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    Própolis melhora imunidade e ameniza inflamação em pessoas com HIV, diz estudo

    Pesquisadores avaliam benefícios do composto na proteção do sistema imunológico afetado pela infecção

    Própolis é uma resina utilizada na entrada das colmeias pelas abelhas. Sua ação antimicrobiana é testada para diversos fins terapêuticos
    Própolis é uma resina utilizada na entrada das colmeias pelas abelhas. Sua ação antimicrobiana é testada para diversos fins terapêuticos Benyamin Bohlouli/Unsplash

    Ricardo Munizda Agência Fapesp

    O consumo de 500 miligramas diários de própolis por pessoas que vivem com HIV pode trazer benefícios para a saúde. É o que aponta um artigo publicado na revista Biomedicine & Pharmacotherapy.

    Em uma análise comparativa, os autores identificaram que, diferentemente do grupo que recebeu placebo – uma substância sem efeito ao organismo, aquele que recebeu própolis apresentou uma redução significativa na concentração plasmática de malondialdeído, um marcador de estresse oxidativo. Houve, nesse mesmo grupo, ligeiro aumento na capacidade antioxidante total, o que reflete o combate direto aos radicais livres.

    “Apesar de as pessoas que vivem com o HIV apresentarem excelente expectativa de vida com as atuais terapias, um dos problemas ainda enfrentados é a questão do envelhecimento precoce – de aproximadamente dez a 20 anos, em comparação à população não infectada. Há uma deterioração da imunidade [imunossenescência] acelerada nessa população e o desenvolvimento precoce de comorbidades como diabetes, hipertensão e neoplasias”, aponta a bióloga Karen Ingrid Tasca, que desenvolveu seu pós-doutorado no Instituto de Biociências de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

    Esse processo de envelhecimento precoce é decorrente da constante ativação do sistema imunológico e da inflamação crônica apresentadas por esses pacientes e, segundo Karen, o estresse oxidativo “anda de mãos dadas” com essas duas vias, por isso é importante que seja controlado.

    “O estresse oxidativo causado pelo vírus e pelos próprios antirretrovirais possui grande impacto nesses pacientes. Na tentativa de reduzir esses processos patológicos e melhorar a qualidade de vida e a sobrevida, há necessidade de intervenções que minimizem esses efeitos. Entre os diversos produtos naturais existentes, a própolis, que é uma resina, possui esse potencial, pois apresenta propriedades antioxidante, antiviral e anti-inflamatória reconhecidas”, explica a pesquisadora.

    Líder do grupo que publicou o artigo, o biólogo e professor José Maurício Sforcin estuda os efeitos da própolis há quase 30 anos no Instituto de Biociências de Botucatu.

    “Tenho investigado a ação imunomoduladora da própolis para ampliar o conhecimento sobre seus mecanismos de ação em células envolvidas na imunidade. Muitos trabalhos já foram realizados sobre as ações biológicas desse produto in vitro, em cultura de células, bem como in vivo, em modelos com animais de experimentação, principalmente camundongos. As pesquisas com ensaios clínicos precisam se expandir e revelar o potencial desse produto apícola para a saúde”, destaca Sforcin.

    Apesar dos indícios de benefícios para a saúde, os estudos sobre própolis não abrangiam a população de pessoas vivendo com HIV.

    “Havia achados in vitro que mostravam o potencial de inibição da carga de replicação do vírus por alguns componentes contidos na própolis. E também estudos em pessoas que apresentavam alguma condição crônica, como diabetes, então percebemos a urgência da nossa pesquisa, pois no momento em que delineamos nosso estudo não havia na literatura dados sobre os efeitos da própolis para esse grupo específico”, pondera Karen.

    Inflamação

    Além da atenuação no estresse oxidativo, os pesquisadores já haviam demonstrado diminuição de parâmetros inflamatórios nesse mesmo grupo de pacientes.

    A publicação, também feita na Biomedicine & Pharmacotherapy, evidenciou o aumento na proliferação de linfócitos T CD4+, células que são consideradas alvo principal do vírus. Houve, ainda, maior expressão do fator de transcrição Foxp3, um marcador de células “T regulatórias” (outro tipo de linfócito), responsáveis por modular a inflamação.

    “Os resultados indicam que a própolis pode ser uma alternativa para melhorar a resposta imune e reduzir a inflamação nos pacientes assintomáticos. A infecção pelo HIV induz intensa desregulação do sistema imunológico, gerando perda da função celular e inflamação crônica. As persistentes ativação imune e inflamação merecem atenção, pois são fatores potencialmente determinantes de morbidade e mortalidade não associadas à Aids, mesmo nos indivíduos sob tratamento e que apresentam supressão viral adequada”, diz uma das autoras do estudo, a biomédica Fernanda Lopes Conte, cujo doutorado na Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu, foi realizado com apoio da Fapesp.

    Para garantir a fidelidade dos dados obtidos, o grupo acompanhou a dieta e os hábitos de saúde dos 40 participantes (20 que receberam própolis e 20 que receberam placebo) durante os 90 dias da intervenção, para que possíveis mudanças comportamentais não influenciassem os resultados.

    Esse contexto foi estudado por Ana Claudia de Moura Moreira Alves com auxílio de uma bolsa de iniciação científica. Nessa pesquisa, os autores observaram a ausência de eventos adversos no grupo que recebeu a própolis e o aumento nos níveis séricos de magnésio, um elemento que contribui com a homeostase do organismo. Durante o período, não houve mudanças no perfil nutricional, metabólico ou bioquímico dos participantes, após análises sucessivas de registro alimentar e bioimpedância.

    Priorizando a saúde e segurança dos participantes, foram incluídos no estudo apenas aqueles que estavam sob terapia antirretroviral, apresentavam carga viral indetectável e contagem ideal de células imunológicas do tipo T CD4+. Agora, os pesquisadores destacam que novas pesquisas são necessárias para a adoção da própolis como intervenção efetiva também para pacientes com comorbidades ou falha terapêutica.