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    Nobel de Química: O que é Crispr e por que essa técnica é controversa?

    Dupla de cientistas venceu o Nobel de Química pelo desenvolvimento da ferramenta de 'edição genética'

    Katie Hunt, da CNN

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    Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna
    Microbiologista francesa Emmanuelle Charpentier e professora norte-americana Jennifer Doudna, ganhadoras do prêmio Nobel de Química
    Foto: Eloy Alonso/Reuters (21.out.2015)

    Duas mulheres venceram o prêmio Nobel de química pelo desenvolvimento de uma ferramenta revolucionária de edição genética, que já foi descrita como “a reescrita do código da vida”. 

    A técnica, descoberta por Emmanuelle Charpentier, diretora do Instituto Max Planck de Biologia das Infecções, e Jennifer A. Doudna, bioquímica da Universidade da Califórnia Berkeley, é conhecida como Crispr/Cas9. 

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    Ela foi assunto de manchetes em 2018, quando um cientista chinês usou essa tecnologia para criar os primeiros bebês com genes editados, chocando o mundo e gerando um debate acalorado sobre a ética dessa prática. 

    O que é a Crispr (pronunciada “crís-per”) e por que essa técnica é controversa?

    Como funciona

    O DNA é como o manual de instruções para a vida no nosso planeta, e a Crispr/Cas9 consegue mirar locais no material genético. 

    Isso permite que os cientistas o alterem ao tirar um gene particular ou ao inserir um novo material genético em um local pré-determinado no nosso DNA. 

    Cas9, um tipo de proteína modificada, age como tesouras que podem cortar partes das cadeias de DNA. Crispr é uma sigla para repetições palíndromas curtas agrupadas regularmente interespaçadas em inglês — ou seja, uma sequência repetida de DNA em genomas. 

    “Doudna e Charpentier mostraram que a Crispr funciona como tesouras que podem ser apontadas para cortarem sequências específicas de DNA”, explicou Andrew Holland, um professor assistente do departamento de Biologia Molecular e Genética da Faculdade de Medicina Johns Hopkins. “Depois de cortar, o reparo do código de DNA permite que ele seja alterado. Isso permitiu que cientistas mudem o código de DNA de maneira específica para entender e tratar doenças genéticas”, disse ele à CNN por email. 

    A tecnologia funcionou em todos os organismos em que foi usada, incluindo plantas, micróbios e humanos. 

    “O que o sistema faz é que ele consegue reconhecer um gene específico no nosso próprio genoma e corrigir mutações, fazer uma espécie de copia e cola, fazer uma edição como fazemos em um texto. O sistema pode editar o genoma e mudar as propriedades dos genes”, disse Charpentier em 2016, quando foi entrevistada pela CNN

    Como é utilizada 

    Cadeia de DNA
    Ilustração de cadeia de DNA
    Foto: Public Domain Pictures/Pixabay

    A técnica já teve grande impacto na pesquisa biomédica, medicina clínica e na agricultura. Por exemplo, ela já foi usada para cultivar arroz que acumula níveis menores de metais pesados que podem ser potencialmente tóxicos e para criar gado com traços mais desejáveis. 

    Foi usada pela primeira vez em humanos em 2016 e um teste clínico está em andamento nos Estados Unidos para tratar pacientes com anemia falciforme, um grupo de transtornos no sangue que são hereditários. 

    Tecnologias relacionadas podem ser capazes de corrigir até 89% dos defeitos genéticos, disseram especialistas. 

    “Não é um exagero dizer que a tecnologia que veio das descobertas de Doudna e Charpentier revolucionaram a área”, disse Jessica Downs, chefe adjunta da divisão de Biologia Oncológica no Instituto de Pesquisa do Câncer no Reino Unido, ao Centro de Imprensa Científica em Londres. 

    “Nós adotamos essa tecnologia no nosso laboratório para investigar mudanças moleculares que levam ao desenvolvimento do câncer. Foi transformador nos termos do que podemos conseguir, mas também há grande potencial de uso na clínica. E em nível mais pessoal, é inspirador e animador ver duas mulheres honradas pelo trabalho delas dessa maneira”. 

    Por que é controversa? 

    Enquanto tem potencial imenso de transformar as nossas vidas, a técnica tem levantado muitas questões éticas. 

    O cientista chinês He Jiankui foi condenado a três anos de prisão em 2019 após anunciar que bebês gêmeas nasceram com DNA modificado para torná-las resistentes ao HIV, o que ele conseguiu ao usar a ferramenta Crispr/Cas9 antes do nascimento delas. 

    Um professor associado na Universidade do Sul de Ciência e Tecnologia em Shenzhen, na época, ele disse estar orgulhoso da conquista. No entanto, ele foi condenado por muitos de seus colegas e o experimento foi considerado “monstruoso”, “antiético” e “um grande baque” para a reputação da ésqiosa biomédica chinesa. 

    Claes Gustafsson, secretário do comitê do Nobel em química e um professor de bioquímica e biofísica na Universidade de Estocolmo, disse que “com todas as tecnologias realmente poderosas, nas ciências biológicas ou em qualquer outra área, há possibilidade de mau uso”. 

    “Claramente esse pesquisador chinês passou bastante dos limites ao aplicar dessa maneira em particular”, disse ele à CNN

    “Todo mundo concordou que a técnica não pode ser usada para engenharia germinativa. Você não pode fazer mudanças hereditárias ao DNA humano. Isso ainda é muito incerto”, acrescentou Gustafsson. “Há doenças genéticas específicas que podemos pensar em curar em um indivíduo, mas não de maneira que isso possa ser herdado”. 

    Cientistas pediram uma moratória na edição germinativa humana, enquanto se esforçam para regular melhor o uso da tecnologia. Uma comissão internacional disse em setembro que ainda era muito cedo para usar embriões humanos com genes editados para gerar uma gravidez. 

    Doudna expressou profunda preocupação em relação ao trabalho de He, dizendo à CNN que não era necessário clinicamente e que não há como defender o uso de uma tecnologia experimental quando há maneiras estabelecidas de evitar a transmissão do HIV. 

    (Texto traduzido, leia o original em inglês)

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