Método que ganhou Nobel de Química pode ser usado para diagnosticar Covid-19


Layane Serrano, da CNN em São Paulo
07 de outubro de 2020 às 14:58 | Atualizado 07 de outubro de 2020 às 16:58

Em entrevista à CNN, Natália Pasternak, microbiologista e pesquisadora colaboradora da Universidade de São Paulo (USP), explicou, nesta quarta-feira (7), o método CRISPR/Cas, que rendeu o Prêmio Nobel de Química para as cientistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna. 

O método, segundo a microbiologista,  foi o ganhador do Prêmio deste ano por editar de uma forma mais rápida, barata e precisa o genoma de plantas e animais, trazendo benefícios para a área da agricultura e da medicina.

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“O que as ganhadoras do prêmio deste ano descobriram foi que as bactérias têm uma maneira de se defender do ataque de vírus. E o jeito como elas se defendem é com uma ferramenta chamada CRISPR, que é uma 'tesourinha genética'. Elas cortam o DNA do vírus e lembram disso para uma próxima vez. É quase que um sistema imune de bactéria. Elas guardam informação desses pedacinhos de vírus e quando o vírus chega de novo elas vão lá e picotam os desgraçados", explica a microbiologista. 

Parternak ressaltou que a pesquisa ganhadora do Prêmio Nobel trabalha com a genética das bactérias, porém, é possível adaptar a técnica para o genoma humano, de animais e das plantas:

“É importante ressaltar que a pesquisa não trabalha com genoma humano. A pesquisa trabalha com a genética de bactérias. E se não fossem as pesquisas nessa área, não teríamos nenhuma ferramenta de biologia molecular que permitisse hoje edição de genomas e alimentos transgênicos, por exemplo. Tudo isso começa com pesquisas básicas de genética de bactérias, que são movidas pela curiosidade de entender como as coisas funcionam, sem pensar em uma aplicação futura. Porém, estudos mais recentes já mostram que dá para adaptar essa técnica também ao genoma humano, de animais e das plantas, sendo possível cultivar plantas modificadas que podem resistir a secas, corrigir doenças hereditárias, como a anemia falciforme, e até estudar tratamentos para combater o câncer", comenta a pesquisadora.

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Natália Pasternak, microbiologista e pesquisadora da USP, fala à CNN

Natália Pasternak, microbiologista e pesquisadora colaboradora da USP, fala à CNN

Foto: CNN (7.out.2020)

A microbiologista ainda comentou que a americana Jennifer A. Doudna, uma das ganhadoras, criou uma empresa chamada "Mammoth Biotechnologies". Essa companhia está testando o método CRISPR/Cas  para criar diagnóstico para doenças virais, como a Covid-19.

“Uma aplicação recente dessa técnica, que ilustra bem a beleza desse método, está sendo feita por uma das laureadas. A Jennifer A. Doudna tem uma empresa que começou a usar a técnica de CRISPR/Cas  para fazer diagnóstico de doenças virais, como a Covid-19”, ressalta.

Para Pasternak, além da contribuição que essa descoberta pode trazer para a agricultura e medicina, foi gratificante ver mulheres e a área de biologia molecular serem reconhecidas mundialmente:

“Para mim é duplamente gratificante, além de ser uma mulher, trabalho na área de genética básica de bactérias há anos. Não teríamos nada de biologia molecular se não fosse pelo estudo de genética de bactérias.”