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    OMS estuda mudar nomenclatura da varíola dos macacos; entenda o motivo

    Avaliação tem como motivo evitar que haja estigma e preconceito contra os indivíduos infectados, além de situações de maus tratos contra os animais

    Lucas Rochada CNN

    em São Paulo

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) estuda renomear a doença conhecida como “varíola dos macacos” – ou monkeypox, em inglês. A avaliação tem como motivo evitar que haja estigma e preconceito contra os indivíduos infectados além de situações de maus tratos contra os animais.

    O nome da doença tem origem na descoberta inicial do vírus em macacos em um laboratório dinamarquês em 1958. No entanto, segundo a OMS, a principal forma de contágio no surto atual, que atinge múltiplos países, é pelo contato entre pessoas.

    Cientistas defendem que mudanças na nomenclatura da doença podem evitar equívocos sobre a forma de transmissão e medidas de prevenção contra a infecção.

    Em entrevista à imprensa nesta terça-feira (9), a epidemiologista da OMS Margaret Harris afirmou que a preocupação neste momento deve ser o controle da transmissão da doença entre pessoas.

    “A transmissão que estamos vendo agora no grande surto de monkeypox é de pessoa para pessoa. O vírus está presente em alguns animais e observamos salto para humanos, mas não é o que estamos vendo agora. O risco de transmissão é de outro ser humano”, disse.

    A especialista afirma que a transmissão pode ser interrompida a partir do diagnóstico oportuno e medidas de prevenção.

    “A maneira que a transmissão pode ser interrompida é se as pessoas reconhecerem que têm os sintomas busquem ajuda, recebam atendimento médico e tome precauções para evitar a transmissão”, afirmou.

    Segundo Margaret, a estigmatização de pessoas infectadas ou a relação equivocada da participação de animais na transmissão da doença pode prejudicar o controle do surto.

    “O mais importante é: qualquer estigmatização, de qualquer pessoa infectada, irá aumentar a transmissão por que se as pessoas estiverem com medo de se identificar como infectadas, elas não irão procurar ajuda, não vão tomar precauções e veremos mais transmissão. Não estigmatize nenhum animal ou nenhuma pessoa, por que se você fizer isso, teremos um surto muito maior”, alertou.

    O anúncio da avaliação de novo nome para a doença foi feito em junho, pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom.

    “A OMS também está trabalhando com parceiros e especialistas de todo o mundo para mudar o nome do vírus da varíola dos macacos, seus clados e da doença que causa. Faremos anúncios sobre os novos nomes o mais rápido possível”, afirmou Adhanom à imprensa no dia 14 de junho.

    Até o momento ainda não foi emitido um comunicado oficial sobre a mudança pela OMS. De acordo com a epidemiologista da OMS, a avaliação das mudanças está em andamento, “é um grande trabalho e teremos anúncios em breve”.

    Apoio da comunidade científica

    Cerca de 30 pesquisadores de diversos países publicaram uma carta à comunidade científica global com um pedido urgente de alteração do nome do vírus causador da doença.

    “Embora a origem do novo surto global de MPXV ainda seja desconhecida, há evidências crescentes de que o cenário mais provável é que a transmissão humana entre continentes esteja em andamento por mais tempo do que se pensava anteriormente”, afirma o conjunto de especialistas, que inclui o virologista brasileiro Tulio de Oliveira.

    Na descrição da doença, a OMS afirma que existem dois grupos (clados) de vírus da varíola dos macacos: o da África Ocidental e o da Bacia do Congo (África Central).

    O grupo de especialistas afirma que a narrativa contribui para vincular o atual surto que atinge múltiplos países à África.

    “No contexto do atual surto global, a referência contínua e a nomenclatura deste vírus sendo africano não é apenas imprecisa, mas também discriminatória e estigmatizante”, afirmam os cientistas.

    Como alternativa, os cientistas propõem a classificação de três clados principais do vírus: os clados 1, 2 e 3, nomeados por ordem de detecção, incluindo os genomas virais da África Ocidental, África Central e eventos associados ao surto atual em diferentes países.

    No final de julho, o governo do estado de Nova York e a prefeitura da cidade declararam estado de emergência em saúde pública devido à doença. No dia 4 de agosto, os Estados Unidos também declararam emergência em saúde pelo surto do vírus.

    O Departamento de Saúde e Higiene Mental de Nova York enviou um ofício ao diretor-geral da OMS com pedido de mudança no nome da doença. O documento, assinado pelo comissário do departamento Ashwin Vasan, afirma que o termo “Monkeypox” pode contribuir para o estigma e a discriminação de comunidades de “pessoas de cor”.

    “NYC se junta a muitos especialistas em saúde pública e líderes comunitários que expressaram sua séria preocupação em continuar a usar exclusivamente o termo “monkeypox” devido ao estigma que pode gerar e à história dolorosa e racista na qual terminologia como essa está enraizada para comunidades de cor. ‘Monkeypox’ é um nome impróprio, pois o vírus não se origina em macacos e só foi classificado como tal devido a uma infecção observada em primatas de pesquisa”, diz o ofício.

    Como alternativa, o documento recomenda a adoção de linguagens neutras como “hMPXV” ou “MPV”. “Precisamos de liderança da OMS para garantir consistência na nomenclatura e para reduzir a confusão para o público”, diz o texto.

    Mudança poderá contribuir para evitar equívocos

    Cientistas da área defendem que a doença seja nomeada no Brasil exclusivamente como “monkeypox” (mesmo nome do vírus), uma vez que o surto atual não tem relação com primatas.

    “Precisamos parar de nomear a varíola dos macacos dessa maneira, por que ela leva a um erro de correlação com os símios, com os macacos, e já foi nomeada como Monkeypox pela Organização Mundial da Saúde e pode sofrer nas próximas semanas uma atualização”, diz o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Nésio Fernandes.

    Na semana passada, quatro saguis-de-tufos-pretos e um filhote de macaco-prego foram mortos na cidade de São José do Rio Preto, em São Paulo, com sinais de intoxicação. Os ataques acontecem em meio ao aumento de casos de varíola dos macacos no estado de São Paulo e em todo o Brasil.

    “O nome monkeypox também é utilizado na Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Todo esse movimento tem o intuito de se evitar desvio dos focos de vigilância e má ações contra os animais”, explica Maria de Lourdes Oliveira, vice-diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

    Macacos não são um risco no surto atual

    No surto atual da doença, que atinge múltiplos países a transmissão acontece principalmente de uma pessoa para outra por contato próximo com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama e de banho.

    O vírus da varíola dos macacos é transmitido de uma pessoa para outra por contato próximo com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama. O período de incubação é geralmente de 6 a 13 dias, mas pode variar de 5 a 21 dias.

    “A principal forma de proteção é evitar contato direto com pessoas infectadas. Lembrando que a principal forma de transmissão ocorre através do contato pele a pele, pessoal, ou obviamente através do contato com objetos pessoais de um paciente que está infectado com a varíola dos macacos”, afirma Arnaldo Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

    Na forma mais comum documentada da doença, os sintomas podem surgir a partir do sétimo dia com uma febre súbita e intensa. São comuns sinais como dor de cabeça, náusea, exaustão, cansaço e principalmente o aparecimento de inchaço de gânglios, que pode acontecer tanto no pescoço e na região axilar como na parte genital.

    Já a manifestação na pele ocorre entre um e três dias após os sintomas iniciais. Os sinais passam por diferentes estágios: mácula (pequenas manchas), pápula (feridas pequenas semelhantes a espinhas), vesícula (pequenas bolhas), pústula (bolha com a presença de pus) e crosta (que são as cascas de cicatrização).