajou recentemente, mas eles não têm certeza – e essa é a situação em que estamos nos EUA agora. Isso pode mudar. Podemos começar a ter a transmissão comunitária, e eu acho que precisamos ter certeza de que nossos testes estão aumentando e que poderemos identificar quando isso acontecer”.

Pesquisadores do CDC e autoridades de saúde publicaram um relatório na semana passada descrevendo como, entre os 17 casos descritos no relatório em nove estados, todos experimentaram erupção cutânea como sinal da doença e a maioria dos casos foi diagnosticada em homens que se identificam como gays, bissexuais ou homens que fazer sexo com homens (HSH).

“A alta proporção de casos iniciais diagnosticados neste surto em pessoas que se identificam como gays, bissexuais ou outros HSH pode simplesmente refletir uma introdução precoce da varíola dos macacos em redes sociais interconectadas; essa descoberta também pode refletir viés de averiguação por causa de relacionamentos fortes e estabelecidos entre alguns HSH e provedores clínicos com serviços robustos de DST e amplo conhecimento de doenças infecciosas, incluindo condições incomuns”, escreveram os pesquisadores do CDC no relatório.

“No entanto, as infecções muitas vezes não se limitam a certas geografias ou grupos populacionais; porque o contato físico próximo com pessoas infectadas pode espalhar a varíola dos macacos, qualquer pessoa, independentemente do sexo ou orientação sexual, pode adquirir e espalhar a varíola dos macacos”.

A Dra. Basgoz, do Hospital Geral de Massachusetts, espera que, embora as pessoas estejam cientes de como podem ser os sintomas da varíola dos macacos neste surto, elas devem entender que o risco é baixo e não estigmatizar a doença.

Afinal, os vírus estão ao nosso redor, disse ela, e trilhões de microorganismos vivem em nossos corpos sem que percebamos, com vírus superando as bactérias.

“Eles estão em toda parte”, disse Basgoz. “A maioria deles não nos deixa doentes, mas ocasionalmente pode acontecer, por isso eu realmente gosto de colocar isso em contexto para as pessoas”.

 

*Com informações de Michael Nedelman, da CNN.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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