Maconha medicinal pode ser usada para tratamentos sem causar dependência

No quadro Correspondente Médico, Fernando Gomes aborda utilização de produtos à base de cannabis em casos de epilepsia e ansiedade

Fabrizio Neitzkeda CNN

Em São Paulo

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Na edição desta quinta-feira (2) do quadro Correspondente Médico, no Novo Dia, o neurocirurgião Fernando Gomes falou sobre o uso da maconha medicinal, após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o uso de mais um produto à base de cannabis no Brasil – ao todo, oito já foram liberados.

A solução oral de uma substância com o canabidiol será fabricada na Colômbia e vendida em farmácias com prescrição médica específica. Em entrevista à CNN, a neurocirurgiã Patrícia Montagner defendeu a prática, mas criticou a falta de estudos sobre o tema no meio da medicina.

“Infelizmente, milhares de pacientes portadores de doenças graves, incapacitantes e frequentemente refratárias ficam longe de uma possibilidade terapêutica segura, capaz de controlar sintomas e melhorar a qualidade de vida. Diante desse cenário, educação médica qualificada na área é fundamental”, afirmou.

A falta de conhecimento também atinge o público em geral. Em uma enquete no Instagram da CNN, 51% dos participantes disseram não saber o que é a cannabis medicinal.

Para Fernando Gomes, o debate é frequentemente alimentado pelo preconceito ligado ao uso recreativo da maconha. “Quando se fala de cannabis medicinal, nós nos referimos às substâncias que compõem a planta e que têm influência no funcionamento do organismo do indivíduo.”

“Temos um sistema chamado endocanabinóide, que são substâncias e neurotransmissores que têm receptores em células específicas do próprio corpo. Se você dá um pouco a mais dessa substância [cannabis] que naturalmente já existe dentro do corpo humano, o indivíduo mostra alteração do seu funcionamento”, explicou.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso médico do canabidiol pode ser indicado para o controle da epilepsia e tratamento da ansiedade, além de servir como medicamento anti-inflamatório, antiasmático e para propriedades antitumorais.

O neurocirurgião afirmou que, nestes casos, a substância não é capaz de causar dependência e não tem graves efeitos colaterais. “Você faz a utilização com uma prescrição adequada. O canabidiol pode, no máximo, deixar a pessoa com um pouco de sono. É diferente do THC [principal substância psicoativa da planta].”

Gomes também esclareceu que, embora possa ser utilizada no tratamento de diversos quadros clínicos, a maconha não é capaz de curar um paciente, e minimizou o estigma social. “É um medicamento que vem para modular o funcionamento do organismo, e não necessariamente representa a cura para um determinado mal. Pelo menos, não sabemos nada disso até agora.”

“Existe uma confusão aqui. Não é simplesmente o indivíduo pegar a planta, fazer um cigarro e fumar. Tem um trabalho muito sério por trás disso tudo, muita pesquisa e, principalmente, conhecimento de que o nosso corpo tem a cannabis ‘sua’, o sistema endocanabinoide, e modular esse sistema. Não tem sentido termos esse preconceito”, disse.

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