Entenda o que são drogas sonoras e como elas podem afetar o cérebro

Drogas digitais na forma de áudios estão associadas a batidas que supostamente induzem a experiências de alteração da consciência

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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Enquanto o uso de drogas psicoativas geralmente envolve a ingestão de substâncias, as drogas digitais na forma de áudios estão associadas a batidas que supostamente induzem a experiências de alteração da consciência.

Esses efeitos são possíveis por meio de um fenômeno perceptivo que ocorre ao apresentar dois tons separadamente para cada orelha que diferem ligeiramente em sua frequência. Os sons, que se incorporam às ondas cerebrais, teriam então a capacidade de levar a efeitos cognitivos e mentais.

Uma variedade de aplicativos pode ser usada para comprar as chamadas “batidas binaurais”, com diferentes ritmos com nomes de substâncias específicas.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Austrália e do Reino Unido apontou que 5% da população já utilizou esse tipo de tecnologia para experimentar estados alterados, com as maiores taxas tendo sido registradas nos Estados Unidos, México, Brasil, Polônia, Romênia e Reino Unido. Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico Drug and Alcohol Review.

Na edição desta segunda-feira (18) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, o neurocirurgião Fernando Gomes abordou os riscos do uso das drogas sonoras para a saúde.

Segundo o especialista, é possível produzir efeitos semelhantes no organismo a partir do estímulo sonoro em diferentes frequências em cada orelha.

“Boto 140 Hertz em uma e 149 em outra, essa diferença de nove Hertz o cérebro tenta fazer a compensação e isso provocaria uma terceira sensação, com alguma coisa diferente que faz com que você então faça essa descrição de que a percepção dentro da cabeça está diferente”, explica.

Os sons são capazes de estimular a estrutura cerebral de maneiras diferentes, além do córtex auditivo relacionado à percepção humana do som.

“A batida pode ser sentida e você pode querer de alguma forma fazer um movimento semelhante. Pode estimular o córtex visual, têm pessoas que conseguem além de escutar a música quase que enxergar uma cena ou até mesmo sentir a própria música quando você sabe ler uma partitura”, afirma.

O neurocirurgião explica que esse tipo de tecnologia não é capaz de levar à dependência, um dos principais riscos do uso de outros tipos de drogas. No entanto, são necessários cuidados para evitar a possibilidade de perda auditiva.

“Para potencializar a experiência, o jovem que é muito curioso aumenta o volume e coloca o seu aparelho auditivo em risco. Sabemos que você escutar por um tempo muito prolongado uma determinada música ou barulho mesmo pode provocar lesão definitiva no ouvido”, alerta.

Diferentes usos da tecnologia

Pesquisas investigando batidas binaurais detectaram efeitos positivos para alívio da dor, redução da ansiedade e memória. No entanto, houve descobertas conflitantes em torno de seus efeitos na concentração.

Além de poucas pesquisas explorando o recurso como terapias ou aprimoramentos cognitivos, há também poucos estudos que abordem as drogas digitais como substitutos ou em combinação com substâncias psicoativas.

Na pesquisa, os participantes foram perguntados sobre as motivações para o uso das drogas sonoras. As respostas mais comuns para o uso das batidas binaurais foram “para relaxar ou adormecer” (72,2%) e “para mudar meu humor” (34,7%), enquanto 11,7% relataram tentar “obter um efeito semelhante ao de outras drogas”.

A última motivação foi mais comumente relatada entre aqueles que usaram psicodélicos clássicos. A maioria buscou “se conectar consigo mesmo” (53,1%) ou “algo maior que si” (22,5%) por meio da experiência.

De acordo com o estudo, as batidas binaurais foram acessadas principalmente por meio de sites de streaming de vídeo por meio de telefones celulares.

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