Ganho de peso é mais rápido após parar de usar canetas emagrecedoras

Estudo revela que a taxa de recuperação de peso é de 0,4 kg por mês entre aqueles que interromperam o uso desses medicamentos

Gabriela Maraccini, da CNN Brasil
Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro ganharam popularidade por seus efeitos no emagrecimento  • Imyskin/Getty Images
Compartilhar matéria

Um novo estudo mostrou que a interrupção do uso de medicamentos emagrecedores pode levar ao ganho de peso novamente, assim como à reversão de efeitos benéficos para a saúde cardíaca e metabólica. A taxa de recuperação de peso é de 0,4 kg por mês após o fim do tratamento, segundo o trabalho publicado na quarta-feira (7) na revista médica BMJ.

A pesquisa revelou, ainda, que a taxa de ganho de peso após o tratamento é quase quatro vezes mais rápida naqueles que interromperam o uso desses medicamentos do que naqueles que fazem dieta e aderem à atividade física. Esses resultados foram observados independentemente da quantidade de peso perdida durante o tratamento.

"Essas evidências sugerem que, apesar do sucesso na perda de peso inicial, esses medicamentos sozinhos podem não ser suficientes para o controle de peso a longo prazo", afirmam os pesquisadores.

O estudo foi feito diante do cenário de grande popularidade de medicamentos para o controle de peso, como a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). Conhecidas popularmente como "canetas emagrecedoras", elas são indicadas para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade e revolucionaram a forma como as doenças são tratadas por levarem a uma rápida perda de peso corporal.

No entanto, estima-se que cerca de metade das pessoas com obesidade interrompam o uso desses medicamentos em 12 meses.

Diante da necessidade de entender o que acontece com o corpo após a interrupção do tratamento, pesquisadores da Universidade de Oxford compararam os efeitos de qualquer medicamento para obesidade em adultos com intervenções não medicamentosas (como dieta e exercício físico) ou placebo. Isso foi feito com base em registros e bancos de dados em busca de ensaios clínicos e estudos observacionais.

No total, foram analisados 37 trabalhos publicados até fevereiro de 2025, envolvendo 9.341 participantes. A duração média do tratamento para perda de peso foi de 39 semanas, com um acompanhamento médio de 32 semanas.

Segundo o estudo, os participantes tratados com medicamentos para perda de peso recuperaram, em média, 0,4 kg/mês após a interrupção do tratamento e a previsão era de que retornariam ao peso pré-tratamento em 1,7 anos. Todos os marcadores de risco cardiometabólico deveriam retornar aos níveis pré-tratamento em 1,4 anos após a interrupção dos medicamentos.

O reganho de peso mensal também foi mais rápido após o uso de medicamentos para perda de peso do que após programas comportamentais de controle de peso (em 0,3 kg), independentemente da perda de peso inicial.

O efeito rebote é biológico, explica endocrinologista

De acordo com a endocrinologista Alessandra Rascovski, o reganho de peso após o fim do uso de medicamentos para emagrecer é algo esperado. "Esse estudo reforçou ainda mais que, toda vez que se para a medicação, principalmente após perder muitos quilos, volta a haver a diminuição de queima calórica e mudança do controle de fome e saciedade, levando a um ganho de peso", explica.

Para a especialista, os resultados do estudo demonstram que o "efeito rebote" -- como é conhecido esse reganho de peso -- não é apenas comportamental, mas também biológico.

"São os mecanismos do corpo que levam ao reganho de peso também. Mesmo os pacientes que faziam dieta e atividade física reganharam peso na parada da medicação. Por isso, dizemos que obesidade é uma doença crônica, recidivante e complexa", afirma Rascovski.

Além disso, a piora dos benefícios cardiometabólicos -- como controle da pressão arterial, do colesterol e do diabetes -- após a interrupção dos medicamentos também é um sinal de alerta. "Isso é muito mais grave e é algo que precisamos olhar no paciente. Ele também está metabolicamente doente", afirma. "Precisamos pensar como vai ser o pós-uso da medicação. Se vamos trocar por outro medicamento que ajuda só a manter o peso, por exemplo", completa.

Estudo tem limitações

Apesar dos resultados importantes, os autores do estudo reconhecem que há limitações. Por exemplo, apenas oito estudos avaliaram o tratamento com os medicamentos mais recentes (como o Ozempic, Wegovy e Mounjaro), e o período máximo de acompanhamento nesses estudos foi de 12 meses após a interrupção da medicação.

No entanto, eles destacam que utilizaram três métodos de análise e que todos forneceram resultados semelhantes, o que confere maior certeza às suas conclusões.

"Essas evidências alertam contra o uso de medicamentos para controle de peso a curto prazo, enfatizam a necessidade de mais pesquisas sobre estratégias custo-efetivas para o controle de peso a longo prazo e reforçam a importância da prevenção primária", afirmam os pesquisadores.

"As pessoas que tomam agonistas do receptor GLP-1 devem estar cientes da alta taxa de descontinuação e das consequências da interrupção da medicação", escreve um pesquisador americano em um editorial relacionado ao estudo. "Práticas alimentares e de estilo de vida saudáveis ​​devem continuar sendo a base para o tratamento e controle da obesidade, com medicamentos como os agonistas do receptor GLP-1 sendo usados ​​como adjuvantes."