Exposição à luz noturna eleva risco de doenças cardiovasculares, diz estudo

Pesquisa com quase 89 mil participantes identificou associação mais forte entre mulheres e adultos mais jovens após quase uma década de acompanhamento

Larissa Soave e Ana Julia Bertolaccini, da CNN Brasil*, em São Paulo
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Um estudo publicado na revista médica Jama Network Open acende um alerta para pessoas que deixam luzes acesas ou utilizam telas durante a noite. Segundo a pesquisa, a exposição à luz noturna pode estar associada a um maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares em adultos. Entre os resultados, destaca-se o aumento de 56% no risco de insuficiência cardíaca.

A pesquisa, intitulada "Exposição à Luz Noturna e Incidência de Doenças Cardiovasculares" em tradução livre, foi conduzida por uma equipe de pesquisadores vinculados a instituições da Austrália, dos Estados Unidos e do Reino Unido, liderada por Daniel P. Windred.

Foram analisados dados de 88.905 participantes do UK Biobank que não apresentavam histórico de doenças cardiovasculares no início do monitoramento. Os pesquisadores utilizaram sensores de luz de pulso, semelhantes a relógios, usados pelos participantes durante uma semana em seus ambientes habituais. Os voluntários tinham idade média de 62,4 anos, sendo 56,9% mulheres. Os registros foram acompanhados por um período médio de 9,5 anos, entre junho de 2013 até novembro de 2022.

Os participantes foram divididos em grupos de acordo com a intensidade de exposição à luz no período entre 0h30 e 6h. Ao comparar pessoas que passavam a noite em ambientes mais escuros (percentis de 0 a 50) com aquelas expostas aos níveis mais elevados de luz noturna mais brilhante (percentis de 91 a 100), os pesquisadores observaram um aumento significativo no risco de desenvolver condições cardiovasculares graves.

As doenças notadas nesse cenário de risco são cinco:

  • Insuficiência cardíaca: risco aumenta em 56%.
  • Infarto do miocárdio (ataque cardíaco): risco aumenta em 47%.
  • Doença arterial coronariana: risco aumenta em 32%.
  • Fibrilação atrial (arritmia): risco aumenta em 32%.
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC/derrame): risco aumenta em 28%.

Os pesquisadores também isolaram outros fatores de risco tradicionais, constatando que o risco notado não é causado por: estilo de vida (como falta de atividade física ou consumo de álcool), fatores socioeconômicos e moradia em áreas urbanas, qualidade do sono ou predisposição genética.

Outro destaque dos resultados foi a identificação dos grupos mais afetados. A associação entre a exposição à luz noturna e o risco de insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana foi significativamente mais forte entre as mulheres do que entre os homens. Além disso, o impacto negativo sobre a insuficiência cardíaca e a fibrilação atrial também foi mais pronunciado em indivíduos mais jovens, especialmente aqueles com menos de 40 anos.

Segundo os autores, uma possível explicação para esse resultado é que a sensibilidade do sistema circadiano à luz tende a diminuir com o envelhecimento, tornando os indivíduos mais jovens potencialmente mais suscetíveis aos efeitos da exposição luminosa durante a noite. 

Entenda por que a luz à noite faz mal

A luz noturna, de acordo com o estudo, causa uma disfunção circadiana, desregulando o nosso relógio biológico de 24 horas e impacta diretamente o sistema cardiovascular de várias formas:

  • A pressão arterial é afetada, já que a perturbação crônica altera o ritmo da pressão, mantendo médias de 24 horas mais elevadas.
  • Pode induzir um estado de hipercoagulabilidade, aumentando as chances de formação de coágulos e trombos.
  • Prejudica a tolerância à glicose e eleva o risco de diabetes tipo 2, que danifica os vasos sanguíneos.
  • Gera conflitos de sinais elétricos no coração, propiciando arritmias.

A recomendação dos autores é que, considerando esse novo e importante risco, as pessoas sigam a recomendação de evitar a exposição à luz brilhante à noite,  controlando a luz artificial dos ambientes e evitando usar telas antes de dormir, por exemplo, além de associar essa prática às recomendações tradicionais, como comer bem, fazer exercícios e evitar álcool ou cigarro.

*Sob supervisão de Jorge Fernando Rodrigues