Entenda o debate sobre a redução da quarentena para a Covid-19 de assintomáticos

Redução no tempo de isolamento é alvo de divergentes opiniões de especialistas em saúde pública no Brasil e no mundo

Avanço da vacinação e a adoção de medidas de prevenção como o uso de máscaras e a higienização das mãos contribuem para reduzir as mortes pela Covid-19
Avanço da vacinação e a adoção de medidas de prevenção como o uso de máscaras e a higienização das mãos contribuem para reduzir as mortes pela Covid-19 Fernando Frazão/Agência Brasil

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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O Ministério da Saúde reduziu o período de quarentena da Covid-19 para pacientes que testaram positivo e estão com casos leves e moderados. O prazo foi alterado de dez para sete dias, de acordo com o ministro Marcelo Queiroga.

Se no quinto dia o paciente estiver sem sintomas respiratórios, sem febre e uso de medicamentos há 24 horas, ele pode realizar a testagem. Caso o resultado seja negativo, poderá sair do isolamento. Com o resultado seja positivo, o isolamento deve continuar até o décimo dia.

A quarentena é o tempo indicado para que pessoas infectadas permaneçam em isolamento, mantendo a distância de outros indivíduos, com o objetivo de evitar a propagação da doença. A redução no tempo de isolamento é alvo de debate por especialistas em saúde pública.

A CNN consultou a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), que informou que, até o momento, não tem um posicionamento sobre o assunto. Nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) reduziram o tempo de isolamento recomendado de dez para cinco dias para assintomáticos após teste positivo para a Covid-19.

Especialistas apontam falta de dados para avaliar redução

Diante de uma nova linhagem do coronavírus, a comunidade científica busca responder questões como transmissibilidade, gravidade da doença, capacidade de detecção pelos testes de diagnóstico e os impactos para a eficácia das vacinas contra a Covid-19 em uso.

Segundo epidemiologistas, responder a essas dúvidas com base em critérios científicos mais robustos demanda tempo.

A cepa Ômicron do novo coronavírus, detectada em novembro de 2021 e classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma variante de preocupação, apresenta uma alta transmissibilidade, com capacidade superior à da variante Delta, também altamente transmissível. Os achados científicos apontam que a variante Ômicron também está associada a quadros clínicos mais leves da Covid-19.

A médica infectologista Luana Araújo avalia que faltam dados para realizar qualquer redução no prazo de isolamento de forma segura no contexto da variante Ômicron.

“As características clínicas da Ômicron parecem ser um pouco diferentes das outras variantes. Ela tem uma proliferação em via respiratória alta e outros fatores que podem interferir no tempo de transmissão. Não temos dados concretos reais para dizer se cinco dias são suficientes para que a redução seja feita de forma segura. Exatamente por isso a decisão do CDC tem sido tão criticada, ela não tem uma base científica, tem uma base de necessidade econômica, de recursos humanos”, diz.

A opinião é compartilhada pelo presidente da Sociedade Paulista de Infectologia, Carlos Fortaleza. Em entrevista à CNN, Fortaleza afirmou que a medida “não faz sentido do ponto de vista científico”, já que o “pico da transmissibilidade acontece, justamente, entre o 5º e 6º dia após o diagnóstico positivo”.

“Liberar a pessoa neste período desde que use máscara não faz nenhum sentido, isso foi uma concessão do CDC, dos Estados Unidos, à pressão econômica. É importante lembrar que os Estados Unidos não são um bom exemplo no controle da Covid-19”, completou.

Para o infectologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Júlio Croda, a alta transmissibilidade da variante Ômicron deve ser avaliada na tomada de decisão pelo Ministério da Saúde no Brasil.

“Talvez não seja o período ideal para reduzir para cinco dias de isolamento. Tudo tem que ser observado: o risco-benefício, o número de trabalhadores afastado e o CDC está levando em conta justamente isso, o impacto econômico desses afastamentos, principalmente em atividades essenciais”, disse Croda em entrevista à CNN.

Decisão sobre redução deve ser acompanhada de medidas de saúde pública

A infectologista Luana Araújo avalia que qualquer redução no prazo recomendado de isolamento de pacientes com a Covid-19 deve ser acompanhada de medidas de saúde pública, como a testagem e o acompanhamento do quadro clínico dos pacientes.

“Os Estados Unidos oferecem testagem gratuita, têm um serviço de telemedicina muito mais avançado que o nosso, existem outras medidas de saúde pública que compõem um pacote que talvez permitam esse tipo de redução – ainda assim extremamente criticado e muito provavelmente pouco inteligente”, disse.

Para a especialista, a inconstância na divulgação das estatísticas da pandemia no Brasil pelo Ministério da Saúde, ampliada pelo apagão de dados da pasta, também aumenta o risco em relação à adoção de prazo mais curto de quarentena no país.

“Nós não temos um programa amplo de testagem, temos uma campanha contra a vacinação promovida pelos próprios órgãos públicos. Reduzir o tempo de isolamento é favorecer a proliferação do vírus e tapar o sol com a peneira”, afirmou.

Para a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, o tempo de isolamento deve ser o mesmo para pacientes sintomáticos e para aqueles que não apresentam sinais da doença.

“O ideal é o isolamento de sete dias para todo mundo por que o critério de ter sintomas é muito subjetivo. Às vezes, as pessoas não dão importância aos sintomas. O mais seguro seria um isolamento de sete dias para todo caso confirmado de Covid-19”, diz.

Segundo a especialista, ampliar a disponibilidade de testes de diagnóstico é uma medida estratégica no enfrentamento da pandemia. “A testagem é bem-vinda e necessária nesse momento da pandemia, para que as pessoas tenham a segurança se estão ou não transmitindo o vírus e possam ter mobilidade social”, afirmou.

Vírus também pode ser transmitido por assintomáticos

A avaliação da redução no prazo de isolamento de pacientes assintomáticos também esbarra na comprovação científica de que o vírus SARS-CoV-2, causador da Covid-19, também pode ser transmitido por pessoas que não têm sintomas da doença.

O pesquisador Flávio Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, explica que, entre as pessoas que apresentam sintomas, o momento de maior transmissão é antes, durante e depois dos sinais da doença.

“A pessoa começa a ficar infecciosa dentre um ou dois dias antes do surgimento dos sintomas e permanece no pico da infecção em até três a cinco dias após o aparecimento dos sintomas. Esse é o período em que a pessoa está mais infecciosa. Se a pessoa está assintomática, como ela vai saber que teve a doença? Ela fez o teste por acaso? Há uma série de lacunas que não estão explicadas”, diz.

Segundo o pesquisador, a maior capacidade de transmissão da variante Ômicron pode estar relacionada à presença mais intensa do vírus nas vias aéreas superiores, que incluem a cavidade nasal, faringe e laringe.

“O vírus é o mesmo, ele é mais transmissível por que gera uma quantidade maior de vírus nas vias aéreas superiores e de forma mais rápida. Por isso, ele é mais infeccioso. No entanto, a principal forma de transmissão é a mesma, pela via aérea, ou seja, tosse, espirro e pela fala. Prevenimos o contágio pelo distanciamento, uso de máscaras, higienização das mãos e evitando aglomerações”, disse Fonseca.

Para a pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, a alta de casos registrada no país nas últimas semanas destaca a necessidade de reforço das medidas de prevenção.

“A cepa Ômicron é extremamente transmissível. Portanto, os cuidados pessoais de controle nunca foram tão importantes. É preciso manter os cuidados individuais e coletivos com muito mais rigor do que antes, visto que está todo mundo cansado e há um relaxamento”, disse.

CDC reduziu prazo recomendado nos Estados Unidos

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos reduziram o tempo de isolamento recomendado em caso de resultado positivo para Covid-19 de dez para cinco dias para assintomáticos.

A decisão publicada pelo CDC no dia 27 de dezembro reforça a necessidade de utilização de máscaras por pelo menos mais cinco dias quando os infectados estiverem próximos de outras pessoas. “A mudança é motivada pela ciência que demonstra que a maior parte da transmissão do SARS-CoV-2 ocorre no início do curso da doença, geralmente 1-2 dias antes do início dos sintomas e 2-3 dias depois”, disse o CDC em nota.

De acordo com a diretora do CDC, Rochelle Walensky, a decisão também considerou o rápido espalhamento da variante Ômicron. “As recomendações atualizadas do CDC para isolamento e quarentena equilibram o que sabemos sobre a propagação do vírus e a proteção fornecida pela vacinação e doses de reforço. Essas atualizações garantem que as pessoas possam continuar com segurança suas vidas diárias”, disse Rochelle em nota.

Segundo a especialista, a prevenção deve incluir a adesão à vacinação e dose de reforço, o uso de máscara em ambientes públicos fechados, em áreas de transmissão significativa e alta, e a testagem antes de encontros e reuniões.

No dia 4 de janeiro, o CDC atualizou as recomendações de isolamento e quarentena da Covid-19 com isolamento mais curto (para pessoas assintomáticas e com doenças leves) e períodos de quarentena de cinco dias para se focar no período em que uma pessoa está mais infecciosa, seguido por uso de máscara contínuo por mais cinco dias. O CDC orienta atenção ao surgimento de sintomas até 10 dias após o último contato próximo com alguém com a doença.

“É um debate importante científico, não temos consenso na comunidade científica a respeito desse assunto. É importante observar como vai evoluir a pandemia para entendermos se é uma medida importante ou não, principalmente no que diz respeito a preservar a força de trabalho”, disse o pesquisador da Fiocruz, Júlio Croda.

(Com informações de Amanda Garcia, Bel Campos, Douglas Porto e Layane Serrano da CNN)

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