Final de semana é pior momento para compensar o sono? Entenda
Especialista do InCor alerta sobre os perigos do "jet lag social" e explica por que tentar recuperar as horas perdidas de sono pode ser um sinal de alerta para o corpo

Tentar recuperar as horas de sono perdidas durante a semana esticando o descanso no sábado e no domingo é um sinal de alerta grave para a saúde. O hábito, impulsionado por rotinas exaustivas e classificado pela medicina como "jet lag social", mascara uma privação crônica capaz de aumentar os riscos de doenças cardiovasculares, obesidade e depressão.
Para entender os impactos dessa privação diária e se o final de semana é realmente o momento ideal para correr atrás do prejuízo, a CNN Brasil conversou com o professor Geraldo Lorenzi Filho, diretor do Laboratório do Sono do Instituto do Coração (InCor). O especialista traça um panorama preocupante: as pessoas estão dormindo cada vez menos, ignorando os sinais de exaustão do próprio corpo.
A quantidade ideal de descanso varia de acordo com a faixa etária, mas a privação severa cobra um preço biológico alto na fase adulta. "Na média, os estudos epidemiológicos sugerem que entre 7 e 8 horas é o período mais adequado de sono", explica o diretor do InCor.
Ignorar essa métrica eleva drasticamente as chances de adoecimento. "Os estudos mostram sistematicamente que quem dorme em média menos do que 6 horas tem maior risco de doença cardiovascular, de obesidade, de doenças metabólicas, hipertensão arterial e mau desempenho", alerta.
O fenômeno do "Jet lag social"
A raiz do problema está no estilo de vida moderno, que espreme o período noturno entre compromissos, telas e o relógio. O professor Geraldo classifica essa dinâmica exaustiva como jet lag social. "À noite você tem coisas para fazer, sai. E de manhã o despertador toca. Então você acaba ficando privado de sono", detalha. "Essa discrepância entre o que o corpo precisa e o que a rotina impõe cria um ciclo de cansaço crônico".
Embora existam exceções na biologia humana, elas não devem ser usadas como regra para justificar os maus hábitos. "Existem os dormidores curtos, que aparentemente ficam bem, mas isso é uma raridade. A gente é uma sociedade cada vez mais privada de sono", afirma o médico.
Afinal, compensar no fim de semana é ruim?
A grande controvérsia médica gira em torno da utilidade de dormir horas a fio no sábado e no domingo. Segundo o professor, o simples fato de precisar dessa compensação já indica que a saúde está em risco. "O ideal é não ter que fazer isso, porque o ideal é ter horários regulares", orienta.
No entanto, para quem já está com a dívida acumulada, o descanso tardio ainda funciona como uma estratégia de redução de danos. Não há indícios de que dormir a mais nesses dias piore a situação.
"Recuperar o sono significa que você está dormindo pouco. Isso é ruim. "Mas, entre os que dormem pouco, recuperar no final de semana é menos pior do que quem não recupera", tranquiliza o especialista. "Dormir mais é menos ruim do que seguir não dormindo muito".
Os sinais de alerta
O corpo humano não possui um medidor visível de "bateria fraca", exigindo que o indivíduo preste atenção às mudanças sutis de comportamento. "A pessoa precisa estar atenta a ela mesma, observar como está o desempenho dela, como está o humor, se ela está com sonolência", sugere o médico.
Os impactos neurológicos da falta de sono são imediatos e severos. O descanso noturno é o momento em que o cérebro processa e arquiva os aprendizados do dia. "Privação de sono é péssima para memória, concentração, humor e produtividade, já que o sono é um momento de fixação da memória", explica o especialista.
Quando não há sono regular, a cascata de problemas se estende para a saúde mental. "A gente tem a tendência a ficar mais ansioso, maior risco de depressão e piora da qualidade de vida".
A importância da higiene do sono
Reverter esse quadro exige disciplina e a construção de um ambiente propício para o desligamento cerebral. O especialista recomenda que a variação máxima do horário de ir para a cama, mesmo nos dias de folga, não ultrapasse uma hora. "Tem que ter rotina, é necessário colocar o sono como prioridade da vida".
A preparação deve começar muito antes de deitar a cabeça no travesseiro. O excesso de estímulos luminosos e químicos bloqueia a produção de melatonina, o hormônio indutor do sono.
"Se a pessoa está dormindo pouco, ela tem que fazer a higiene do sono. Duas horas antes de dormir, desligar o celular, programar-se para dormir sempre no mesmo horário, evitando ao máximo cafeína e televisão à noite", finaliza o médico.


