Movimentos anti-vacina usam argumentos do século 19

Olhar para a história desses movimentos pode nos ajudar a entender por que eles podem ser tão eficazes em capturar seguidores

Caricatura retrata um homem da classe trabalhadora sendo vacinado à força por um oficial de saúde, enquanto é detido por um policial.
Caricatura retrata um homem da classe trabalhadora sendo vacinado à força por um oficial de saúde, enquanto é detido por um policial. Foto: Hathitrust Digital Library

Paula Larsson,

da Universidade de Oxford

Ouvir notícia

NOTA DO EDITOR: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente da responsabilidade do autor. A CNN publica aqui um texto do site The Conversation, uma colaboração entre jornalistas e acadêmicos para fornecer análises e comentários de notícias. O conteúdo é produzido exclusivamente pelo site “The Conversation”. 

Conforme nos aproximamos de uma vacina eficaz para Covid-19, devemos esperar ver um novo impulso de desinformação e resistência barulhenta do movimento antivacina. 

Ao longo do ano, uma série aparentemente interminável de teorias de conspiração e campanhas de desinformação ganharam impulso online em meio aumento das taxas de infecção de Covid-19 no mundo todo. 

Olhar para a história desses movimentos pode nos ajudar a entender por que eles podem ser tão eficazes em capturar seguidores. 

Como historiadora da medicina, ficou claro para mim, ao pesquisar a história das vacinas, que aqueles que promovem o movimento antivacinas usam consistentemente um conjunto padrão de estratégias.

Embora possa ser difícil ver padrões de argumento no contexto moderno, olhar para trás em um caso histórico de epidemia e desinformação fornece um estudo de caso útil para revelar as estratégias antivacina recorrentes até hoje. 

Um panfleto popular publicado em 1885 durante a epidemia de varíola em Montreal, no Canadá, é um grande exemplo.

Mais de um século depois, temos o benefício de viver em um mundo que erradicou a varíola usando uma vacina. Ainda assim, no passado, a vacinação contra a varíola era fortemente contestada, apesar das evidências a favor de sua eficácia.

Panfleto antivacina do século 19
Manchete do panfleto do Dr. Ross de 1885 denunciava a vacinação contra a varíola.
Foto: Hathitrust Digital Library

Publicado por um nome importante do movimento antivacina, o doutor Alexander M. Ross, este panfleto foi amplamente divulgado durante a epidemia de varíola de 1885 em Montreal, Canadá, quando as autoridades de saúde pública tentavam aumentar a cobertura vacinal. 

Ross aproveitou a oportunidade de aumentar as medidas de saúde para ganhar autoridade, notoriedade e fama pessoal. Ele se retratou como o herói de sua própria história, o “único médico que ousou duvidar do fetiche” da vacinação.

Apesar disso, foi descoberto que ele havia sido vacinado recentemente durante a epidemia, fato que foi alegremente divulgado pelos principais jornais da época. 

Seu panfleto serve como uma ilustração excelente das estratégias usadas pelos movimentos antivacinas, tanto naquela época quanto agora. Esses argumentos não são novos e mudaram pouco com o tempo. Aprender a reconhecer sua embalagem em tempos modernos pode ajudar a combater eficazmente seu poder. 

Leia também:
Como as mudanças climáticas afetam as pandemias
Sangrias e fumaça curativa: o que já foi usado para tentar combater pandemias

Minimizar a ameaça de uma doença

Ross e seus colegas antivacinas foram rápidos em minimizar a ameaça da varíola. Apesar das taxas de mortalidade entre 30% e 40% e o seu extremo nível de contágio, era comum os antivacinas afirmarem que a varíola era apenas uma ameaça menor para a população.

Ross lamentou o “pânico sem sentido” causado por funcionários da saúde e médicos sobre a epidemia, alegando que a varíola não era, de fato, uma epidemia e que a cidade tinha “muito poucos casos”. Os números oficiais da epidemia acabariam subindo para 9.600 casos notificados, com 3.234 mortes, quase 2% da população de Montreal na época.

Outros 10 mil casos foram registrados na província de Quebec, mas os historiadores acreditam que os números reais eram provavelmente muito maiores. Esses números e a história dessa epidemia foram narrados pelo historiador Michael Bliss em seu relato de não-ficção “Plague: A Story of Smallpox in Montreal” (“Praga: uma história de varíola em Montreal”, sem edição no Brasil). 

A minimização da ameaça também é uma tática comum nos debates contemporâneos. Muitos que promovem a agenda antivacina afirmam que as vacinas são mais perigosas do que a doença.

Alegar que a vacina causa doenças, é ineficaz ou ambos

Panfleto antivacina do século 19
Trecho descreve toda uma série de supostos efeitos da vacinação contra a varíola.
Foto: Hathitrust Digital Library

Embora os argumentos modernos tenham se concentrado na falsa alegação de que as vacinas causam autismo, os argumentos históricos eram muito mais variados em suas alegações de infecções causadas pela vacina contra a varíola. Os antivacinas do passado afirmavam que a vacinação causava um espectro completo de doenças, desde a própria varíola à sífilis, febre tifoide, tuberculose, cólera e “envenenamento do sangue”. 

Essas alegações nem sempre eram infundadas, mas seus riscos eram consistentemente exagerados. Há registros de casos de transmissão secundária de doenças devido a práticas inadequadas de vacinação.

Alguns médicos usaram a vacinação braço a braço (o que significa que usavam o mesmo instrumento para vacinar toda uma fila de pessoas) ou vacinas preparadas de origem humana em vez de bovina. A falta de esterilização entre as operações ou o uso de vacina preparada a partir de uma pessoa infectada pode levar a casos raros de transmissão de doenças secundárias.

A descoberta de tais transmissões (anos antes) desencadeou alguns dos primeiros regulamentos em torno da preparação e administração de vacinas e gerou uma grande preocupação na comunidade médica sobre a segurança das vacinas, uma preocupação que continuou a ser uma herança na produção de vacinas até hoje. 

Leia também:
O que a pandemia de gripe espanhola de 1918 pode nos ensinar sobre a Covid-19
‘Resultado da politização’, diz pesquisadora sobre rejeição à vacina chinesa

Declarar que a vacinação faz parte de uma conspiração maior

O panfleto de Ross foi inflexível sobre o papel da imprensa e da classe médica em alimentar o medo de infecções como parte de uma campanha “maluca” para ganhar dinheiro. Assim como hoje, as epidemias criaram oportunidades de emprego e pesquisa na área médica. 

No entanto, esse trabalho foi pintado como uma exploração antiética dos pobres, valendo “um milhão de libras esterlinas” para a profissão, em vez de um esforço no combate ao sofrimento e à morte de milhares. 

Além disso, as medidas de saúde pública foram descritas como um atentado aos direitos pessoais e um abuso do poder governamental. “Esqueça a tirania russa”, declarou Ross, pois não havia “nada tão grande” quanto a tirania dos funcionários de saúde da cidade.

Seus argumentos ainda ecoam mais de um século depois na atual pandemia, pois vemos um apoio contínuo por trás da crença em uma conspiração para limitar as liberdades (entre outras, mais extremas, teorias de conspiração). 

Use autoridades alternativas que legitimam seu argumento

Panfleto antivacina do século 19
O Panfleto Ross inclui uma longa lista de depoimentos contra a vacinação dos “médicos mais eminentes da Europa”.
Foto: Hathitrust Digital Library

Por último, mas não menos importante, há um apelo às autoridades que ajudem a legitimar o argumento antivacinas. O movimento antivacina moderno tem uma abundância de argumentos, liderados por Andrew Wakefield, o agora desacreditado ex-médico que originalmente publicou o estudo fraudulento ligando a vacina tríplice viral ou MMR (sarampo, caxumba, rubéola) ao autismo.

O movimento antivacina tem uma longa tradição de promover as palavras de “especialistas” que apoiam sua narrativa. No século 19, os debates sobre vacinação muitas vezes traziam um pequeno círculo semelhante de médicos que falava contra a vacinação, chamando-a de uma prática “suja” e “má”.

Embora seus argumentos tenham sido refutados por muitos na comunidade médica, eles ganharam um manto duradouro de prestígio entre os antivacinas como as vozes autorizadas que ofereciam a “prova” necessária. 

Esta não é uma lista exaustiva de estratégias antivacinas, sejam históricas ou contemporâneas. Sempre houve indivíduos que capitalizam em crises médicas para promover sua própria agenda e, na era moderna da mídia digital, estratégias de desinformação evoluíram e se expandiram. Assim como Ross, os líderes desses movimentos ganham poder social pintando-se como cruzados solitários.

Conforme nos aproximamos para uma distribuição mundial da vacina contra a Covid-19, podemos esperar ver cada vez mais esses cruzados publicando argumentos contra a vacinação. Quebrar padrões de argumentos vistos repetidamente no passado pode fornecer uma lição útil para combatê-los no futuro. 

Paula Larsson é doutoranda no Centro de História da Ciência, Medicina e Tecnologia da Universidade de Oxford. 

Republicado sob uma licença Creative Commons do The Conversation

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês). 

Tópicos

Mais Recentes da CNN