Moradores de favela em SP relatam falta de orientação para combater coronavírus

"Ninguém veio aqui, nós estamos sabendo pelos jornais. O que está dando para fazer, a gente faz", disse dona de casa de Heliópolis

Carolina Abelin

Da CNN, em São Paulo

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Desde o início da pandemia do novo coronavírus, moradores de Heliópolis, a maior favela da cidade de São Paulo, alegam que não há visitas de agentes de saúde e assistentes sociais para auxiliar e dar orientações sobre o combate ao vírus. A CNN solicitou um posicionamento da Prefeitura de São Paulo sobre o caso e aguarda retorno.

Mesmo com a fragilidade, uma ação conjunta nasceu naturalmente para auxiliar nas orientações. O início foi dado por empresas, que fizeram doações de produtos de higiene. Depois, a população se mobilizou e atualmente colabora para melhorar a situação para quem vive na comunidade. A Central Única das Favelas (Cufa), já entregou 500 kits com com mantimentos com produtos de limpeza e itens da cesta básica, tudo higienizado com álcool por meio de borrifadores. 

Para quem vive na comunidade, o vírus é uma realidade que assusta, mas eles fazem o que podem. Para Vanessa Rocha, dona de casa, o orçamento da casa tem que ser pesado entre a alimentação e os itens de limpeza. Mãe de quatro filhos, ela conta com a ajuda do marido para manter todos bem e em casa.

“Estou conseguindo produto de higiene por conta do projeto e apenas com o que eles estão entregando. O dinheiro que o meu esposo recebe ou é para alimentação, ou para limpeza. A gente não tem condição de comprar álcool em gel”, contou em entrevista à CNN nesta sexta-feira (3).

‘Ninguém veio aqui’

A dona de casa também pontuou que todas as medidas que ela e sua família têm tomado não vieram de orientações de agentes da saúde, por exemplo.

“Não estamos saindo de jeito nenhum. Só meu marido que sai e, quando volta, a gente pega o álcool normal e ele passa tudo no borrifador. Ninguém veio aqui, nós estamos sabendo pelos jornais. O que está dando para fazer, a gente faz”, disse Vanessa.

Marcivan Barreto, líder comunitário e coordenador da Cufa, avalia que nem todos os moradores têm seguido as medidas restritivas. Para ele, após o discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em que ele comparou o vírus a uma “gripezinha”, algumas pessoas passaram a descumprir as ações de isolamento social.

“Eu tenho vídeos e fotos que comprovam isso. Nós fizemos um trabalho muito difícil no começo, a gente se empenhou, distribuiu papel para alertar no começo da pandemia. E aí você escuta uma fala, do homem que senta na cadeira da Presidência, alegando ser uma ‘gripezinha’. No outro dia você vê o efeito, é automático”, contou Barreto.

“As pessoas tiveram esse comportamento, eu sempre peço. Não é uma gripezinha, aqui em Heliópolis já temos três casos de morte [por COVID-19]. Então o vírus está aqui, ao nosso redor e não estamos vendo, as pessoas não têm essa consciência”, afirmou.

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