Mais transmissível, variante do Reino Unido não aumenta a gravidade da Covid-19

Novos estudos sugerem que a variante B.1.1.7 aumenta a carga viral dos infectados e se torna mais transmissível, mas não afeta a severidade da doença

Jacqueline Howard, CNN

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Dois novos estudos sugerem que a variante do coronavírus conhecida como B.1.1.7, que foi identificada pela primeira vez no Reino Unido, é mais transmissível, mas não parece contribuir para a gravidade da doença.

As descobertas são conflitantes com pesquisas anteriores que sugeriam uma associação da variante a uma letalidade maior da Covid-19.

Um dos estudos, publicado nesta segunda-feira (12) no The Lancet Infectious Diseases, não encontrou nenhuma evidência em uma amostra de pacientes hospitalizados de que a variante B.1.1.7 está associada à gravidade da Covid-19. No entanto, a variante foi associada ao aumento da carga viral, o que sustenta a alegação de que é mais transmissível.

O outro estudo, também publicado nesta segunda no The Lancet Public Health, não encontrou associação estatisticamente significativa entre a variante B.1.1.7 e os tipos dos sintomas ou mesmo a duração deles em pacientes com Covid-19.

Ilustração em 3D representando o novo coronavírus
Ilustração em 3D representando o novo coronavírus
Foto: Nexu Science Communication/Reuters

 

Pacientes com B.1.1.7 eram mais jovens e tinham menos comorbidades

O estudo publicado na Lancet Infectious Diseases incluiu dados sobre 496 pessoas que foram internadas em hospitais de Londres e testaram positivo para Covid-19.

“Nossos dados, dentro do contexto e das limitações de um estudo na vida real, fornecem garantia inicial de que a gravidade em pacientes hospitalizados com B.1.1.7 não é muito diferente da gravidade naqueles sem [a variante]. E esse estudo fornece um modelo para responder ao mesmo questionamento à medida que avançamos para uma era de novas variantes “, escreveram os pesquisadores do Reino Unido.

Amostras de secreção de nariz e garganta foram coletadas dos pacientes entre 9 de novembro e 20 de dezembro. Dessas amostras, 341 foram submetidas ao sequenciamento do genoma. Os dados da sequência mostraram que 198 pacientes, ou 58%, tiveram infecções causadas pela variante B.1.1.7, enquanto os outros foram causados ??por outras cepas do coronavírus.

Os pesquisadores não encontraram nenhuma diferença com relação à agressividade da doença ou mesmo no número de mortes em comparação com outras linhagens.

Enfermeira trata paciente com Covid-19 na UTI de hospital em São Paulo
Enfermeira trata paciente com Covid-19 na UTI de hospital
Foto: Amanda Perobelli/Reuters (3.jun.2020)

Os dados mostraram, por exemplo, que 36% dos pacientes no estudo com a variante B.1.1.7 experimentaram doença grave ou morte em comparação com 38% daqueles com infecções relacionadas a outras cepas.

Relacionando apenas os casos de morte, 16% das pessoas com a variante B.1.1.7 morreram dentro de 28 dias em comparação com 17% daqueles com infecções diferentes.

Aumento da carga viral

Os pesquisadores identificaram um aumento da carga viral entre os pacientes com a variante B.1.1.7.

No geral, “os pacientes com B.1.1.7 eram mais jovens e tinham menos comorbidades do que aqueles com outras cepas, o que pode indicar o aumento generalizado e potencial de transmissão desta variante ou diferenças na probabilidade de admissão hospitalar, que não fomos capazes de explorar neste recorte, baseado em pessoas hospitalizadas”, escreveram os pesquisadores.

“Encontrar B.1.1.7 mais comumente em indivíduos mais jovens versus indivíduos mais velhos sugere uma gravidade sutilmente maior da B.1.1.7 já que os contaminados são hospitalizados com mais frequência em comparação com contaminados com outras linhagens, embora a diferença na gravidade da doença por B.1.1.7 não foi encontrado neste recorte principal, com pessoas hospitalizadas.”

Há consenso de que a variante B.1.1.7 aumentou a transmissibilidade

O estudo publicado na Lancet Public Health incluiu dados de 36.920 pessoas que relataram teste positivo para Covid-19 e registraram seus sintomas no aplicativo COVID Symptom Study entre 28 de setembro e 27 de dezembro.

O aplicativo – desenvolvido por médicos e cientistas do King’s College London, Guys and St Thomas ‘Hospitals e Zoe Global Limited, uma empresa de tecnologia para saúde – ajuda a rastrear a disseminação de Covid-19 e a gama de sintomas.

Os autores do estudo, que são do Reino Unido e dos Estados Unidos, analisaram os dados relatados no aplicativo junto com os dados de monitoramento da Covid-19 para o Reino Unido.

A análise mostrou que a prevalência da variante B.1.1.7 em certas regiões e ao longo do tempo não foi associada a alterações nos sintomas de Covid-19 relatados no aplicativo nem mesmo à duração desses sintomas.

“A proporção de usuários com doença assintomática não mudou significativamente conforme a variante B.1.1.7 aumentou seu alcance, de acordo com outros estudos sobre o assunto”, escreveram os pesquisadores.

Enfermeira sul-africana cuida de paciente internado com coronavírus
Enfermeira sul-africana cuida de paciente internado após contrair a variante do coronavírus
Foto: Reuters

“Também não encontramos mudanças nas admissões em hospitais. No entanto, outros relatórios mostraram que a variante B.1.1.7 aumenta as taxas de admissão ao hospital”.

Os pesquisadores descobriram que a taxa de reinfecções por coronavírus era baixa – com 0,7% dos usuários do aplicativo relatando um novo positivo para Covid-19 depois de 90 dias da primeira infecção – e não havia evidência de aumento nas taxas de reinfecção associadas à variante B.1.1.7.

Os pesquisadores não tinham dados sobre o risco de morrer devido à Covid-19 e a maioria dos usuários do aplicativo são testados apenas quando apresentam sintomas, portanto, havia relativamente poucas infecções assintomáticas nos dados.

No entanto, os pesquisadores descobriram um “aumento exponencial” no número de reprodução da variante B.1.1.7, sugerindo que ela pode se espalhar mais facilmente.

“Este estudo contribui para o consenso de que a B.1.1.7 aumentou a transmissibilidade, o que contribuiu em grande parte para o aumento acentuado de casos no Reino Unido durante o período de estudo e além, bem como terceiras ondas prolongadas em países europeus com crescimento de casos B.1.1.7 “, diz Britta Jewell, do Imperial College London, em um editorial que acompanhou o novo estudo na revista The Lancet Public Health. Jewell não estava envolvida no novo estudo.

“Embora a B.1.1.7 possa ter sintomatologia semelhante àquela de outras linhagens, o surgimento de novas variantes é inevitável enquanto a transmissão do SARS-CoV-2 continuar subindo”, escreveu Jewell.

“Em outras regiões – especialmente em países de baixa e média renda que podem enfrentar esperas mais longas para controlar suas epidemias por meio da vacinação – métodos de monitoramento em tempo real dos sintomas e características da doença, semelhantes ao COVID Symptom Study, podem ajudar a identificar mudanças potencialmente importantes na sintomatologia, transmissibilidade, mortalidade ou prevenção da vacina o mais rapidamente possível”, destacou. 

(Esse texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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