Ex-ministros da Saúde divergem sobre cloroquina e discordam da politização

O Debate 360 trouxe os ex-ministros da Saúde Arthur Chioro e Ricardo Barros, atualmente deputado federal pelo PP, para discutir o protocolo da cloroquina

Da CNN, em São Paulo

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O Ministério da Saúde aprovou nesta quarta-feira (20) o protocolo que libera o uso da cloroquina e hidroxicloroquina para uso em pacientes da Covid-19 no início do tratamento. O assunto vem se arrastando há semanas, com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sendo um dos principais entusiastas do remédio cujo efeito contra o coronavírus não tem eficácia comprovada. Para analisar a questão, o Debate 360 da CNN trouxe os ex-ministros da Saúde Arthur Chioro e Ricardo Barros (PP-PR), atualmente deputado federal.

Em sua fala inicial, Barros relembrou que o Conselho Federal de Medicina (CFM) já havia aprovado o uso da cloroquina associada a azitromicina como um tratamento válido contra a Covid-19, e disse que o protocolo aprovado hoje foi apenas um fato político, que pouco muda a situação na prática. “A portaria não traz fato novo, apenas corrobora a decisão do CFM. Foi apenas um ato político para posicionar o governo, mas na prática não muda o que já estava autorizado.”

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Chiori vê a decisão de forma diferente, e classifica como “criminosa” a decisão, pois afirma que não há nenhum estudo que comprova a eficácia do remédio, e prevê que muitos médicos não irão recomendar o uso da cloroquina a seus pacientes. “Médicos brasileiros não irão cumprir o protocolo, que vai contra princípios éticos da profissão médica. Além de tudo, o texto da portaria foi mal formulado, não foi assinado por ninguém e sequer consta nele o timbre do Ministério da Saúde. O protocolo deve ser desrespeitado.”

“Cada profissional tem responsabilidade, e o paciente deve assinar termos caso use o medicamento”, relembrou Barros, que minimizou os efeitos colaterais do medicamento ao lembrar que para tratamento da Covid-19, a cloroquina é usada por apenas 5 dias ante o uso por um mês para tratamento de malária – doença a qual o remédio foi feito para combater. “Para o uso por pouco tempo, não vejo prejuízo.”

Chiori defende que a narrativa criada em torno da cloroquina tem o efeito de desmobilizar ações de isolamento social, que em sua visão são as únicas medidas capazes de conter o avanço do coronavírus, e disse que os principais órgãos de pesquisa do mundo não comprovam a eficácia do medicamento. “Bolsonaro criou um Fla-Flu em torno de um medicamento, criando uma polêmica que parece estar sendo usada para desarmar as políticas de isolamento. A discussão gira em torno de uma decisão sem princípios científicos.”

Barros concordou com a crítica sobre a politização do remédio feita por Chiori ao definir o protocolo como “ato político”, mas que assim como não há comprovação de que a cloroquina pode ajudar na luta contra a Covid-19, não há evidências de que ela atrapalha no tratamento. “Temos que entender que não há nenhum prejuízo em prescrever a cloroquina.”

Chiori então se colocou contra a afirmação de Barros, e disse que o Brasil é o primeiro caso na história de um país que está sendo usado de “cobaia” de um medicamento em larga escala. “População brasileira virou um grande experimento. É o primeiro caso de um país que usa de forma ilimitada um medicamento sem provas científicas. Pior que isso, ele passa a ideia para a população de que temos armas para enfrentar a doença, estamos ludibriando nossa população.”

Já Barros entende que vivemos um momento ímpar, em que pesquisas e experimentos tradicionais não cabem no momento. “Quando se está em uma pandemia, é preciso tomar atitudes extraordinárias já que todo o mundo está aprendendo a lidar com a Covid-19. Dificilmente teremos mortes pela cloroquina, mas teremos morte pelo não uso do medicamento.”

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