Isolar a África do Sul pode afetar a chegada de insumos, alerta ciência

Para pesquisador, proibição de voos pode comprometer enfrentamento a ômicron; Anvisa defente fronteiras fechadas onde variante foi identificada primeiro

Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, exibe mensagem sobre o coronavírus
Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, exibe mensagem sobre o coronavírus Foto: Carol Coelho/Getty Images

Leandro Resende

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O diretor do Centro para Resposta a Epidemias e Inovação da África do Sul, o brasileiro Túlio de Oliveira, cobrou que o Brasil ajude a África a enfrentar a variante ômicron da covid-19 e não se limite a restringir voos oriundos do continente.

O cientista afirmou à CNN que as proibições de voos para a África do Sul podem afetar o recebimento de insumos necessários para continuar decodificando a nova variante.

“A África ficou para trás do mundo no acesso à vacina. Promessas e mesmo as compras feitas pelos países não foram atendidas”, afirmou Oliveira. “A China prometeu 1 bilhão de doses e faz parte dos Brics, como o Brasil. E o foco do país é só interromper o fluxo de aviões”.

Ele destacou que o CERI, pela segunda vez, identifica uma variante da covid-19. A outra, conhecida como beta, apareceu pela primeira vez no final do ano passado.

“Estamos ajudando o mundo, com uma pesquisa que mostra uma nova variante e dando ao planeta a chance de se preparar como antecedência. E o que recebemos de volta? Portas fechadas”, reclamou ele, que tem tentado fazer articulações junto a laboratórios e empresas de biotecnologia para tentar conter os efeitos da interrupção dos voos nas pesquisas.

O cientista deixou claro que não é possível dizer, ainda, que se trata de uma variante que surgiu na África do Sul, apesar de ter sido identificada em grande circulação em Johanesburgo, cidade do país africano onde está o maior aeroporto do continente.

“Ela foi identificada ali, mas pode ter sido originada em qualquer lugar do mundo. O que não precisamos é de mais uma resposta discriminatória para a África”, declarou.

Na avaliação dele, os países não estão preocupados com o impacto econômico que o cancelamento de voos trará ao continente.

“Tudo que vem para cá, para o laboratório, vem de avião, porque estamos no extremo-sul do continente. Reagentes, equipamentos de proteção individual, remédios. Os voos são fundamentais para a economia africana, esse bloqueio nos dará um impacto muito grande”, disse.

Anvisa defende suspensão de voos

Nesta terça-feira (30) foram identificados dois casos da nova variante no Brasil. Em entrevista à CNN na última sexta-feira (26) o diretor-presidente da Agência, Antonio Barra Torres, afirmou que as fronteiras devem ser fechadas para países onde essa variante foi identificada primeiro.

“Países como Itália, Alemanha e Japão adotaram a mesma medida, principalmente nesse momento inicial quando temos mais incertezas do que certezas. O que temos é que no local onde foi descoberta essa variante houve um aumento exponencial de casos”, disse.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo, a restrição dos voos é importante, mas não pode ser a única medida para o momento. É importante proteger as fronteiras neste momento de incerteza e ampliarmos aqui o que não fazemos direito, que é a análise genômica.

O mais importante, no entanto, é exigir a vacinação e o teste negativo de quem chega, pois a variante pode estar em outros países que não restringimos.

Túlio de Oliveira, no entanto, acredita que a medida de suspender voos é pouco efetiva. Ele lembra que no começo da pandemia, os Estados Unidos cortaram relações com a China, onde o vírus que causa a covid-19 foi identificado pela primeira vez, mas mesmo assim o país foi o que mais teve casos e mortes pela doença.

“É uma pandemia. Há um ano e meio a gente fala que novas variantes irão surgir até que a vacinação avance por igual no mundo todo”, reforçou.

Além de liderar o grupo de pesquisadores que identificou a variante ômicron, Túlio trabalha, agora, para entender se ela pode escapar da imunidade oferecida pelas vacinas contra covid-19 e se ela pode ser mais letal.

Ele tem usado as redes sociais para cobrar empresas e governos a não abandonarem os países do sul da África. Ele diz que o número de imunizantes disponibilizado pelo Covax Facility, consórcio global para disponibilizar vacinas, foi aquém do prometido.

“Botsuana, por exemplo, comprou doses da vacina da Moderna que ainda não chegaram. O que a gente sente é que há uma discriminação com a África, de uma forma geral”, avaliou ele.

A CNN questionou o consórcio Covax Facility, sobre o número reduzido de imunizantes disponibilizados a África, a farmacêutica Moderna (sobre o não enviou de doses compradas pela Botsuana) e o governo brasileiro sobre eventual auxílio a ser prestado pelo país e ainda aguarda resposta.

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