Pesquisadores identificam novo alvo para o tratamento da sepse

Cientistas sugerem inibir a ação de uma proteína chamada gasdermina D, a partir de um medicamento indicado para combater a dependência de álcool

Sepse provoca uma resposta inflamatória de forma generalizada, que pode comprometer o funcionamento de vários órgãos
Sepse provoca uma resposta inflamatória de forma generalizada, que pode comprometer o funcionamento de vários órgãos Breno Esaki/Agência Saúde DF

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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A sepse é definida como um conjunto de manifestações graves em todo o organismo produzidas por uma infecção. Embora a infecção possa estar localizada em apenas um órgão, nesses casos ela provoca uma resposta inflamatória de forma generalizada, que pode comprometer o funcionamento de vários órgãos.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram uma nova estratégia para prevenir as complicações associadas à sepse. Em um estudo, publicado no periódico científico Blood, os cientistas sugerem inibir a ação de uma proteína chamada gasdermina D, a partir de um medicamento já aprovado para uso em humanos, o dissulfiram, indicado para combater a dependência de álcool.

“Já sabemos que a droga é segura, pois está em uso desde os anos 1950, e estamos propondo seu reposicionamento para o tratamento da sepse. Vimos que funciona nos testes in vitro e em animais. Agora é necessário um ensaio clínico para avaliar sua eficácia em pacientes sépticos”, afirmou a pós-doutoranda Camila Meirelles Silva, do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) sediado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, em um comunicado.

As lesões nos tecidos provocadas pela sepse estão associadas a um mecanismo imune conhecido como “rede extracelular liberada por neutrófilos” (NET, na sigla em inglês). A estratégia de defesa do organismo humano é utilizada principalmente pelos neutrófilos, conhecidos popularmente como glóbulos brancos, que são capazes de destruir bactérias, fungos e vírus.

“Mostramos que, ao impedir os neutrófilos de liberar essas redes, pela inibição da gasdermina D, conseguimos reduzir o nível de lesão tecidual e melhorar o prognóstico”, explicou Camila.

Como foram feitos os testes

Em laboratório, os pesquisadores isolaram leucócitos de pacientes com sepse internados há 24 horas, sendo 12 homens e 12 mulheres. As análises mostraram a liberação do mecanismo associado às lesões por grande parte dos glóbulos brancos.

Os testes também indicaram que nos neutrófilos dos pacientes havia uma grande quantidade de gasdermina D na forma ativa. Em outro experimento, os neutrófilos isolados foram incubados com o medicamento dissulfiram. Nessa etapa, os pesquisadores observaram que o tratamento inibiu o processo de liberação das redes neutrofílicas, responsáveis pelos danos aos tecidos.

Em outros experimentos, realizados com camundongos submetidos a um procedimento para induzir um quadro de sepse, os pesquisadores verificaram que parte dos animais expressava normalmente a gasdermina D.

Um segundo grupo era formado de roedores geneticamente modificados para não produzir essa proteína em nenhuma célula do corpo. Quando esse grupo foi induzido à sepse, foi observado que os animais produziam uma quantidade menor do mecanismo imune relacionado aos danos nos tecidos e, por consequência, tiveram as lesões ao organismo reduzidas.

Como método de comparação, os camundongos com sepse foram divididos em dois grupos – metade recebeu o tratamento com dissulfiram, enquanto o outro grupo não recebeu o medicamento. Os animais que receberam o fármaco tiveram menos lesão tecidual, menor quantidade de redes neutrofílicas no sangue e melhora no prognóstico. Enquanto 60% sobreviveram, o percentual de animais vivos no grupo sem tratamento foi de 20%.

Outros estudos científicos já indicavam que o medicamento dissulfiram tem a capacidade de se ligar à gasdermina D e impedir que a proteína forme poros nas membranas das células. Com base nessas evidências, os cientistas da USP decidiram testar o efeito da droga no contexto da sepse – doença para a qual ainda não existe um medicamento específico.

(Com informações da Agência Fapesp)

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