Saiba quais os status das produções de vacinas brasileiras contra a Covid-19

Butanvac, Versamune estão entre as iniciativas brasileiras mais avançadas de candidatas a vacinas contra a Covid-19

UFRJVac é um dos projetos brasileiros de vacina contra a Covid-19
UFRJVac é um dos projetos brasileiros de vacina contra a Covid-19 Coppe/UFRJ

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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Quando o assunto é o enfrentamento à Covid-19, especialistas de diversas áreas, como infectologia, imunologia e virologia são enfáticos ao dizer que quanto mais vacinas estiverem disponíveis, melhores serão os resultados no combate ao novo coronavírus.

O Brasil conta com diversas pesquisas que buscam o desenvolvimento de vacinas nacionais contra a doença. A produção dos imunizantes no país pode facilitar a logística, reduzir os custos e ampliar o suprimento de vacinas para os brasileiros. Desde o início da pandemia, em março de 2020, grupos de pesquisa de universidades e institutos públicos se desdobram para atingir esse objetivo. Segundo os especialistas, o investimento na ciência nacional é fundamental para o avanço dos projetos.

O caminho para a criação de uma vacina é longo e deve passar por etapas que envolvem a avaliação de segurança, eficácia e capacidade de proteção. Saiba mais sobre o andamento das iniciativas brasileiras mais avançadas de candidatas a vacinas contra a Covid-19.

Vacina da UFRJ: testes em humanos devem começar em novembro

A vacina em desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) utiliza como ingrediente farmacêutico ativo (IFA) uma cópia da proteína S (Spike), presente na estrutura externa do coronavírus. A proteína Spike é uma das responsáveis pela ligação do vírus às células humanas, permitindo a entrada e a multiplicação do SARS-CoV-2 no organismo.

Os pesquisadores da UFRJ modificaram geneticamente células em laboratório, que passaram a produzir a proteína Spike. As células são utilizadas como base para o desenvolvimento da tecnologia de produção e purificação da primeira versão do IFA. Desde março, os pesquisadores realizam o processo de desenvolvimento novamente para contemplar as diversas variantes do coronavírus, como a linhagem Delta, altamente contagiosa.

Vacina da UFRJ contra a Covid-19
Pesquisadores do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares estão produzindo o IFA que será utilizado na UFRJvac / Coppe/UFRJ

Os estudos pré-clínicos, que envolvem testes com animais, já foram concluídos. Os pesquisadores da UFRJ testaram duas versões do IFA, com o vírus original e da variante Gama (P.1, originária de Manaus). Segundo a professora Leda Castilho, coordenadora do estudo, os ensaios pré-clínicos mostraram uma grande capacidade da vacina de induzir a formação de anticorpos.

“Quando comparamos os níveis de anticorpos neutralizantes obtidos nos animais, estes foram superiores aos níveis encontrados em 90% dos soros de 20 indivíduos que tiveram Covid-19 e também a todos os soros de 13 indivíduos vacinados que testamos”, afirmou a professora em um comunicado.

A Anvisa avalia o pedido de autorização da UFRJ, enviado no dia 6 de agosto, para os testes com a participação de humanos. Segundo a UFRJ, os ensaios clínicos devem começar em novembro. “Até outubro, vamos complementar com mais dados pré-clínicos (aqueles em animais) e vamos discutir outros resultados. Quando estiver completo, a Anvisa pode tomar a decisão. Esperamos fazer testes em humanos em novembro”, afirmou Leda em um comunicado.

A pesquisa deverá contar com a participação de mil voluntários, incluindo homens e mulheres acima de 18 anos que receberam qualquer imunizante há pelo menos 12 semanas e que não tiveram a doença.

SpiN-TEC: vacina mineira aguarda autorização para estudos clínicos

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) atuam na criação da vacina SpiN-TEC, de administração intramuscular, com esquema inicial de duas doses. Desenvolvido pelo CTVacinas da universidade, o imunizante tem como diferencial a mistura de duas proteínas do novo coronavírus, com o objetivo de aprimorar a resposta induzida no organismo. Enquanto a maior parte das vacinas conta apenas com a proteína S (Spike), utilizada pelo vírus para invadir as células humanas, a vacina da UFMG contempla também a proteína N, que é mais estável e menos afetada pelas mutações do novo coronavírus.

Segundo a UFMG, essa característica amplia o potencial da vacina para o combate de um maior número de variantes da Covid-19. “Percebemos a importância dessa outra proteína, a N, alojada no nucleocapsídeo do SARS-CoV-2, quando estávamos desenvolvendo o kit diagnóstico para Covid-19 e decidimos adicioná-la à vacina em desenvolvimento”, explicou o pesquisador Flávio Fonseca em um comunicado.

A vacina já passou pela etapa dos testes pré-clínicos, que apresentaram resultados positivos. Segundo a UFMG, o imunizante não provocou efeitos colaterais adversos detectáveis e demonstrou uma capacidade de produção de anticorpos tanto para proteína S quanto para a N. Os pesquisadores observaram, ainda a indução da resposta celular, um componente essencial de defesa do organismo, com a ação dos linfócitos T.

O pedido de autorização para os testes de fase clínica (1 e 2), que envolve a participação de humanos, foi recebido pela Anvisa no dia 31 de julho e permanece em avaliação. A análise considera a proposta do estudo, o número de participantes e os dados de segurança obtidos até o momento nos estudos pré-clínicos.

As fases 1 e 2 dos testes clínicos permitem avaliar a segurança da vacina, identificar possíveis efeitos adversos e comprovar a capacidade de geração de anticorpos e de células de defesa específicas contra o novo coronavírus.

Segundo a UFMG, a fase 1 prevê a participação de cerca de 40 voluntários, para a segunda fase, estão previstos entre 150 e 300 participantes. Os testes serão realizados com indivíduos que já tenham tomado as duas doses da vacina Coronavac há pelo menos seis meses. Os cientistas pretendem avaliar a capacidade de resposta imunológica do organismo à terceira dose de um imunizante.

Butanvac: testes clínicos começam nova etapa em setembro

A vacina brasileira Butanvac, desenvolvida pelo Instituto Butantan, de São Paulo, foi criada a partir de um vírus modificado da doença de Newcastle que contém a proteína S do novo coronavírus inativada. O vírus, que infecta aves, é inofensivo para os humanos e conta com uma grande capacidade de replicação em ovos embrionados de galinhas. A tecnologia utilizada para a produção da vacina contra a gripe, causada pelo vírus influenza, é amplamente conhecida no mundo e possui um baixo custo.

Os ensaios clínicos foram autorizados pela Anvisa no dia 09 de junho. Um mês depois, o Instituto Butantan deu início aos testes em parceria com o Hemocentro de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Segundo o instituto, uma nova fase dos estudos terá início em setembro, na cidade de Guaxupé, em Minas Gerais. Os testes serão divididos em duas fases, compostas pelas etapas A, B e C.

Butanvac Instituto Butantan
Butanvac, vacina contra a Covid-19 desenvolvida integralmente pelo Instituto Butantan, de São Paulo / Estadão Conteúdo

A etapa “A” conta com um total de 418 voluntários selecionados nas cidades de Ribeirão Preto e Guaxupé e irá avaliar a segurança e a dose ideal do imunizante. Os voluntários serão divididos em dois grupos, uma parte receberá a ButanVac e a outra a Coronavac, para efeito de comparação. Nessa etapa do estudo, não serão aplicadas doses de placebo, substância sem efeitos para o organismo, como acontece em parte dos estudos de novos imunizantes.

Nas demais etapas, os cientistas vão avaliar a resposta imune, e serão adicionados mais de 5 mil voluntários à pesquisa. Os especialistas vão poder comparar o desempenho da nova vacina e dos outros imunizantes que estão em uso no Brasil. Com base nos ensaios, serão indicadas a eficácia geral da Butanvac e o efeito da vacina contra as variantes da Covid-19.

A Butanvac faz parte de um consórcio internacional com a participação da organização PATH Center for Vaccine Innovation and Access, a Icahn School of Medicine no Mount Sinai em Nova York e a Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Versamune: cientistas pretendem dar início à fase clínica ainda neste ano

A vacina Versamune contra a Covid-19 é desenvolvida pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a empresa Farmacore e a PDS Biotechnology, dos Estados Unidos. A formulação inicial prevista é de um esquema de duas doses, aplicadas de forma intramuscular, com espaçamento de 21 dias.

O imunizante tem como base a combinação da proteína recombinante S1 com a partícula nanolipídica Versamune. O objetivo é ativar respostas imunológicas que envolvem a produção de linfócitos (células T) e anticorpos neutralizantes.

A Anvisa avalia o pedido de autorização dos estudos clínicos de fase 1 e 2 da Versamune, recebido no dia 26 de março. A agência solicitou dados complementares que, segundo a Farmacore, foram enviados no final de julho.

Para as fases 1 e 2 dos estudos clínicos está prevista a participação de 360 voluntários, com idade entre 18 e 55 anos. Em um segundo momento, serão incluídas pessoas de 55 a 75 anos. No período de 3 a 4 meses, os pesquisadores vão avaliar a produção de anticorpos e possíveis efeitos colaterais da vacina.

A partir dos resultados obtidos, os cientistas pretendem avançar para a fase 3, que prevê mais de 10 mil voluntários. Nessa etapa, que deverá durar em torno de seis meses, serão avaliadas as capacidades de proteção contra o vírus e contra a infecção.

Vacina intranasal da Universidade Estadual do Ceará

Em abril de 2020, a Universidade Estadual do Ceará (UECE) deu início ao desenvolvimento do imunizante intranasal 2H120 Defense, contra a Covid-19. A candidata a vacina utiliza um tipo de coronavírus aviário atenuado, semelhante ao SARS-CoV-2, que não oferece riscos à saúde humana. Os pesquisadores investigam a capacidade do microrganismo de induzir uma resposta imunológica protetora contra a Covid-19.

Segundo a UECE, a vacina será de baixo custo, com cada dose podendo custar menos de R$ 1,00. A estimativa é que a concentração de vírus vacinal por dose em um frasco seja capaz de fornecer até 250 doses. A pesquisa é desenvolvida no Laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da UECE, liderada pela professora Izabel Florindo Guedes.

Vacina contra a Covid-19 da UECE
Pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (UECE) atuam no desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19 / Carlos Gibaja/Governo do Ceará

No início de agosto, a UECE, o Governo do Ceará e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) assinaram um termo de cooperação para o desenvolvimento da vacina. A parceria visa a realização de ajustes solicitados pela Anvisa para a fase de ensaios com animais. Segundo a UECE, os ajustes são necessários para que os pesquisadores possam realizar a submissão de documentos para solicitar autorização para o início dos testes em humanos, ainda sem previsão de início.

A UECE informou que novos testes serão realizados assim que forem recebidos os materiais já adquiridos. A análise dos dados, que devem ser submetidos novamente à Anvisa, será realizada com a colaboração da equipe da Fiocruz.

Segundo os cientistas, os imunizantes intranasais podem gerar uma resposta imune eficaz nas mucosas, prevenindo a infecção e reduzindo de forma mais eficiente a transmissão da doença.

UFPR: tecnologia da vacina poderá ser usada contra outras doenças

A vacina desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) contra a Covid-19 conta com a utilização de matéria-prima nacional. Segundo os pesquisadores, o imunizante tem baixo custo e tecnologia e também poderá ser usado contra outras doenças. A vacina utiliza uma tecnologia que envolve a produção de nanopartículas biodegradáveis. Por ser um material muito pequeno, as partículas podem ser usadas para diversas aplicações.

Os pesquisadores associaram as partículas, que são capazes de entrar e desaparecer no organismo sem provocar efeitos colaterais, a partes específicas da proteína S do novo coronavírus. A proteína é produzida a partir da bactéria Escherichia coli e depois vinculada à nanopartícula. Segundo o estudo, após induzir a imunidade contra Covid-19, a nanopartícula desaparece sem causar efeitos ao organismo.

“Temos dois tipos de resposta: a primeira é uma célula que vai reconhecer esse pedaço de proteína estranha e produzir anticorpos para ela. Os anticorpos vão inativar a proteína estranha, inclusive se o vírus entrar em uma próxima ocasião no organismo”, explicou o pesquisador Emanuel Maltempi de Souza, um dos responsáveis pela pesquisa, em um comunicado.

Vacina contra a Covid-19 da UFPR
Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desenvolvem uma vacina contra a Covid-19 que poderá contribuir para o enfrentamento de outras doenças / Marcos Solivan (Sucom/UFPR)

Segundo a UFPR, a fase pré-clínica deve ser encerrada até o final deste ano. A estimativa dos pesquisadores é que em 2022, com a aprovação da Anvisa, sejam iniciados os testes em seres humanos. O desenvolvimento da vacina conta com a participação de pesquisadores dos departamentos de Bioquímica, Biologia Molecular e de Patologia Básica.

A tecnologia utilizada no desenvolvimento do imunizante funciona para outras doenças. A partir da pesquisa, outras vacinas poderão ser produzidas, como dengue, Zika e chikungunya, doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.

Fiocruz testa duas vacinas

Na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estão sendo desenvolvidas duas possíveis vacinas contra a Covid-19. Uma delas é uma vacina de RNA, que está sendo testada em cultura de células (in vitro). Os resultados são positivos e apresentam bons parâmetros de estabilidade. Segundo a Fiocruz, está previsto para setembro o início dos testes de diferentes construções da vacina, que serão realizados em animais.

Uma segunda candidata é a vacina de subunidade, que utiliza proteínas ou fragmentos de proteínas do vírus, capazes de estimular a resposta imune. Os pesquisadores testam diferentes construções da proteína S, responsável pela geração de anticorpos protetores e neutralizantes, em conjunto com a proteína N que gera anticorpos e promove a ativação da resposta imune celular. Os experimentos em hamsters foram finalizados e os resultados estão sendo analisados para definição dos próximos passos do estudo, que incluem a confirmação das melhores formulações para a vacina e testes em outros modelos experimentais, como os primatas não humanos.

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