Intubados por Covid podem apresentar insuficiência renal e precisar de diálise

Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) diz que metade dos pacientes graves com Covid-19 apresentaram lesões nos rins

Famílias enfrentam grandes dívidas ao procurarem leitos de UTI particulares em SP (21.mar.2021)
Famílias enfrentam grandes dívidas ao procurarem leitos de UTI particulares em SP (21.mar.2021) Foto: Reprodução / CNN

Por Estadão Conteúdo

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As lesões nos rins têm feito com que até metade de pacientes com Covid-19, que evoluíram para quadros graves e foram intubadas, apresentem insuficiência renal e precisem de diálise, segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

No HCor, o parque de equipamentos para o procedimento foi ampliado na pandemia para atender à demanda da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

“Quem vai precisar fazer diálise, faz intubado. Sabemos que 5% dos pacientes têm formas graves, que precisam intubar. Quando o quadro é muito grave, o paciente pode ter lesões renais e precisar de hemodiálise porque o rim para de funcionar”, diz Osvaldo Merege, presidente da SBN.

Segundo Merege, essa situação atinge até metade dos pacientes graves. “Em porcentagem, dos 5% que estão intubados, 2,5% estão precisando. Temos casos de hospitais fazendo diálise em 30%, 40% e até em metade dos pacientes intubados.”

O dano ao órgão pode ser causado por um evento grave que acomete algumas pessoas com a Covid-19, a tempestade de citocinas, reação exacerbada do sistema imunológico que pode afetar o funcionamento de órgãos vitais e levar à morte. Sepse e a ação do vírus no órgão também podem estar ligadas aos casos.

No fim de março do ano passado, o médico pediatra intensivista Nelson Horigoshi, de 65 anos, teve Covid-19 após ir a um encontro de família.

“Uma pessoa estava infectada. Seis pessoas pegaram e eu fui o único internado. E fiquei em estado grave. Fiquei intubado por dez dias e precisei fazer algumas sessões de hemodiálise. Quando meu rim começou a responder, consegui me livrar. Ao todo, foram 20 dias na UTI e 20 dias no quarto.”

Além do problema renal, Horigoshi teve acometimento cardíaco e pulmonar. “A parte cardiológica foi a que reverteu mais rápido. O pulmão demorou três meses para normalizar, mas tenho um pouco de fadiga até hoje. Tenho insônia e o rim demorou a melhorar. Este mês foi o primeiro que tive o exame do rim com resultado normal. É uma doença terrível.”

De acordo com o presidente da SBN, alguns pacientes se recuperam mas há casos de pessoas que acabam evoluindo para doença renal crônica. No entanto, ainda não há registro de sobrecarga no serviço por causa da chegada das pessoas que superaram a Covid-19 e ficaram com sequelas nos rins.

“Não tem impacto para os crônicos, porque são máquinas usadas para os casos agudos. No paciente renal crônico, a diálise é programada. Mas o número de casos agudos aumentou muito nessa nova variante e com casos graves até entre os mais jovens.”

Merege diz que, atualmente, há 144,5 mil pacientes renais crônicos em diálise e que a covid-19 é perigosa para este grupo. “Na população geral, a mortalidade por covid é de 2,3%. Na população que faz diálise, 30% dos que pegam covid acabam morrendo. Por isso, seria importante priorizar a vacina para esses pacientes.”

Líder médica da Nefrologia do HCor, Leda Lotaif, diz que o hospital aumentou o parque de equipamentos já no ano passado por ter notado que havia casos de insuficiência renal relatados por outros países. Eram oito equipamentos, passou para dez, chegou a 15 e deve receber mais quatro nos próximos dias. Com a variante P1, há uma percepção de que os casos passaram a ocorrer com mais frequência.

“Não temos sequenciado esses pacientes, mas na P1, aparentemente é uma doença mais grave, que evolui rapidamente e dá mais insuficiência renal. Tivemos um aumento de pacientes com necessidade de diálise e tem mais pacientes jovens, na casa dos 30 a 50 anos. Definitivamente é uma cepa mais grave.”

No hospital, segundo Leda, entre 35% e 40% dos pacientes em UTI necessitam fazer o procedimento.

“Temos pacientes que já receberam alta e pacientes que ficaram com alguma sequela no rim e vão ter de acompanhar com nefrologista. Os rins são órgãos vitais e as pessoas não têm tanta noção até o momento em que alguém na família passa a ter insuficiência renal. Eles mantêm o equilíbrio hídrico, são importantes para a saúde óssea e produzem hormônios que estimulam a medula óssea a produzir os glóbulos vermelhos. As pessoas devem se poupar de ter uma doença dessa.”

Entidade diz que fim de isenção de ICMS prejudica centros em SP

A Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) diz que as unidades que realizam diálise foram prejudicadas pela reforma tributária feita pela gestão estadual, que tirou a isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para medicamentos e insumos.

“A gente evidenciou que, a partir de 1º de janeiro, esse decreto que voltou a cobrar ICMS de vários setores iria impactar o setor de diálise. A maioria das clínicas é privada, mas atende pacientes do SUS. Quando tem aumento do tributo, é repassado para clínica de diálise”, afirma o médico nefrologista Marcos Alexandre Vieira, presidente da ABCDT.

Segundo ele, o setor já vem sofrendo com aumentos durante a pandemia. “São medicamentos de alta tecnologia, existem soluções para filtrar o sangue e o maquinário. Só pelo aumento do dólar, está tendo aumento do preço dos produtos e ainda terá o tributo de 18%.” Vieira diz que a entidade tenta se reunir com o governo para debater e tentar reverter a situação.

Em nota, a Secretaria de Estado da Fazenda informou que pacientes atendidos pelo SUS não serão impactados pela medida.

“No Estado de São Paulo, a alíquota padrão do ICMS é de 18% e as alíquotas inferiores são incentivo fiscal, conforme previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. As entidades que representam o setor de saúde particular foram recebidas em reuniões e ouvidas pelo governo nos últimos meses. A elas foi explicado de maneira clara e objetiva que a prioridade do governo, nesse momento de pandemia, é garantir o atendimento gratuito à população mais carente, tanto em saúde como em outros serviços essenciais, como educação, segurança pública e assistência social. Importante lembrar que o ajuste fiscal é temporário, válido por 24 meses.”

Como a Covid-19 afeta os rins?

Tempestade inflamatória: O dano renal pode ser causado pela tempestade de citocinas, segundo Leda Lotaif, líder médica da Nefrologia do HCor. “Ou seja, mediadores inflamatórios liberados em grande concentração na circulação sanguínea causando inflamação renal, assim como causam inflamação pulmonar, cardíaca e de demais órgãos;

Crosstalk de órgãos: “Trata-se de uma “linha cruzada” do eixo pulmão-rim, na qual a síndrome respiratória aguda causada pelo covid ocasiona lesão do rim”, explica Leda;

Infecção generalizada: Efeitos sistêmicos causados pela sepse, grave infecção que pode afetar o funcionamento de órgãos e levar à morte;

Efeito tóxico direto: Casos de lesão direta de células dos rins pelo novo coronavírus.

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