Mulher morre após colonoscopia em SP: o que pode causar perfuração

Mariana dos Santos Candido, 41 anos, faleceu em hospital de Ermelino Matarazzo; médico explica como funciona a realização do exame

Khauan Wood, da CNN Brasil*, Thomaz Coelho, da CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

Uma mulher de 41 anos, identificada como Mariana dos Santos Candido, morreu após ter o intestino perfurado durante um exame de colonoscopia. O procedimento foi realizado no pronto-socorro do Hospital Municipal Professor Doutor Alípio Corrêa Netto, em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, na tarde da última quarta-feira (29).

A tia da vítima registrou um boletim de ocorrência, e a família suspeita que a causa da morte tenha sido um erro médico. O caso foi registrado no 62º Distrito Policial como morte suspeita e o corpo foi encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal) para a realização de necropsia.

Entenda o caso: Mulher morre após ter intestino perfurado durante colonoscopia em SP

Em nota à CNN Brasil, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) lamentou a perda e declarou que a direção do hospital está à disposição dos familiares. O órgão informou ainda que as circunstâncias da morte estão sendo apuradas em conjunto com a chefia de endoscopia e cirurgia da unidade.

Perfuração é uma complicação rara

Segundo o coloproctologista Danilo Munhóz, a colonoscopia é um procedimento seguro, embora, como qualquer exame invasivo, não seja totalmente isento de riscos.

Entre as possíveis complicações estão sangramentos (especialmente após a retirada de pólipos), reações relacionadas à sedação e, em casos mais raros, a perfuração do intestino.

De acordo com uma revisão da Sociedade Americana de Endoscopia Gastrointestinal, baseada em mais de 10 milhões de exames, a perfuração ocorre em cerca de 5,8 a cada 10 mil colonoscopias.

A lesão pode acontecer por diferentes mecanismos, como a pressão exercida pelo aparelho sobre a parede intestinal, a distensão do intestino necessária para permitir a visualização do cólon ou durante procedimentos terapêuticos realizados no mesmo exame, como a retirada de pólipos maiores.

Diagnóstico precoce pode mudar o tratamento

Munhóz explica que, quando a perfuração é identificada rapidamente, existem diferentes possibilidades de tratamento.

Dependendo do tamanho da lesão, das condições clínicas do paciente e da presença de contaminação da cavidade abdominal, a abordagem pode variar entre o fechamento da perfuração por técnicas endoscópicas, observação clínica rigorosa ou cirurgia.

O especialista ressalta, porém, que a ocorrência da complicação, por si só, não permite concluir que houve falha médica.

A ocorrência de uma complicação conhecida não permite, isoladamente, afirmar que houve erro médico.
Danilo Munhóz, coloproctologista

Ele afirma que os casos devem ser tratados com cautela e devem ser analisados: o prontuário, as circunstâncias do exame, o tempo até o diagnóstico e o resultado da necropsia para esclarecer o que aconteceu.

Sedação também exige cuidados

Ele aponta que outro aspecto importante da colonoscopia é a sedação, utilizada para proporcionar conforto ao paciente durante o exame.

Segundo o médico, a escolha dos medicamentos e da profundidade da sedação leva em consideração fatores como idade, doenças pré-existentes, condições cardiopulmonares e a complexidade prevista do procedimento.

As complicações relacionadas à sedação costumam ser respiratórias ou cardiovasculares, incluindo redução da oxigenação, queda da pressão arterial, alterações do ritmo cardíaco e, mais raramente, aspiração.

Por isso, a realização do exame exige avaliação clínica prévia, monitorização contínua dos sinais vitais, equipe treinada e estrutura adequada para responder rapidamente a eventuais intercorrências.

Exame continua fundamental

Apesar do episódio chamar atenção, o especialista destaca que ele não deve afastar a população da realização da colonoscopia quando houver indicação médica.

O exame permite visualizar todo o intestino grosso, realizar biópsias e retirar pólipos durante o mesmo procedimento, interrompendo a evolução de lesões que poderiam se transformar em câncer.

No protocolo brasileiro de rastreamento pelo SUS (Sistema Único de Saúde), pessoas assintomáticas entre 50 e 75 anos realizam inicialmente o teste imunoquímico fecal, sendo encaminhadas para colonoscopia quando há alteração no resultado.

O exame também permanece indicado para pacientes com sintomas como sangue nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal, anemia sem causa definida, perda de peso inexplicada ou histórico familiar de câncer colorretal.

Segundo Munhóz, o equilíbrio entre segurança e benefício depende da seleção adequada dos pacientes, da realização do exame em ambiente preparado e da informação clara sobre os riscos, que, embora existentes, são considerados raros diante da importância da colonoscopia na prevenção e no diagnóstico precoce da doença.

*Sob supervisão de AR.