Fibromialgia: por que existe tanta dificuldade no diagnóstico?
Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Fibromialgia é celebrado em 12 de maio

O Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Fibromialgia, celebrado nesta terça-feira (12), acende luz sobre uma condição que ainda traz muitas dúvidas sobre o diagnóstico. A data serve para fomentar o debate e também para incluir a temática em agendas de saúde a fim de ajudar quem lida com o problema.
A fibromialgia é uma doença reumática que atinge 3% da população brasileira, sendo em sua maioria mulheres, de acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia. Os sintomas são difusos, por isso há tanta dificuldade para chegar a um tratamento adequado com a ajuda de profissionais.
Segundo Thiago Ferreira, médico, coordenador de Reumatologia da Afya Educação Médica e professor na unidade Ribeirão Preto, a doença afeta diretamente a rotina de quem lida com a situação.
"A fibromialgia se caracteriza principalmente por dor crônica e difusa pelo corpo, geralmente associada a cansaço intenso, sono não reparador, sensação de rigidez, formigamentos, dor de cabeça e dificuldade de memória ou concentração. É comum o paciente dizer: “eu durmo, mas acordo cansado”. A doença não causa deformidades nem destruição das articulações, mas pode comprometer muito a qualidade de vida", declarou ele à CNN Brasil.
Ferreira explicou que a demora para chegar a um diagnóstico na maioria dos casos se deve ao fato da condição não ser identificada através de exames cotidianos.
"A fibromialgia não aparece em exames de sangue ou de imagem. O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente, no padrão da dor e na exclusão de outras doenças que podem causar sintomas parecidos, como hipotireoidismo, doenças inflamatórias, anemia, distúrbios do sono e depressão. Além disso, por muito tempo a dor da fibromialgia foi subestimada, o que atrasou o reconhecimento adequado da condição", informou o médico.
Mais relatos
Para Marcelo Valadares, responsável pela área de neurocirurgia funcional na Unicamp, especialista em dor crônica e conselheiro científico da Associação Nacional de Fibromiálgicos e Doenças Correlacionadas (Anfibro), pacientes relatam que a doença dá a impressão de que todo o corpo dói.
"O principal sintoma é dor no corpo todo. A pessoa fala que parece que foi atropelada, que tudo dói, que 'parece que não tem uma parte do meu corpo que não dói'", detalhou.
"Parece uma dor muscular, só que mais profunda, contínua e às vezes a pessoa já tem a queixa disso há muitos anos. Não é só dor, existe uma fadiga muito grande. dificuldade de dormir, falha de memória, algo chamado como 'fibrofog', como se fosse uma névoa", comentou.
Marcelo também comentou que pacientes relatam que até simples toques costumam causar sensações desagradáveis. "Há uma percepção aumentada ao toque, é como se o toque fosse incômodo e até mesmo doloroso", apontou.
Sobre as formas de diagnóstico, o especialista afirmou que existe uma dificuldade de chegar a um consenso porque o diagnóstico é clínico. "Depende muito de tirar a história do paciente", comentou.
"Existe muita diferença entre um paciente e outro. Existem alguns que têm mais percepção dolorosa e existem outros que têm mais fadiga e predomínio de outros sintomas, além da percepção de dor aumentada", comentou. Ele destacou que nesse processo muitos pacientes migram de um médico para outro.
Atualmente, ele avalia que existe uma maior tendência em se diagnosticar a fibromialgia. "Tem diminuído bastante o preconceito com a fibromialgia. Por muito tempo, a fibromialgia foi tida como doença emocional, psiquiátrica e até exagero. Era desvalorizada e complicava o diagnóstico", declarou.
Tratamento
Ao contrário de doenças que são tratáveis com remédios, a fibromialgia depende de diversas manobras para que os pacientes tenham alívio dos sintomas. "O tratamento mais importante é não medicamentoso: atividade física regular, especialmente exercícios aeróbicos e fortalecimento, educação sobre a doença, melhora do sono e manejo do estresse", apontou Thiago Ferreira.
Ele seguiu: "Medicamentos podem ser usados em alguns casos para modular a dor, melhorar o sono ou tratar ansiedade e depressão associadas, mas não devem ser vistos como solução isolada. O melhor resultado costuma vir de um plano individualizado e multidisciplinar. A Sociedade Brasileira de Reumatologia também destaca o exercício físico como parte central do tratamento".
Marcelo Valadares, por sua vez, fez um alerta. "Não é qualquer exercício físico. Precisa ter exercício aeróbico e fortalecimento muscular, mas a lógica é diferente. O paciente pode fazer o exercício e se sentir muito pior, ter uma queda funcional com uma dor aumentada. Quem prescreve e orienta esse exercício precisa entender que isso é gradual."
Legislação
Em 2025, foi sancionada a Lei 15.176/2025, que reconhece a fibromialgia como deficiência no Brasil. Para o reumatologista Thiago Ferreira, a medida é um avanço, mas ainda há muitos pontos a se ajustar em termos de conscientização.
"A Lei nº 15.176/2025 trouxe um avanço importante ao reconhecer a fibromialgia como condição que pode configurar deficiência, com avaliação biopsicossocial e maior garantia de acesso a direitos, atendimento multidisciplinar e políticas públicas. Isso ajuda a reduzir a invisibilidade da doença. Mas ainda há um longo caminho: é preciso transformar a lei em acesso real, com diagnóstico correto, acolhimento, tratamento estruturado e capacitação das equipes de saúde", declarou o profissional.
Marcelo Valadares complementou o assunto afirmando que a sanção da lei torna possível humanizar pacientes que lidam com a condição. "Ajuda principalmente no reconhecimento da doença. Foi uma doença invisível por muito tempo", declarou.
"À medida que surgem as leis e que os direitos são reconhecidos, isso diminui o estigma e valida o sofrimento de quem quem convive com a fibromialgia. Hoje no Brasil em alguns lugares, com a legislação federal, vem sendo considerada uma condição incapacitante, às vezes com prioridade no atendimento e dependendo da região com alguns direitos específicos. Falta bastante coisa ainda", emendou.


