Estudo identifica morte por recorrência da Covid-19 no Brasil

Farmacêutico de 44 anos apresentou reincidência 38 dias após o diagnóstico, em caso ocorrido no Sergipe

Paciente com coronavírus recebe oxigênio em tratamento
Paciente com coronavírus recebe oxigênio em tratamento Foto: Bruno Kelly/Reuters

Letícia Brito Silva*, da CNN, em São Paulo

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Um farmacêutico de 44 anos morreu de sintomas graves de Covid-19 pouco mais de um mês após ter sido diagnosticado com a doença e apresentado sintomas leves. O caso ocorreu no Sergipe e foi analisado em um estudo de “recorrência da contaminação” realizado pela Universidade Federal do estado, que constatou a morte pela doença mesmo após a recuperação inicial.

O paciente, do tipo sanguíneo O+ e com comorbidades, testou positivo para a doença em maio de 2020 e apresentou nove dias de sintomas leves. Após o período indicado para recuperação, voltou às atividades normais, mas tornou a apresentar sintomas, dessa vez mais graves. A reincidência ocorreu cerca de 38 dias após o diagnóstico. Ele então fez um segundo teste rT-PCR, que apresentou resultado positivo para a Covid-19 em junho. O homem precisou ser internado em um leito de UTI, mas morreu 20 dias depois da volta dos sintomas.

O estudo, feito pela Universidade Federal Sergipe e outras instituições, foi publicado na última semana (12) pela revista médica britânica Journal of Infection. A pesquisa observou 33 casos de pacientes que, após terem se recuperado da Covid-19 com um quadro leve ou assintomático, apresentaram uma recorrência de sintomas da doença. O tempo médio de reapresentação de sintomas foi de 50 dias.

De acordo com a pesquisa, esse é o primeiro estudo detalhado sobre casos de recorrência de sintomas de pessoas que testaram positivo para a Covid-19. A constatação dos cientistas é de que há evidências de que o contágio pelo coronavírus ofereça proteção imune insuficiente, ou seja, ainda é possível apresentar sintomas e até ter um novo episódio da doença.

“Esses episódios foram significativamente associados com uma resposta reduzida de anticorpos durante o primeiro contágio e trazem à tona o debate sobre a necessidade de constante vigilância sem uma presunção de imunidade após a infecção”, diz o estudo.

Durante a pesquisa, os cientistas compararam um grupo de 33 casos de pacientes que apresentaram sintomas recorrentes de Covid-19 com outro grupo de 62 pacientes que tiveram os sintomas apenas uma vez. Dos casos que apresentaram a recorrência de sintomas, foram selecionados pacientes de todos os gêneros acima de 18 anos e que tiveram pelo menos dois testes RT-PCR positivos para a Covid-19. Entre os selecionados, os pacientes também apresentaram uma recuperação clínica completa na primeira infecção, cumpriram isolamento por pelo menos 14 dias.

Dentre os casos observados, não foi possível distinguir formalmente a diferença entre um caso de reinfecção ou o surgimento de sintomas crônicos relativos ao primeiro contágio, ou seja, sintomas ocasionados pela longa permanência do vírus no organismo, por exemplo, com ele ativo. Em apenas um caso os cientistas realizaram o sequenciamento genético, que resultou na confirmação de reinfecção em um paciente.

Trabalhadores de saúde mais suscetíveis

Dos 33 pacientes estudados, fizeram três recortes: um por gênero (das 33 pessoas, 26 eram mulheres), 30 deles eram profissionais de saúde (91% do total), tendo entre 22 a 58 anos, e por tipo sanguíneo (42% apresentaram tipo A+).

De acordo com os cientistas, “ficou evidenciado com esse estudo e outros que os indivíduos infectados apresentam uma resposta imunológica variável e, em uma minoria significativa, isso pode ser insuficiente para oferecer proteção numa infecção posterior. Esses indivíduos permanecem em risco, especialmente quando estão inseridos na linha de frente da saúde. Tais descobertas alertam contra a complacência daqueles que se recuperaram da infecção e oferece um aviso para busca de proteção por meio da imunidade de rebanho”.

Para os pacientes que voltaram a apresentar os sintomas, 12,1% deles precisaram de hospitalização, sendo que nenhum dos pacientes havia precisado na primeira infecção. Dos pacientes hospitalizados, dois foram internados na UTI – dos quais um morreu.

As amostras foram obtidas mediante convênio firmado através do “Monitora Corona”, projeto da Universidade Federal de Sergipe para monitoramento telefônico diário de casos confirmados de Covid-19 e tratados no Centro de Doenças Respiratórias (CDR) do Instituto de Promoção e Assistência à Saúde dos Servidores do Estado de Sergipe (IPESAÚDE-SE). Estudantes de medicina acompanharam os sintomas dos pacientes por telefone a cada 24 ou 48 horas, cadastrando os dados online numa plataforma criada pela Universidade e através de teleatendimento ambulatorial.

O estudo reuniu cientistas da UFS, Fiocruz, UFBA, UFMG, UESC, LACEN/SE, IPEASAUDE do estado do Sergipe e pesquisadores da Imperial College de Londres, no Reino Unido.

*Sob supervisão de Giovanna Bronze

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