O que são ondas da Covid-19 e por que o Brasil pode estar diante da terceira

Especialistas divergem sobre as definições de ondas, mas concordam que elas estão ligadas ao surgimento de variantes do vírus e ao ritmo lento de vacinação

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo

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Estimativas da Universidade de Washington (EUA) indicam uma tendência de alta que aponta para três mil mortes diárias por Covid-19 no Brasil no início de junho, com um pico de 4 mil no pior dos cenários. Alguns especialistas já preveem uma terceira onda da doença no país.

Embora tenha ocorrido um recuo importante no número de mortes diárias desde abril (quando passou de 4 mil), a estabilidade permanece em um patamar muito alto (por volta dos 2 mil), o que leva alguns estudiosos da pandemia a afirmar que o país ainda nem saiu da segunda onda. Há ainda os que defendem que continuamos na primeira e outros que já vislumbram uma quarta.

As definições de início e término das ondas da Covid-19 diferem entre os estudiosos da pandemia consultados pela CNN. Apesar das diferentes concepções, todos concordam que alguns fatores podem ser decisivos para uma nova alta no número de casos e mortes pela doença no Brasil. Entenda o que são as ondas e o que ainda pode ser feito para evitá-las.

Movimentação no comércio na cidade de Santo André (SP) durante pandemia da Covid
Movimentação no comércio na cidade de Santo André (SP) durante pandemia da Covid-19
Foto: Roberto Sungi/Futura Press/Estadão Conteúdo (17.abr.2021)

Divergências no conceito de onda

O conceito físico de onda passou a ser aplicado para contextualizar o comportamento da pandemia. Segundo os especialistas, o termo não tem como embasamento critérios científicos estabelecidos no campo da epidemiologia, mas está relacionado principalmente ao aumento acentuado no número de casos.

Não há um consenso entre os estudiosos sobre a definição de início e término de cada onda. Para alguns, o crescimento do número de casos e mortes já é um indicativo de uma nova fase. O que significaria que o Brasil poderia estar numa quarta onda, por exemplo.

Para outros, uma onda só pode ser considerada encerrada com uma baixa significativa dos índices, chegando a ter apenas casos esporádicos – o que não aconteceu no Brasil até o momento. Segundo essa teoria, o Brasil ainda estaria em sua primeira e única onda.

Para o pesquisador José Eduardo Levi, da Universidade de São Paulo (USP), a explicação de onda reflete o que mostram os gráficos da evolução da Covid-19 em uma região. O surgimento de uma onda pode ser caracterizado quando uma localidade apresenta um ritmo de aumento progressivo de casos. Segundo o especialista, o movimento natural é que a escalada nos índices atinja um pico, permaneça em estabilização por um tempo – o chamado platô (quando não há aumento nem redução significativas dos números), e então comece a descer, indicando o final da onda.

“Quando observamos os gráficos da pandemia no Brasil, vemos claramente que houve uma onda entre abril e maio de 2020. Em junho, o número de casos e mortes foi caindo, fazendo esse formato de onda. Depois, houve uma segunda, muito maior, relacionada à variante P.1, que começou em dezembro e teve o pico em março. Já estamos na parte de descida dessa onda”, analisa.

No entanto, a saída dessa segunda onda deve ser lenta, pondera Levi. “Isso porque estamos diante do descumprimento total das regras de distanciamento e abandono do uso da máscara”, ressaltou.

Para o microbiologista da USP, a primeira onda foi consequência da introdução e dispersão do vírus no país. “Depois, houve uma queda devido à implementação de medidas de isolamento, e uma certa exaustão dos grupos mais suscetíveis, ou seja, quem poderia ser infectado já foi”, explica.

Ele afirma ainda que a segunda onda, da qual ainda estamos saindo, teve um impacto muito maior do que a primeira, com recordes diários de casos e mortes. Segundo Levi, a amplitude da onda está diretamente relacionada com intervenções, como a implementação das medidas de distanciamento social, que podem levar a uma redução dos números de forma mais acentuada. 

O pesquisador do Observatório Covid-19 da Fiocruz, Marcelo Gomes, prefere usar o termo “fases” e explica que, de acordo com as análises do grupo, já foram observadas pelo menos três de crescimento acentuado no número de casos no país: em março e novembro de 2020, e em janeiro de 2021.

“Os índices caíram no final de março, e agora estamos numa fase de estabilização [considerando o número de casos e mortes] que é superior aos picos do ano passado”, comenta.

O pesquisador afirma que há uma divergência entre especialistas em saúde pública e da área da epidemiologia em relação ao conceito de ondas da Covid-19. “Muitos defendem a interpretação de que, para dizer que uma onda encerrou, teriam que ser atingidos níveis significativamente baixos de casos, o que nunca houve no Brasil, por exemplo.”

Diferentemente do Brasil, países como Reino Unido, França e Austrália tiveram uma caracterização mais precisa das ondas (veja quadro abaixo). Os gráficos da pandemia nesses países mostram um crescimento intenso no número de casos, a formação do pico, e uma redução acentuada e contínua até índices significativamente baixos.

Infográfico apresenta diferenças nas ondas da Covid-19 do Brasil e Reino Unido
Foto: Foto: Arte/CNN Brasil

“No Brasil, mesmo quando olhamos os diferentes estados, conseguimos ver claramente fases de crescimento e queda. No entanto, essas quedas nunca foram suficientes para atingir níveis seguros, ou seja, realmente baixos no número de novos casos. Por isso, alguns especialistas defendem que o país está vivendo eternamente a primeira onda”, diz Marcelo.

Embora o conceito de ondas seja diferente de acordo com a linha de raciocínio de cada grupo de pesquisa, os especialistas alertam que alguns fatores são decisivos para o aumento de casos e mortes pela Covid-19, como o surgimento de novas variantes, o ritmo lento de vacinação e a flexibilização das medidas de restrição.

A emergência de uma nova variante no Brasil

Para o pesquisador da USP José Eduardo Levi, uma terceira onda da Covid-19 pode ser ocasionada pela emergência de uma nova variante no país, mais transmissível e ainda mais competente para escapar da resposta imune, como aconteceu no final de 2020, com o surgimento da P.1, em Manaus, no Amazonas. 

De acordo com o virologista, não é possível estimar com precisão a probabilidade do surgimento de uma nova variante. No entanto, ele pontua que o SARS-CoV-2 é capaz de acumular mutações de forma muito rápida que conferem vantagens ao vírus. 

“O processo de adaptação do SARS-CoV-2 é rápido. A esse fator atribuo principalmente às altas cargas virais. O novo coronavírus tem as maiores cargas virais que já observei em todos os vírus que estudei nos últimos 30 anos”, diz.

Os especialistas em virologia consideram o sequenciamento genômico do vírus uma estratégia fundamental para o monitoramento de novas variantes. A medida permite esclarecer a origem e as mutações presentes em uma amostra e, a partir disso, antecipar ações preventivas por gestores, como o fechamento de fronteiras, o controle de portos e aeroportos e a restrição da circulação de pessoas, com a definição de barreiras sanitárias.

Nesta semana, pesquisadores brasileiros divulgaram a descoberta de uma nova variante do SARS-CoV-2, chamada P.4. A cepa tem origem na linhagem B.1.1.28, assim como a P.1, identificada em Manaus, a P.2, no Rio de Janeiro, e a P.3, que circula nas Filipinas, na Ásia. 

Segundo o pesquisador da Universidade Feevale, do Rio Grande do Sul, Fernando Spilki, as análises preliminares indicam que a variante pode ter uma alta capacidade de transmissão. “Ela está se espalhando bastante em uma região geográfica onde a variante P.1 já estava bem disseminada, e isso é preocupante”, afirma. 

Segundo o especialista, quando uma variante se torna prevalente em uma região, como a P.1 no Brasil, existe um tipo de “competição” entre as linhagens, o que chama atenção para o fato de a variante P.4 conseguir se disseminar em áreas dominadas pela P.1. 

Como exemplo, o pesquisador cita que outras variantes, como as do Reino Unido (B.1.1.7) e da África do Sul (B.1.351 ou 501.V2), não foram capazes de se disseminar amplamente no país, devido à prevalência da P.1. 

A variante P.4 apresenta a mutação L452R na proteína Spike, relacionada a uma maior capacidade de transmissão, também encontrada na variante da Índia. O especialista ressalta que ainda são necessários estudos complementares para confirmar o grau de transmissibilidade da cepa e esclarecer se ela pode levar ao desenvolvimento de quadros mais graves da doença ou reduzir a eficácia das vacinas disponíveis contra a Covid-19.

Introdução de novas variantes no país

A pesquisadora e pneumologista da Fiocruz Margareth Dalcolmo explica que epidemias provocadas por vírus respiratórios de grande circulação, como o novo coronavírus, podem provocar várias ondas.

“Quanto mais alta a taxa de transmissão comunitária, maior a possibilidade do surgimento de mutações virais, de novas linhagens e novas variantes, como o que aconteceu com as quatro variantes de preocupação no mundo”, explica.

A chegada ao Brasil da variante B.1.617, originária da Índia, é motivo de atenção, de acordo com a especialista. “A preocupação é que a variante da Índia, que tem uma taxa de transmissão bastante superior àquelas hoje em circulação, possa se disseminar pelo país. As medidas tomadas pelo Ministério da Saúde estão corretas, mas podem não ser suficientes”, avalia. 

Margareth considera difícil impedir que uma variante se dissemine, principalmente devido à grande circulação de pessoas. No entanto, a pesquisadora pondera que ainda não é possível mensurar os impactos que a circulação da variante da Índia possa causar no país.

Para a pneumologista, uma das questões mais importantes a serem respondidas no momento é o impacto da variante na eficácia das vacinas desenvolvidas contra a Covid-19. 

Fernando Spilki, da Feevale, destaca que além da cepa da Índia, outra variante deve ser foco de atenção: a C.37, que tem origem na região dos Andes, no Peru e Chile, e que também circula na Argentina.

Segundo o pesquisador, um grupo de trabalho pretende realizar o mapeamento da variante nas próximas semanas, a partir do sequenciamento de amostras de pacientes que vivem nas regiões de fronteira entre o Brasil e a Argentina.

Ritmo lento da vacinação

O ritmo lento da imunização no país também é um fator que pode facilitar o surgimento de uma nova onda de casos, segundo o pesquisador da Universidade Feevale. 

A vacinação rápida contém a transmissão do vírus e, com isso, reduz também a disseminação de variantes. “Uma população parcialmente vacinada abre brechas para possíveis mutações no vírus, que favorecem novas infecções”, comenta Spilki.

Ele ressalta também a importância das medidas de restrição. “Não tendo vacinação em larga escala, é preciso tomar mais cuidado com as medidas de flexibilização. O distanciamento social seguramente controla o surgimento de novos casos. Estamos errando em duas frentes”.

O Brasil é o 64º no ranking global de aplicação de doses da vacina contra Covid-19, na relação a cada 100 habitantes. O país, que iniciou a vacinação no dia 17 de janeiro, já esteve na 56ª posição desse ranking, ocupou a 61ª posição e, nos últimos dias, estava em 63º.

Flexibilização das medidas de restrição

As análises mais recentes do Observatório Covid-19 Fiocruz indicam que ao menos oito estados apresentam um sinal claro de retomada de crescimento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) que, em grande parte, resultam de infecções pelo novo coronavírus. O índice é usado pelo grupo de trabalho como medida para o monitoramento da pandemia no país.

Os dados, que consideram o período de 9 a 15 de maio, apontam a situação de atenção no Amazonas, no Maranhão, no Mato Grosso do Sul, na Paraíba, no Paraná, no Rio de Janeiro, no Tocantins e no Distrito Federal. Segundo o boletim, outros estados apresentam indícios de interrupção da tendência de baixa nos casos de SRAG: Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo.

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