Mais da metade dos cânceres gástricos, como o de Bruno Covas, viram metástase

Tratamentos indicados são paliativos e incluem quimioterapia e imunoterapia

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), na cerimônia de posse na Câmara dos Vereadores
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), na cerimônia de posse na Câmara dos Vereadores Foto: Alex Silva - 1.jan.2021/Estadão Conteúdo

Camila Neumam, da CNN, em São Paulo

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O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), foi intubado na segunda-feira (3) após a constatação de um sangramento na região do estômago. O sangramento foi contido, e o prefeito foi extubado horas depois, segundo boletim médico do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP).

Covas está internado desde domingo (2). Na ocasião, anunciou que se licenciaria do cargo por 30 dias para se dedicar ao tratamento. Ele luta contra um câncer no aparelho digestivo desde 2019, quando recebeu o diagnóstico de adenocarcinoma entre esôfago e estômago, com lesões no fígado e nos linfonodos.

Recentemente, surgiram novos focos da doença no fígado e nos ossos de Covas, o que indicam nova metástase, quando as células do tumor original se multiplicam e circulam através do sangue, se instalando em diferentes órgãos ou regiões do corpo. O tipo de câncer de Covas é considerado metastático desde que foi diagnosticado, porque mostrou focos em diferentes partes do corpo.

O câncer gástrico metastático não tem cura. Os tratamentos disponíveis, servem para melhorar os sintomas e prolongar a vida de quem tem a doença, segundo a oncologista Rachel Reichelmann, head de Oncologia Clínica do Hospital A.C Camargo. “O câncer gástrico é uma doença muito grave. Mesmo quando o doente consegue retirar o tumor em cirurgia e receber tratamentos adequados, mais da metade evolui para metástase”, afirma.

Em seu atlas do Câncer no Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), descreve o tratamento do câncer de estômago metastático como “nas situações em que não é possível retirar o tumor com cirurgia ou em que há metástases, o tratamento é paliativo”. São indicados: radioterapia, quimioterapia e imunoterapia (as duas últimas utilizadas no tratamento do prefeito).

Desde a descoberta do câncer, Covas foi submetido a oito sessões de quimioterapia. Nos quatro primeiros meses, elas resultaram na regressão dos tumores na região gastroesofágica, mas não foram capazes de extrair o câncer na região dos linfonodos. Com os linfonodos ainda aumentados, sinal de que o câncer persistia, o prefeito começou sessões de imunoterapia em fevereiro de 2020.

Na ocasião, o oncologista Tulio Eduardo Flesch Pfiffer, um dos membros de sua equipe médica, informou que o tratamento com a imunoterapia era “mais tranquilo e muito menos tóxico”, e que ajudaria a reforçar a imunidade do prefeito.

Enquanto a quimioterapia é mais agressiva, por ser capaz de destruir tanto as células cancerígenas como as saudáveis, a imunoterapia (entenda mais sobre o tratamento abaixo), relativamente nova no tratamento do câncer, é considerada efetiva no controle do crescimento do tumor, com poucos efeitos colaterais. No entanto, ainda não está associada à cura na grande maioria dos casos do câncer gástrico, explica Reichelmann.

Novas metástases

No último dia 15 de abril, a equipe médica descobriu novos focos da doença no fígado e nos ossos de Covas, e um novo ciclo de quimioterapia começou. Ele ficou internado até 27 de abril para a realização do tratamento, e durante a internação apresentou acúmulo de líquidos nos pulmões e no fígado, que foi contido com a instalação de drenos nas regiões abdominal e pulmonar. O acúmulo de líquido nos pulmões, se não controlado, pode causar problemas para o paciente, explicou o neurocirurgião Fernando Gomes no quadro Correspondente Médico, da CNN.

“Quando existe líquido no pulmão, ele não funciona de forma adequada. Para que ele possa continuar fazendo a troca gasosa, é importante que exista um dreno que retire o excesso de líquido e jogue para fora do corpo. A mesma coisa acontece na cavidade abdominal, esse líquido em excesso pode provocar algo que chamamos de ascite e, em excesso, provoca alterações que são indesejadas”, completou o médico.

O que causa sangramento

Em sua mais recente internação, neste domingo (2), Covas apresentou um sangramento na região do estômago e precisou ser intubado. O sangramento excessivo pode causar anemia, e por consequência um cansaço excessivo em quem sofre com a doença.

Em entrevista à CNN, Pfiffer afirmou que a hipótese de sangramento foi considerada ao ouvir de Covas o relato de um cansaço além do normal. “O prefeito teve um quadro típico de fraqueza decorrente da anemia, causada por um sangramento”, afirmou o médico.

Constatado o sangramento, a equipe médica optou pela sedação e intubação para “proteger as vias aéreas superiores do prefeito” durante o procedimento de extraída do sangue, afirmou o oncologista.

O sangramento pode ocorrer nestes casos, porque tumores cancerígenos são ricos em vasos sanguíneos que podem se romper na medida que o tumor cresce no organismo, explica Reichelmann. Pode ser contido por cirurgia, radioterapia, embolização ou mesmo pela quimioterapia, a depender da extensão e do local do sangramento, explica a oncologista. “Quando é muito forte, o paciente pode ter problemas respiratórios e precisa ser intubado para proteção das vias áreas”, afirma.

Câncer de estômago no Brasil

Segundo dados do Inca, o adenocarcinoma de estômago atinge, em sua maioria, homens por volta dos 60-70 anos. Cerca de 65% dos pacientes têm mais de 50 anos. No Brasil, o câncer de estômago é o terceiro tipo mais frequente entre homens e o quinto entre as mulheres.

Para cada ano do triênio 2020-2022, devem surgir 13.360 casos novos de câncer de estômago entre homens e 7.870 entre as mulheres, segundo dados do documento Incidência de Câncer no Brasil – Estimativa 2020, do Inca.

Entenda mais sobre a doença:

1. Fatores de risco

As causas do câncer gástrico são desconhecidas, mas há uma série de fatores de risco. Entre eles, infecção pela bactéria Helicobacter Pylori; excesso de peso e obesidade; consumo em excesso de alimentos embutidos; de álcool, alimentação com baixa ingestão de frutas, vegetais e fibras, e tabagismo.

Existem também os 38 fatores hereditários que contribuem para o desenvolvimento desse câncer. Casos na família ou questões genéticas podem ser fatores de risco do aparecimento deste tipo de câncer em jovens.

2. Sintomas mais comuns

Dor de estômago persistente, anemia, cansaço, náuseas e vômitos, perda de peso e apetite sem causa aparente. Em casos mais avançados, pode surgir sangue nas fezes, além de fezes escurecidas, pastosas e com odor muito forte (indicativo de sangue digerido).

Massa palpável na parte superior do abdômen, aumento do tamanho do fígado, presença de íngua na área inferior esquerda do pescoço, e nódulos ao redor do umbigo também indicam estágio avançado da doença. Para confirmar o diagnóstico, é indicado primeiro procurar um clínico geral ou um gastroenterologista. O oncologista só será indicado se houver confirmação de câncer.  

3. Como fazer detecção precoce

A estratégia é indicada para encontrar um tumor em fase inicial e, assim, possibilitar maior chance de tratamento. Ela pode ser feita por meio de exames clínicos, laboratoriais ou radiológicos em pessoas com sinais e sintomas sugestivos (diagnóstico precoce), ou com exames periódicos em pessoas sem sinais ou sintomas (rastreamento), mas pertencentes a grupos com maior chance de desenvolver a doença.

Não há evidência científica de que o rastreamento do câncer de estômago traga mais benefícios do que riscos e, até o momento, ele não é recomendado. Já o diagnóstico precoce possibilita melhores resultados em seu tratamento e deve ser buscado com a investigação de sinais e sintomas persistentes.

4. Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito pela endoscopia digestiva alta. Para realizar esse exame, o paciente recebe sedação, e é aplicado anestésico na região da garganta. A seguir, um tubo é introduzido pela boca.

A endoscopia digestiva alta permite ao médico visualizar o esôfago e o estômago, além de fazer biópsias (retirada de pequenos fragmentos do tecido). O material da biópsia é enviado a um laboratório para confirmar (ou não) o diagnóstico de tumor maligno.

Se o diagnóstico for confirmado, geralmente é necessária a realização de tomografias computadorizadas para avaliar a extensão do tumor. Em alguns casos, quando o câncer parece ser de estágio inicial, pode ser solicitada ultrassonografia endoscópica (exame semelhante à endoscopia digestiva alta, em que na ponta do tubo introduzido pela garganta há um aparelho de ultrassom).

5. Tratamentos indicados

Quando o câncer de estômago for considerado localizado, ou seja, restrito ao órgão e aos gânglios linfáticos ao redor, o mais indicado é a cirurgia de remoção do tumor.

A decisão de retirar todo o estômago ou apenas parte dele depende de fatores como a localização específica do tumor, sua extensão da lesão e subtipo. Em algumas situações, como quando o câncer invade a artéria aorta, a cirurgia deixa de ser possível.

A realização da quimioterapia, antes e/ou após a cirurgia, em geral, aumenta as chances de cura. Em certos casos, também pode ser necessário o tratamento com radioterapia após a cirurgia. Na quimioterapia, há uma classe de medicações que agem para conter a proliferação de células do câncer. Mas, como o tratamento atinge também células não cancerígenas, há efeitos colaterais como enjoos, queda de cabelo e anemia.

Outro tratamento indicado é a imunoterapia que deve ser feita após a quimioterapia ou em conjunto ela para aumentar a efetividade contra o tumor. Na imunoterapia, a medicação não atua diretamente na célula, mas faz o sistema imunológico combater a doença.

No câncer gástrico, pesquisas recentes mostraram que a imunoterapia combinada com a quimioterapia tende a trazer resultados melhores no combate aos tumores. Em casos de câncer de estômago metastático, o tratamento é paliativo, ou seja, com o objetivo de aliviar ou evitar sintomas, prolongar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida.

 

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