Próxima pandemia pode ser evitada, afirma ex-diretor do CDC

Na avaliação do médico, surtos como o atual podem ser impedidos com investimentos sustentados, sistemas de saúde aprimorados e liderança apurada

Coveiro com traje de proteção no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, durante pandemia da Covid-19
Coveiro com traje de proteção no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, durante pandemia da Covid-19 Foto: Vincent Bosson/Fotoarena/Estadão Conteúdo (6.abr.2021)

*Tom Frieden, da CNN

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Enquanto o mundo enfrenta o segundo ano da pandemia de Covid-19, uma constatação surge: a situação poderia ser menos ruim. A prevenção pode prevenir epidemias.

A Covid começou como um surto único e potencialmente controlável antes de se espalhar rapidamente pelo mundo e mudar a vida como a conhecemos. Todos os anos, ocorrem muitos quase-acidentes, surtos que são controlados antes de se tornarem epidemias.

Muito parecido com o “curioso incidente” do cachorro que não latiu durante a noite no livro Silver Blaze, de Sherlock Holmes, essas epidemias que não acontecem raramente chegam ao noticiário.  A organização que presido, Resolve to Save Lives, uma iniciativa da Vital Strategies, acaba de publicar um novo relatório interativo online destacando as “epidemias que não aconteceram”. 

Esses exemplos demonstram como a priorização e o investimento na prevenção, seguidos de uma ação rápida e estratégica, foram capazes de alterar a trajetória de vários surtos recentes para evitar que se transformassem em epidemias.

Enquanto eu era diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a epidemia de Ebola na África Ocidental devastou a Guiné, a Libéria e a Serra Leoa. Apesar de toda a região estar em alerta máximo, em 20 de julho de 2014, um homem infectado com o Ebola pousou em Lagos, na Nigéria, a cidade mais populosa da África e um centro de viagens e comércio para o continente. Em poucos dias, o paciente inicial morreu, as infecções começaram a se espalhar e quase mil contatos foram expostos ao vírus.

Exemplo da África

A propagação explosiva do Ebola em Lagos poderia ter devastado a Nigéria e possivelmente se espalhado por toda a África e continuado por meses ou anos. E, no entanto, depois de um total de apenas 20 casos e, infelizmente, oito mortes no país, a Nigéria estava livre do Ebola em 2 de outubro.

Uma resposta hercúlea de saúde pública que incorporou comunicação direta, atividades de resposta coordenadas, rastreamento intensivo de contato, controle de infecção eficaz, e uma liderança dedicada que impediram a propagação do vírus. 

Visitei Uganda durante um dos surtos detalhados neste relatório, quando aquele país impediu que a epidemia de Ebola de 2018 na República Democrática do Congo se expandisse além da fronteira. 

Assim que o surto original foi declarado no Congo, Uganda ativou seus sistemas nacionais de prevenção e resposta a emergências. O país rapidamente treinou equipes de saúde para detectar e tratar o Ebola, abriu vários Centros de Tratamento e estabeleceu laboratórios de testes rápidos perto da fronteira, onde todas as pessoas que entravam no país foram examinadas quanto aos sintomas.

Quando um menino de 5 anos infectado com Ebola voltou com sua família do Congo para a Uganda em junho de 2019, eles foram rapidamente identificados em um ponto de triagem de rotina na fronteira, testados e colocados em um Centro de Tratamento, uma vez confirmados como positivos. A rápida ativação dos sistemas de resposta a emergências de saúde de Uganda evitou mais infecções, e o país evitou uma epidemia.

Como prevenir pandemias

Cada um dos outros estudos de caso destacados no relatório ilustra um componente-chave para a prevenção bem-sucedida de epidemias. Em cada país, a rápida identificação de um surto – ou mesmo do risco de um surto – foi seguida por ações adequadas para deter a ameaça.

Elementos específicos como vigilância de doenças, capacidade laboratorial ou comunicação de risco diferiam na importância de cada caso; o elemento unificador foi a ação rápida de especialistas em saúde pública e autoridades governamentais para implementar medidas de resposta eficazes.

A história da Covid foi, em grande parte, uma história de fracasso – ou pelo menos inação e ação inadequada – particularmente em muitos países teoricamente bem preparados, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido e alguns da União Europeia. 

Mesmo quando os governos se comprometeram com a ação com base em evidências científicas, medidas como uso obrigatório de máscaras, distanciamento físico e apoio econômico para as populações afetadas não foram implementadas rápida ou extensivamente em muitos países, e muitas vezes foram relaxadas muito cedo. Fundamentalmente, os países precisam ter sistemas de saúde pública fortes e governança responsável.

Países como Vietnã, Mongólia e Senegal, bem como muitos outros em toda a África, montaram respostas eficazes que reforçam e atuam com base nas lições extraídas de surtos anteriores. Muitos países na Ásia, especialmente aqueles duramente atingidos pelo surto de Sars em 2003, como Taiwan, Cingapura e a região de Hong Kong, na China, também tomaram medidas rápidas e eficazes contra a Covid antes mesmo de ela atingir suas fronteiras. 

Brasil entre os maus exemplos

Em contraste, o Brasil não aplicou seus conhecimentos de controle da febre amarela para combater o coronavírus. A detecção rápida, o envolvimento efetivo da comunidade, uma resposta organizada e baseada na ciência, e a comunicação precisa e empática são ferramentas eficazes que ajudam em qualquer resposta.

O que esses países fizeram certo – e o que outros países podem aprender para o futuro – é que a trajetória de um surto pode ser alterada, e perdas humanas e econômicas evitadas com investimentos modestos, mas sustentados, sistemas de saúde aprimorados e liderança apurada.

Esses estudos de caso demonstram que é possível prevenir epidemias. Podemos aprender com a Covid e outros surtos para garantir que não seremos pegos desprevenidos na próxima vez. O aumento do investimento global com financiamento sustentável, sistemas nacionais e subnacionais mais fortes e uma resposta global coordenada são essenciais para interromper o ciclo de pânico e negligência. 

Boa governança e resposta rápida, estratégica e prevenção são essenciais. Ao responder a um surto de doença, o tempo é a vida. Podemos priorizar sistemas de alerta e resposta antecipadas, adotando a meta “7-1-7” pela qual cada país deve ser capaz de: identificar qualquer surto suspeito dentro de sete dias após a emergência; relatar e começar a investigação e resposta dentro de um dia; e montar uma resposta eficaz – definida por referências objetivas – em sete dias.

Uma resposta eficaz à epidemia pode salvar literalmente milhões de vidas e trilhões de dólares. Os estudos de caso descritos no relatório são um apelo aos líderes globais para aumentar os investimentos, melhorar os sistemas de saúde e fortalecer a confiança e o envolvimento da comunidade. Podemos pagar pela segurança da saúde – mas não podemos pagar outra pandemia devastadora

Esta não será a última pandemia que enfrentaremos. Se investirmos na prevenção, podemos garantir que a história da Covid não se repita na próxima vez que surgir uma ameaça de doença infecciosa.

Este é o nosso momento, agora ou nunca, de investir na saúde pública, para prevenir a próxima pandemia e garantir que o mundo nunca mais fique tão despreparado. Epidemias não precisam acontecer.

A disseminação descontrolada de doenças em qualquer lugar é uma ameaça à saúde em todos os lugares. A Covid reforçou a necessidade de trabalharmos juntos nos níveis global, regional e local para prevenir e responder às emergências de saúde. Se o mundo tivesse sido preparado para conter e responder à Covid, milhões de vidas poderiam ter sido salvas.

O relatório que divulgamos descreve epidemias que não aconteceram. Mas a triste verdade é que pandemias ainda mais mortíferas que a atual podem acontecer em qualquer momento no futuro. 

O fracasso é uma opção, mas o sucesso é possível. Devemos trabalhar juntos e investir o capital financeiro e político, apoiados por conhecimentos técnicos e instituições globais, regionais e nacionais eficazes, para garantir que nunca mais seremos pegos tão despreparados.

*Tom Frieden foi diretor do Centro para Controle e Prevenção de Doenças durante o governo Obama, supervisionou as respostas às epidemias de influenza H1N1, Ebola e Zika. Atualmente, é presidente e CEO da Resolve to Save Lives, uma iniciativa da Vital Strategies e Membro Sênior de Saúde Global no Conselho de Relações Exteriores. Twitter: @DrTomFrieden.

( Texto traduzido. Leia o Leia mais

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