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    Gripe aviária: o que se sabe sobre os casos no Brasil e como é feita a vigilância

    Ministério da Saúde destaca que não foram confirmados casos de influenza aviária em humanos no país até o momento

    Os vírus influenza, causadores da gripe, normalmente circulam entre animais, mas também podem infectar humanos
    Os vírus influenza, causadores da gripe, normalmente circulam entre animais, mas também podem infectar humanos Divulgação/Opas

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    Autoridades de saúde acompanham a crescente detecção de surtos de gripe aviária em aves silvestres e de criação em diversos países. Em janeiro, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) emitiu um alerta enfatizando a importância do controle da infecção em aves como a principal medida para reduzir o risco para humanos.

    No Brasil, os primeiros casos de influenza A (H5N1), ou gripe aviária, foram registrados em aves silvestres no dia 15 de maio. Até o momento, foram confirmados laboratorialmente 19 casos da doença em animais, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

    Entre os casos, estão 13 no estado do Espírito Santo, nos municípios de Marataízes, Cariacica, Vitória, Nova Venécia, Linhares, Itapemirim, Serra e Piúma, cinco casos no estado do Rio de Janeiro, em São João da Barra, Cabo Frio e Ilha do Governador, e um no sul do Rio Grande do Sul.

    No dia 17 de maio, o Ministério da Saúde anunciou o primeiro caso suspeito da doença em humano no Brasil. O paciente é um homem de 61 anos, funcionário de um parque em Vitória, no Espírito Santo, onde foi encontrada uma ave com teste positivo. Os testes conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) descartaram a hipótese de influenza aviária. Desde então, foram analisados e descartados outros casos suspeitos no Brasil.

    O Ministério da Saúde destaca que, até o momento, não foram confirmados casos de gripe aviária em humanos no país.

    Risco de transmissão entre humanos é baixo

    Os vírus influenza, causadores da gripe, normalmente circulam entre animais, mas também podem infectar humanos. Em geral, o contágio de humanos acontece principalmente pelo contato direto com animais infectados ou ambientes contaminados.

    A infecção podem causar doenças que variam de infecção leve do trato respiratório superior, como o nariz, laringe e faringe, a quadros mais graves que podem ser fatais.  Pacientes também podem apresentar sinais de conjuntivite, sintomas gastrointestinais e inflamação do cérebro.

    O diagnóstico para definir de influenza é realizado a partir de testes de laboratório, como acontece com a Covid-19. O diagnóstico molecular, que consiste na realização do sequenciamento genômico do vírus, permite identificar a cepa viral envolvida em cada caso.

    Evidências sugerem que alguns medicamentos antivirais, principalmente os inibidores de uma enzima chamada neuraminidase (como o oseltamivir e o zanamivir), podem reduzir a duração da replicação viral e melhorar o quadro dos pacientes.

    Atualmente os principais fatores que contribuem para a transmissão da influenza aviária são a exposição direta a aves silvestres infectadas, o intenso fluxo de pessoas e mercadorias em todo o mundo, e a venda de aves vivas em mercados e feitas, que facilita o contato próximos entre diferentes espécies e outros animais.

    Com base nas informações disponíveis, a OMS considera as detecções de vírus da gripe aviária entre humanos esporádicas, sem evidências de transmissão de pessoa para pessoa até o momento. Por isso, a probabilidade de propagação internacional da doença através de humanos é considerada baixa.

    No momento, o H5N1 foi capaz de infectar poucos humanos, mas ainda não conseguiu fazer uma adaptação necessária para ser transmitido de um humano ao outro. Ele difere dos vírus sazonais em humanos, H1N1 e H3N2, principalmente em algumas propriedades genômicas desses vírus

    Marilda Siqueira, virologista do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz)

    Contudo, considerando a ampla circulação em aves e a natureza em constante evolução dos vírus influenza, a OMS destaca a importância da vigilância global para detectar alterações virológicas, epidemiológicas e clínicas associadas aos vírus circulantes que podem afetar a saúde humana ou animal.

    Em 2023, a Europa registrou uma grande epidemia de H5N1 em aves, com surtos relatados em aves domésticas, selvagens e mamíferos em 24 países. Além disso, surtos em aves selvagens e domésticas continuam a ser relatados no continente.

    De acordo com o Ministério da Agricultura, o plano de vigilância de influenza aviária está implantado em todos os estados / Josué Damacena/IOC/Fiocruz

    Diferentes tipos de vírus influenza

    A gripe aviária é causada por vírus divididos em múltiplos subtipos. Os subtipos do vírus influenza A são identificados com base nas proteínas de superfície, sendo 16 subtipos de hemaglutininas (H) e 9 subtipos de neuraminidases (N). São essas proteínas que dão nome aos vírus: o H5N1, por exemplo, tem hemaglutinina 5 e neuraminidase 1.

    De acordo com a capacidade de provocar doença, conhecido tecnicamente como o índice de patogenicidade, são classificados como Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) ou Influenza Aviária de Baixa Patogenicidade (IABP).

    Até o momento, somente alguns subtipos H5 e H7 foram identificados como responsáveis pelas infecções de alta patogenicidade. A maioria dos isolados de H5 e H7 e todos os outros subtipos são caracterizados como de baixa capacidade de infecção.

    Em geral, a introdução da doença em um país ou região acontece por meio das aves migratórias, que podem carregar o vírus por grandes distâncias. A transmissão entre animais ocorre a partir do contato direto ou indireto de aves silvestres infectadas com aves domésticas ou de criação, sendo a principal fonte de surtos da doença na pecuária. Além das aves, o vírus da influenza aviária pode ser encontrado esporadicamente em espécies de mamíferos marinhos como focas e baleias.

    Nas infecções de aves, pode ocorrer alta taxa de mortalidade, que acontece de maneira súbita, sem apresentação de sinais clínicos. Algumas aves podem apresentar mudanças de comportamento, como prostração, dificuldade respiratória, torcicolo, dificuldade de andar, inchaço nas pernas, além de hemorragias.

    Vigilância

    Na sexta-feira (26), os ministros da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e da Saúde, Nísia Trindade, se reuniram para o planejamento de ações conjuntas para evitar a disseminação da gripe aviária.

    No encontro, realizado na sede do Ministério da Saúde, eles falaram sobre a organização dos Centros de Operação de Emergência nas três pastas para a realização de medidas de enfrentamento à doença.

    “A unificação de padronização de procedimentos vai nos dar mais segurança no enfrentamento a essa crise sanitária, para que o Brasil saia dela sem nenhum maior risco comercial, nem da saúde humana para que possamos ter tranquilidade e continuar com o status de país livre de gripe aviária”, disse Fávaro.

    A Coordenação-Geral de Laboratórios Agropecuários, ligada à Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA), realiza o monitoramento das ações relacionadas à gripe aviária. O setor é responsável pelo acompanhamento em tempo real da quantidade de amostras que chegam para análise laboratorial.

    Atualmente, o processamento acontece no Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo, em Campinas, unidade de referência reconhecida pela Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA).

    De acordo com o Ministério da Agricultura, o plano de vigilância de influenza aviária está implantado em todos os estados e no Distrito Federal. A medida permite o aumento da capacidade de detecção precoce de casos suspeitos.

    Além de reforçar procedimentos e alertas a todos os Órgãos Estaduais de Sanidade Agropecuária (OESA) e Superintendências Federais de Agricultura (SFA), o Mapa afirmou que mantém interações por meio de notas e reuniões com as autoridades nacionais da saúde e do meio ambiente, visando promover ações conjuntas e cooperação para prevenção e controle da doença.

    Segundo o Mapa, o Serviço de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) da pasta também mantém fiscalização em portos e aeroportos. A rede de Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária (LFDA), que possui laboratório de referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) para diagnóstico da influenza aviária em Campinas, está treinando e capacitando profissionais de diferentes países para o diagnóstico.

    Emergência zoosanitária

    No dia 22 de maio, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, declarou estado de emergência zoossanitária em todo o território nacional devido aos casos em aves.

    A medida vale por 180 dias e tem objetivo de evitar que o contágio afete a produção de aves de subsistência e comercial, além de preservar a fauna e a saúde humana.

    “A declaração de estado de emergência zoossanitária possibilita a mobilização de verbas da União e a articulação com outros ministérios, organizações governamentais – nas três instâncias: federal, estadual e municipal – e não governamentais. Todo esse processo é para assegurar a força de trabalho, logística, recursos financeiros e materiais tecnológicos necessário para executar as ações de emergência visando a não propagação da doença”, disse Fávaro na ocasião.

    Como funciona a vigilância

    Quando o Ministério da Agricultura é notificado sobre um caso provável da doença em aves pelo serviço veterinário oficial, são iniciadas ações de vigilância epidemiológica na região pelas secretarias municipais e estaduais de Saúde, coordenadas pelo Ministério da Saúde.

    Além das coordenações de vigilância epidemiológica, os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) presentes em todos os estados atuam na busca ativa para identificação e monitoramento das pessoas que tiveram contato com as aves, para garantir que elas sejam testadas, monitoradas e isoladas, em caso de desenvolverem sintomas gripais, de acordo com o Ministério da Saúde.

    As amostras coletadas são analisadas pelo Laboratório Centrais de Saúde Pública (LACENs) e depois enviadas para confirmação do resultado pelos laboratórios de referência e na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

    Vacina em desenvolvimento

    O Instituto Butantan estuda o desenvolvimento de uma vacina contra a gripe aviária em humanos. Segundo o Butantan, os testes estão sendo realizados com cepas vacinais cedidas pela OMS. O primeiro lote piloto está pronto para testes pré-clínicos.

    Os trabalhos começaram em janeiro, a partir do acompanhamento da disseminação do vírus pelo mundo. “Iniciamos trabalhos para tentar achar um protótipo de vacina contra a gripe aviária em um esforço de vários pesquisadores do instituto. O Butantan tem que cumprir esse papel no Brasil, de cada vez mais se capacitar de uma forma estratégica para responder as demandas que vão aparecer”, afirmou o diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, em comunicado.

    De acordo com o instituto, estão previstos estoques de imunizantes feitos com três cepas vacinais da influenza aviária, sendo duas H5N1 e uma H5N8.