Pacientes com TOC levam quase 7 anos para buscar ajuda; psiquiatra explica

Estudo revela que a vergonha de expor sintomas e o estigma são barreiras significativas para o tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo

Fernanda Palhares, colaboração para a CNN Brasil, em São Paulo
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O TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) pode levar quase sete anos entre o início dos sintomas e a busca por ajuda. Segundo a psiquiatra Raíza Alves Pereira, alguns dos sintomas que mais provocam sofrimento são justamente aqueles que os pacientes têm maior vergonha de revelar.

O TOC é mais frequente em mulheres e costuma surgir no fim da adolescência ou no início da vida adulta, embora possa começar em outras fases da vida. Entre os fatores de risco está o histórico familiar. Estimativas apontam que cerca de 40% da variação na expressão do transtorno pode estar relacionada a fatores hereditários.

De acordo com Raíza, o paciente pode interpretar o conteúdo desses pensamentos como uma informação sobre seu próprio caráter.

"A maioria dos pacientes reconhece que seus pensamentos são excessivos e incongruentes com o que acreditam. Muitos passam a interpretá-los como evidência de um defeito moral, como se um pensamento tivesse o mesmo peso que uma ação", afirma a psiquiatra.

Embora o TOC seja frequentemente associado à limpeza excessiva e à organização, o transtorno pode se manifestar de diferentes formas. Uma meta-análise internacional publicada em 2025 no Journal of Affective Disorders ajuda a dimensionar o tempo que muitas pessoas permanecem sem tratamento.

O trabalho, que reuniu dados de 31 estudos, com 5.960 pacientes, concluiu que as pessoas com TOC levam, em média, 6,97 anos entre o início do transtorno e a busca por ajuda. O período médio de doença sem tratamento foi de 6,69 anos.

Entre as principais barreiras à busca por tratamento foram identificados o desconhecimento sobre o transtorno, o estigma, o medo, a negação, a desconfiança em relação aos profissionais de saúde e as dúvidas sobre a eficácia do tratamento.

"É frequente que o conteúdo das obsessões envolva justamente aquilo que a pessoa mais valoriza", explica a médica.

Tratamento

Apesar do impacto que pode causar, o TOC tem tratamento. A Terapia Cognitivo-Comportamental, especialmente a abordagem com Exposição e Prevenção de Resposta, está entre as principais opções terapêuticas.

Nesse tipo de tratamento, o paciente aprende, de forma gradual e orientada por um profissional, a enfrentar situações que despertam obsessões sem recorrer aos comportamentos compulsivos utilizados habitualmente.

"Entender que pensar em algo não é o mesmo que desejar ou agir, e que esses pensamentos são manifestações de um transtorno, não reflexos do caráter, pode transformar a maneira como os pacientes se relacionam com seus sintomas. Em uma doença na qual parte do sofrimento permanece escondida justamente por medo do julgamento, reconhecer o sintoma pode ser o primeiro passo para procurar ajuda”, afirma Raíza.