Novembro Azul: com pandemia, caem cirurgias de próstata por câncer no SUS

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), cerca de 65 mil novos casos de câncer de próstata devem surgir no país em 2021

Em 2020, houve uma redução de 21,5% das cirurgias para retirada da próstata por câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS)
Em 2020, houve uma redução de 21,5% das cirurgias para retirada da próstata por câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) Breno Esaki/Agência Saúde DF

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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A campanha Novembro Azul promove a conscientização para o câncer de próstata e destaca os riscos da falta de acompanhamento médico pelos homens.

Dados do Ministério da Saúde mostram que no período da pandemia de Covid-19, iniciada em março de 2020, houve uma redução de 21,5% das cirurgias para retirada da próstata por câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O dado é resultado de uma comparação entre os anos de 2019 e 2020.

Outros procedimentos que permitem o diagnóstico do câncer também apresentaram redução no período. A realização de um exame complementar, chamado PSA, teve uma queda de 27%. Já a biópsia, que consiste na retirada de fragmentos do tecido da próstata para análise, apresentou uma diminuição de 21%.

O número de consultas urológicas no SUS também caiu 33,5%. Já as internações de pacientes com o diagnóstico da doença apresentaram uma queda de 15,7%.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), Antonio Carlos Pompeo, o medo do contágio e o direcionamento dos serviços de saúde para o enfrentamento da Covid-19 explicam a diminuição no número de consultas e a queda nas cirurgias e outros procedimentos.

“Na pandemia, os hospitais e as clínicas se voltaram ao atendimento basicamente da Covid-19, em detrimento de atendimento de outras doenças. As pessoas, pelo afastamento social, tinham dificuldade de procurar o atendimento. Elas já não queriam se movimentar muito para não ter contato com pessoas em hospitais”, afirma Pompeo. “Além disso, hospitais apresentaram falta de vagas por que estavam dirigidas a outras doenças. O somatório disso trouxe como consequência menos consultas, o que significa menos exames, biópsias e tratamento”, completa.

De acordo com a pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia, as consultas com urologistas continuam baixas em 2021. Até o mês de julho, foram realizadas 1.812.982 consultas. Em 2019, foram 4.232.293 atendimentos e, em 2020, 2.816.326 consultas.

Os estados que apresentaram as maiores reduções na biópsia da próstata entre 2019 e 2020 foram o Acre (90%), Mato Grosso (69%) e Rio Grande do Norte (50%). Estados como o Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram reduções de 39% e 31%, respectivamente.

Em relação ao exame de PSA, quedas significativas foram registradas na Paraíba (50%), Pernambuco (37%), Distrito Federal (34%), Rio de Janeiro (30%) e São Paulo (29%).

Aumento da taxa de mortalidade

O câncer de próstata é o mais frequente entre os homens, exceto pelo câncer de pele não melanoma. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), cerca de 65 mil novos casos devem surgir no país em 2021.

Especialistas alertam que a diminuição na procura por atendimento médico e na realização de exames pode aumentar o número de casos sem diagnóstico.

“Perdemos o momento oportuno de diagnosticar muita gente durante a pandemia. Temos que diagnosticar o câncer de próstata quando ele não dá sintomas. A nossa meta é o diagnóstico precoce, não temos uma medida preventiva desse tipo de câncer”, ressalta Pompeo.

De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), a mortalidade por câncer de próstata aumentou cerca de 10% em cinco anos, subindo de 14.542 óbitos, em 2015, para 16.033 vítimas, em 2019.

Os impactos da pandemia

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que, no Brasil, mais de um milhão de cirurgias foram canceladas ou adiadas, incluindo os procedimentos cirúrgicos para tratamento do câncer de próstata.

A pesquisa, publicada no periódico científico The Lancet Regional Health – Americas, aponta para o acúmulo crescente de procedimentos cirúrgicos em decorrência das mudanças impostas pela Covid-19 na capacidade de atendimento dos sistemas de saúde. O adiamento de cirurgias eletivas, com o objetivo de direcionar os recursos médicos aos pacientes com a Covid-19 ampliou o gargalo dos procedimentos.

Segundo o artigo, o adiamento ou cancelamento de mais de um milhão de procedimentos cirúrgicos no sistema público de saúde do país levou ao acúmulo de cirurgias eletivas que chega a 900 mil casos.

O presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Antonio Carlos Pompeo, orienta que os homens retomem a rotina de cuidados com a saúde e consultas médicas periódicas.

“É muito importante que os homens tenham acesso à informação, às consultas de rotina e também que recebam seu diagnóstico. Essa fuga do médico vai causar um efeito de mais diagnósticos tardios em longo prazo”, afirma Pompeo.

2014
Monumentos são iluminados de azul como parte da campanha de conscientização para a saúde integral do homem / Valter Campanato/Agência Brasil

Informação em saúde

Ao longo do mês de novembro, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) realiza uma série de ações que enfatizam o cuidado com a saúde masculina.

Diversos monumentos serão iluminados de azul, incluindo a Ponte Estaiada e o Viaduto do Chá, em São Paulo.

“As campanhas têm por objetivo mudar o comportamento através da conscientização sobre a necessidade dos cuidados com a saúde. Muitas doenças, inclusive o câncer de próstata, não provocam nenhum tipo de sintoma na fase inicial. Por esse motivo, os exames periódicos são importantes, mesmo que não se sinta nada”, disse o médico Alfredo Canalini, secretário-geral da SBU.

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