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    O que acontece no cérebro humano quando as pessoas contam mentiras

    Em maior ou menor grau, todas as pessoas mentem, uma vez que a mentira é um ato instintivo e funciona como uma estratégia de preservação social, dizem especialistas

    Existem alguns transtornos de comportamento que envolvem um excesso de mentiras
    Existem alguns transtornos de comportamento que envolvem um excesso de mentiras Peter Cade/Getty Images

    Lucas Rochada CNN em São Paulo

    Mentir é uma habilidade mental pela qual um indivíduo intencionalmente tenta convencer outra pessoa a acreditar naquilo que a própria pessoa sabe que é falso. Os motivos são os mais variados, desde aumentar um ganho ou evitar uma perda. A verdade é que em maior ou menor grau, todas as pessoas mentem, uma vez que a mentira é um ato instintivo e funciona como uma estratégia de preservação social.

    O tradicional Dia da Mentira, como ficou conhecido o 1º de abril, é marcado por piadas e pegadinhas. Mas, o que acontece de fato no cérebro humano quando as pessoas contam mentiras no dia a dia?

    Existe um circuito cerebral responsável por esta ação que é capaz de criar um fato e, ao mesmo tempo, ter a noção dos perigos dessa inverdade.

    Especialistas afirmam que a mentira é um comportamento normal do ser humano, às vezes necessária para a vida em sociedade, mas pode esconder doenças psíquicas.

    Como o senso crítico permite criar sem perder o juízo

    Os lobos frontais são os grandes responsáveis pela manipulação dos pensamentos, que representam uma importante aquisição neurobiológica da espécie humana, como explica o médico neurocirurgião Fernando Gomes, professor livre-docente do Hospital das Clínicas de São Paulo.

    “É nesta região onde a decisão de omitir um fato, criar uma história ou mentir, acontece. Bem perto dali, o nosso senso crítico, famoso juízo ou bom senso também habita, nos mesmos lobos frontais, e nos permite escutar o nosso bom senso”, explica Gomes.

    A criatividade e a fantasia são aspectos fundamentais da formação do cérebro, desde que o indivíduo não alimente a crença em mentiras.

    “De fato, usar o cérebro para imaginar histórias ajuda a aumentar a criatividade, mas é importante fazer isso com cautela. Brincar de mentir é saudável, só não pode ultrapassar as barreiras e acreditar naquilo que não existe de verdade”, destaca o neurocirurgião.

    As consequências da mentira para o cérebro

    A mentira exige mais do cérebro do que apenas o relato dos fatos. Para mentir uma pessoa deve primeiro omitir a verdade e, em seguida, elaborar uma fala alternativa convincente para o outro, ao mesmo tempo que se preocupa em esconder os sinais físicos do nervosismo.

    A neurocientista Livia Ciacci, do Supera Ginástica Para o Cérebro, explica que tal processo implica em um maior uso dos recursos cognitivos do que quando se diz a verdade.

    “Mesmo demandando esforço, e às vezes exibindo expressões e movimentos típicos, não podemos negar que a mentira tem um papel importante na nossa organização em sociedade e no aperfeiçoamento da imaginação e criatividade. Imagine uma criança dizendo: ‘Tia, olha o meu desenho!’ e você responde: ‘Que desenho feio!’, os impactos negativos seriam imediatos, por exemplo”, diz.

    A mentira em forma de faz de conta se faz essencial na infância, como mitos como o Papai Noel, a Fada dos Dentes e o Coelhinho da Páscoa. Segundo a especialista, a mentira é fruto das conexões neuronais responsáveis pela imaginação e criatividade.

    “A habilidade do cérebro de mentir também tem utilidade quando falamos de memórias, pois preenchemos todas as lacunas dos nossos fragmentos de memórias com itens de outras memórias ou mesmo fatos imaginados. Para dar sentido às histórias da sua vida, o cérebro utiliza a imaginação e preenche tudo de forma automática. Até na função visual, o cérebro envia imagens ‘virtuais’ para que você não fique cego enquanto os olhos mudam de posição”, detalha.

    A neurociência observa de perto comportamentos ligados a mentira. Alguns estudos relacionam que os bons mentirosos também são excelentes solucionadores de problemas de forma criativa.

    Os pesquisadores Francesca Gino e Scott Wiltermuth projetaram uma série de experimentos, sendo que em todos eles os participantes eram estimulados a trapacear e em seguida tinham uma tarefa que exigia criatividade. Os participantes mostraram níveis mais altos de pensamento criativo depois de terem sido induzidos a trapacear no momento anterior. Então a trapaça pode encorajar a criatividade subsequente ao preparar as pessoas para serem menos contidas pelas regras.

    Quando mentir se torna um problema

    Existem alguns transtornos de comportamento que envolvem um excesso de mentiras, o que deve ser avaliado caso a caso por um profissional de saúde especializado. Mas no geral, pessoas que mentem e percebem que não foram punidas por isso, mesmo sabendo que foi errado, tendem a repetir ou ainda serem mais ousadas nas próximas mentiras.

    “Também não estamos preparados para sermos desmascarados, pois entram em jogo o orgulho, o medo do julgamento e vários jogos mentais que fazem com que o cérebro prefira inventar coisas mais elaboradas ainda para se livrar da culpa. A tendência é sempre responder aumentando a mentira”, explica Livia.

    A psiquiatra Jéssica Martani destaca que ser preciso diferenciar os diferentes tipos de mentira. As chamadas “mentiras sociais”, por exemplo são aquelas que contamos para evitar conflitos ou preservar a boa relação com outras pessoas.

    “No entanto, como qualquer outro comportamento, se for excessivo e se causar prejuízo ou sofrimento, seja ao mentiroso ou ao outro, pode-se dizer que o mentir é patológico e além disso, deve-se levar em consideração os sentimentos, pensamentos e propósitos que acompanham a mentira”, afirma a especialista.

    A mentira patológica ou mitomania, tem como principal característica a tendência incontrolável de contar mentiras, desde pequenos detalhes a historias fantasiosas. “No caso do mitômano as mentiras não são para ‘levar vantagem’ ou ‘enganar’, muitas vezes podem esconder doenças psíquicas ou traços de uma personalidade fragilizada que precisa de ajuda especializada”, pontua Jéssica.

    Para a psicóloga Daniela Faertes, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais, os casos normalmente começam com mentiras menores, que a princípio soaria como se a pessoa tivesse necessidade de chamar atenção ou que remetesse a maior aceitação dentro de um grupo. Até que a quantidade delas vai crescendo a ponto que o mentiroso começa a se perder nas próprias narrativas, sem mensurar mais este alcance.

    Os mitômanos podem mentir para se beneficiar de alguma forma, mas algumas vezes pelo mau hábito em si. As histórias inventadas são contadas naturalmente, sobre assuntos triviais do cotidiano. Mas o fato ainda pode se agravar quando os temas criados são mais complexos e a repercussão disso é maior.

    Muitos o fazem para garantir atenção, mas com o tempo as pessoas ao seu redor tendem a descobrir as inverdades e se afastam, perdendo totalmente a sua credibilidade com amigos e familiares. No campo profissional isso se torna ainda mais grave.

    “Existe um universo de possibilidades quando estamos falando de um mitômano. É preciso entender essa questão compulsiva, que seria uma doença até outras que adquirem tal mania ao longo do seu desenvolvimento, de forma intencional, seja por proteção, baixa autoestima, benefício, ilusão, modelagem”, afirma Daniela.

    Uma característica comum dos mitômanos é a necessidade de ter atenção, reconhecimento e principalmente admiração. As fantasias contadas tendem a ser para elevá-los de alguma forma. Por isso, está diretamente relacionada a indivíduos com baixa autoestima. Mas há outras classificações de mitômanos.

    “Mentiras corriqueiras são mais comuns do que se imagina. Os pacientes falam que quando percebem, já mentiram. Um automatismo da mentira”, comenta a psicóloga.

    Daniela esclarece que geralmente mitômanos buscam tratamento quando são desmascarados e isso acaba ocasionando uma problemática na vida deles, com um questionamento sobre tal comportamento. Não por culpa, mas pelos estragos causados, como o afastamento de pessoas queridas, por exemplo, ou a desconstrução de uma imagem. “No tratamento, é importante entender o que o mitômano não suporta em sua própria realidade a ponto de criar uma outra”, diz.

    Como contornar o problema

    Um grande limitador para as mentiras é exatamente a interação frente a frente, olho no olho. Nesse contexto, o ambiente virtual pode favorecer a invenção de histórias. Na comunicação via telas ou textos rápidos, criamos menos vínculos e, consequentemente menos empatia, o que facilita mentir.

    Para quem mente muito, especialistas sugerem cinco dicas para abandonar este comportamento:

    • Se precisar mentir para não parecer grosseiro, evite uma resposta extremamente oposta;
    • quando crianças perguntarem sobre coisas da vida, não invente histórias fantasiosas, diga algo próximo da realidade em uma linguagem mais simples;
    • quando receber informações muito chamativas por redes sociais, desconfie e nunca repasse se não souber qual a fonte da informação;
    • não desmascare crianças diretamente ou na frente de outras pessoas, esse constrangimento é mais prejudicial do que a própria mentira imaginada;
    • quando desconfiar que alguém está mentindo para você, faça uma pergunta aleatória sobre um detalhe insignificante e, em seguida pergunte algo relacionado à história, você vai desconcentrar a pessoa e ela pode se confundir, entregando a mentira.