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    Pesquisadores estudam novo tratamento contra Covid com estímulos elétricos

    Equipe de pesquisadores de Harvard e da Uninove usam eletroestimulação na tentativa de combater inflamações causadas pela Covid-19

    Atendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de Covid-19
    Atendimento médico em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes de Covid-19 Foto: Mister Shadow/Estadão Conteúdo

    Camila Neumamda CNN

    em São Paulo

    Um estudo piloto está pesquisando os efeitos de estímulos elétricos no sistema imunológico de pacientes com Covid-19 grave internados em um hospital de São Paulo. Através de eletrodos, os pacientes recebem correntes elétricas de baixa intensidade, que atingem o sistema nervoso central e levam a corrente para os órgãos doentes, em um método denominado neuromodulação, conhecido por combater inflamações no sistema imunológico.

    O método que está sendo estudado por pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, em parceria com a Universidade Uninove, de São Paulo, começa a ser testado em pacientes com Covid-19 grave na tentativa de surtir algum efeito positivo na imunidade fragilizada pela doença e por possíveis comorbidades, explica Felipe Fregni, professor de Medicina Física e Reabilitação da Harvard Medical School, que participa do estudo. O especialista abordou o estudo piloto na 2.ª Digital Journey by Hospitalar e, depois, conversou com a CNN.

    “Na Covid-19, não é o vírus em si que vai levar ao quadro grave, mas a resposta imunológica de forma exagerada. Se você tem uma resposta imune anormal, excessiva, é possível modular isso através da estimulação elétrica”, afirmou Fregni.

    Isso porque, no geral, pacientes com Covid-19 que precisam de internação já sofrem com comorbidades que afetam seu sistema imunológico ou têm a imunidade prejudicada por causa da doença.

    Estímulos chegam aos órgãos doentes

    O estudo piloto testou a eletroestimulação em 20 pacientes internados no Hospital Professora Lydia Storópoli, aberto em abril deste ano em São Paulo exclusivamente para tratar pacientes com Covid-19.

    Em cada um dos pacientes foi acoplado um eletrodo na região do tragus, área próxima da orelha (veja ilustração abaixo) onde é possível acessar o nervo vago – um dos maiores do corpo, por acessar cérebro, coração, pulmão, estômago, intestino e baço – que foi estimulado de forma profunda, mas não invasiva. Outro eletrodo foi colocado na região da clavícula.

    Ilustração região do tragus
    Eletrodo é colocado na região do tragus, próximo à orelha do paciente / Designer educacional EAD da Universidade Nove de Julho

    Em dez pacientes, o aparelho despejou a carga elétrica, em outros dez, permaneceu desligado, em uma espécie de efeito placebo.

    Na eletroestimulação, a corrente elétrica acessa os órgãos doentes com função anti-inflamatória, ou seja, aos poucos, ela ajuda a diminuir a inflamação sistêmica e a reequilibrar o sistema imunológico, descreve a fisioterapeuta Fernanda Ishida Corrêa, especialista em neurologia e professora do programa de doutorado e mestrado da Universidade Uninove, uma das autoras do estudo.

    “Estudos mostram que, quando o nervo vago é estimulado, as substâncias inflamatórias no intestino, entre outros órgãos, diminuem, assim como em casos de sepse. Na Covid-19, este é o primeiro estudo, pelo que temos sabido”, diz Corrêa.

    Segundo a fisioterapeuta, a tentativa em pacientes com Covid-19 foi um caminho natural, já que “se sabe da possibilidade de atuar com neuromodulação em casos de inflamação, e esse é um dos principais quadros dos pacientes com Covid-19 grave”.

    As estimulações elétricas aconteceram duas vezes ao dia, por 90 minutos cada uma, durante sete dias. Depois de 7 e 14 dias dos testes, os pesquisadores fizeram exames de sangue nos pacientes para avaliar se houve redução dos marcadores anti-inflamatórios, ou seja, se o grau de inflamação no organismo havia diminuído.

    Exames de PCR, que detectam a presença do coronavírus, também foram refeitos, e agora a equipe estuda os dados para avaliar como os pacientes responderam ao tratamento. Segundo os pesquisadores, ainda não se sabe se haverá efeitos benéficos ao sistema imunológico dos pacientes. Antes do estudo piloto, os pacientes assinaram um termo de consentimento, e o comitê de ética do hospital deu o aval.

    “Optamos pela neuroestimulação porque ela não tem efeitos colaterais e é indolor, por isso não causaria nenhum tipo de prejuízo aos pacientes. Outro ponto favorável é que é uma tecnologia barata e de fácil acesso, bastando levar o aparelho e usar eletrodos descartáveis”, ressaltou a fisioterapeuta.

    Próximos passos

    Além da busca por uma terapia que reforce o sistema imunológico dos pacientes com Covid-19, o estudo pode trazer evidências de como usar a neuroestimulação para reforçar a imunidade de portadores de outras doenças, sugere Fregni.

    O grande desafio até o momento, segundo o pesquisador de Harvard, é descobrir qual a carga correta para cada paciente, como o estímulo reage em diferentes níveis de inflamação e em pessoas de gênero, raça e idades diferentes.

    “Sabemos que tem uma porta do sistema nervoso para o sistema imune, mas temos que encontrar a chave. Se no futuro, conseguirmos achar essa chave para estimular o sistema nervoso central, e assim conseguir manter o sistema imune mais regulado, seria superinteressante”, concluiu.

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