Lito Sousa: O que se sabe sobre a progressão da doença de Creutzfeldt-Jakob

Doença priônica rara e fatal provoca deterioração neurológica acelerada; maioria dos pacientes morre meses após o início dos sintomas

Manuella Dal Mas, da CNN Brasil, em São Paulo
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A Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma doença priônica rara, neurodegenerativa e progressiva. Ela faz parte do grupo das Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis (EET) e ocorre quando proteínas chamadas príons assumem uma conformação anormal e se acumulam no cérebro, provocando danos progressivos ao tecido nervoso.

Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 90% das pessoas acometidas pela DCJ evoluem para óbito em até um ano após o início dos sintomas. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, estima que a morte ocorra, em geral, quatro a cinco meses depois do início das manifestações clínicas.

No entanto, apesar da evolução geralmente rápida, a velocidade de progressão da doença pode variar de acordo com a forma da DCJ, características moleculares, idade de início e manifestações predominantes.

O influenciador Lito Sousa, de 59 anos, foi diagnosticado com a doença e divulgou um vídeo onde já apresenta os sinais de debilitação que a doença causa.

Entenda como a doença começa

Os primeiros sintomas nem sempre são específicos. A doença pode começar com alterações cognitivas, neurológicas ou comportamentais que, isoladamente, podem ser confundidas com outras condições.

O Ministério da Saúde descreve, entre os sinais iniciais, perda de memória, tremores, falta de coordenação motora, ataxia, afasia, alterações visuais, mioclonias e mudanças de comportamento. Também podem ocorrer dor de cabeça, fadiga, distúrbios do sono, perda de apetite e alterações da linguagem.

O CDC também aponta a demência como uma das principais manifestações, acompanhada por sinais neurológicos como dificuldade para caminhar, movimentos involuntários e alterações visuais. A doença costuma atingir principalmente pessoas mais velhas, com média de idade próxima aos 60 e poucos anos.

O que acontece com a progressão

À medida que a doença avança, o comprometimento neurológico se torna mais intenso e generalizado. A perda de funções cognitivas passa a ser acompanhada por alterações motoras e de coordenação, dificuldade de comunicação e outros sinais neurológicos.

O Ministério da Saúde destaca que a deterioração das habilidades psicomotoras na DCJ é muito mais acelerada do que em outras formas de demência. Nos estágios seguintes, podem surgir insônia, depressão, crises epilépticas e paralisia facial, além do agravamento dos sintomas já existentes.

Nos casos avançados, o paciente pode evoluir para mutismo acinético, síndrome apálica ou estado vegetativo. Nessa fase, há comprometimento grave da capacidade de interação e dos movimentos voluntários.

Por que alguns casos avançam mais rapidamente

Embora a DCJ seja conhecida pela evolução acelerada, o tempo entre o início dos sintomas e a morte não é igual para todos os pacientes.

Um dos estudos mais importantes sobre o tema foi publicado em 2004 na revista científica Brain. A pesquisa analisou 2.304 casos de DCJ esporádica registrados em dez países europeus e avaliou fatores associados à sobrevida. O trabalho mostrou diferenças importantes na duração da doença conforme características dos pacientes e dos diferentes tipos de doença priônica.

Estudos posteriores também demonstraram que os subtipos moleculares da DCJ esporádica apresentam diferentes manifestações clínicas e prognósticos. Os subtipos MM1 e MV1, por exemplo, tendem a apresentar declínio cognitivo mais rápido. Já VV2 e MV2K geralmente começam com manifestações cerebelares e podem apresentar evolução mais prolongada.

A idade também parece influenciar a sobrevida. Na análise publicada na Brain, pacientes mais jovens apresentaram maior tempo de sobrevida, enquanto o aumento da idade no início dos sintomas esteve associado a maior risco de morte.

Quais são as formas da doença

O Ministério da Saúde classifica a DCJ em quatro formas: esporádica, hereditária, iatrogênica e variante.

A forma esporádica representa aproximadamente 85% dos casos confirmados. Ela ocorre sem uma causa conhecida ou um padrão reconhecível de transmissão. A forma hereditária responde por cerca de 5% a 15% dos casos e está relacionada a mutações no gene da proteína priônica.

A forma iatrogênica corresponde a menos de 1% dos casos e pode ocorrer em situações extremamente raras relacionadas à exposição a tecidos ou materiais contaminados. Já a variante da DCJ está associada à exposição ao agente causador da encefalopatia espongiforme bovina.

É importante não confundir a DCJ clássica com a chamada “doença da vaca louca”. A forma esporádica, que representa a maioria dos casos, não está relacionada ao consumo de carne.

Por que o diagnóstico pode ser difícil

Outro fator que interfere na identificação da doença é a dificuldade do diagnóstico. Os sintomas iniciais podem ser semelhantes aos de outras doenças neurológicas, enquanto os exames disponíveis apresentam diferentes níveis de sensibilidade dependendo do momento em que são realizados.

O Ministério da Saúde considera o diagnóstico preciso da DCJ “muito desafiador”. Ressonância magnética, eletroencefalograma, tomografia, análise do líquido cefalorraquidiano para a proteína 14-3-3 e testes genéticos podem ajudar na investigação, mas a confirmação definitiva tradicionalmente depende de análise neuropatológica do tecido cerebral.

Um dos avanços nessa área foi o desenvolvimento do RT-QuIC, técnica capaz de identificar a presença de atividade relacionada aos príons no líquido cefalorraquidiano.

Em um estudo publicado no JAMA Neurology, que avaliou 501 casos de DCJ esporádica e 146 casos sem a doença, o RT-QuIC apresentou sensibilidade de 91,6% e especificidade de 100% entre os pacientes que tinham o exame disponível.

Uma meta-análise publicada no European Journal of Neurology também apontou o RT-QuIC como o biomarcador mais específico entre os testes analisados, com especificidade estimada em 97% e sensibilidade de aproximadamente 91%.

Os resultados, entretanto, podem variar conforme o subtipo da doença e outras características do paciente. Um estudo com mais de 10 mil amostras de líquido cefalorraquidiano, incluindo casos confirmados por autópsia, encontrou sensibilidade de 90,3% e especificidade de 98,5% para o RT-QuIC considerando diferentes doenças priônicas.

Ausência de tratamento específico

Atualmente, não existe tratamento capaz de interromper ou reverter a evolução da DCJ. O Ministério da Saúde informa que nenhuma das terapias estudadas até o momento demonstrou eficácia para modificar o curso fatal da doença. O atendimento é baseado no suporte clínico e no controle das complicações.

A ausência de tratamento específico, porém, não significa que as pesquisas tenham parado. Estudos clínicos estão avaliando estratégias capazes de interferir na produção ou no comportamento da proteína priônica.

Entre as pesquisas em andamento está o estudo PrProfile, da farmacêutica Ionis, que avalia o oligonucleotídeo antissenso ION717 em pacientes com doenças priônicas. O ensaio está na fase 1/2a, etapa em que a segurança, a tolerabilidade e possíveis sinais de atividade terapêutica são avaliados em seres humanos.

A perspectiva de novos tratamentos também está relacionada ao avanço na compreensão dos diferentes mecanismos moleculares das doenças priônicas. O objetivo é tentar reduzir a quantidade de proteína priônica disponível ou interferir em etapas do processo que leva ao dano cerebral.

Dados da doença no Brasil

Dados do Ministério da Saúde referentes ao período de 2005 a 2021 registraram 1.576 notificações de casos suspeitos de DCJ no Brasil.

São Paulo concentrou 32,5% das notificações, com 512 registros, seguido pelo Paraná, com 12% (189), e Minas Gerais, com 10% (158). A faixa etária de 55 a 74 anos respondeu por 60,2% das notificações.

A DCJ integra a Lista Nacional de Notificação Compulsória desde 2005. Atualmente, a doença possui periodicidade semanal de notificação no sistema de vigilância epidemiológica brasileiro.

Os dados consolidados publicamente pelo Ministério da Saúde utilizados nesta apuração vão até 2021. Por isso, números mais recentes devem ser obtidos por meio das bases atualizadas de vigilância ou diretamente com a pasta.

Além das informações do Ministério da Saúde e do CDC, a evolução clínica e o diagnóstico da DCJ são respaldados por estudos publicados em periódicos científicos. Entre eles estão a análise de sobrevida de Pocchiari et al., publicada na revista Brain em 2004, estudos sobre a precisão do RT-QuIC no diagnóstico da doença e uma meta-análise de biomarcadores publicada no European Journal of Neurology.