Semana Mundial de Vacinação expõe desigualdade diante da Covid-19

Iniciativa encampada pela OMS alerta para a necessidade de imunização; EUA disparam como país que mais vacina, União Europeia patina

Vacinação contra Covid-19 na Índia (23.jan.2021)
Vacinação contra Covid-19 na Índia (23.jan.2021) Foto: Reprodução / CNN

Edison Veiga, colaboração para a CNN

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“As vacinas nos aproximam” e a hashtag #AsVacinasFuncionam devem ser o mote da 19ª Semana de Vacinação das Américas, que a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) promove a partir deste sábado (24). 

Sendo vacinação o grande tema de 2021, a iniciativa, encampada de forma global em 2012 pela Organização mundial da Saúde (OMS), está diante de seu maior desafio: o momento é chave para imunizar a maior parte dos seres humanos e, só assim, vislumbrar um retorno à normalidade pré-Covid-19.

“As vacinas nos aproximam” porque só com elas abraços, confraternizações e toda a sorte de aglomerações voltarão a ser possíveis. #AsVacinasFuncionam porque, além de todos os problemas logísticos, financeiros e tecnológicos para viabilizar programas massivos e urgentes de vacinação, a humanidade enfrenta ainda a disseminação de teorias conspiratórias e negacionismos de tipos variados questionando a eficácia e o real propósito dos imunizantes.

No placar dos vencedores da pandemia, a desigualdade geopolítica fica escancarada. A Índia, mesmo sendo sede do Instituto Serum, maior fabricante de vacinas do mundo, está com dificuldades para suprir a demanda de sua população – o país de mais de 1,3 bilhão de habitantes é um dos epicentros da pandemia.

Em tempos normais, a Índia fornece 60% dos imunizantes do planeta. Em tempos de urgência global, para que as leis de mercado não prejudiquem o abastecimento interno, o Estado decidiu intervir: a partir do mês que vem, metade de tudo o que for produzido nos laboratórios nacionais precisará ser oferecido primeiro ao governo indiano.

Há ainda peculiaridades que valem ser observadas. Por um lado, como era de se esperar, países ricos concentram a maior parte das doses e devem ser os primeiros a se ver livres, ao menos hipoteticamente, da pandemia que há mais de um ano paralisa o planeta.

Levantamento realizado no fim de 2020 pela People´s Vaccine Alliance estimou que, ao fim de 2021, em 67 nações pobres apenas 1 em cada 10 pessoas estará vacinada. No mundo desenvolvido, nações com apenas 14% da população global detinham mais da metade das doses das vacinas mais promissoras. 

Por outro lado, há decepções. Os países da União Europeia, por exemplo, apontados ao longo do ano passado como bons exemplos de gestão dos esforços pandêmicos — com regras claras para uso de máscaras, isolamento social, definições de lockdowns e vultosas somas aplicadas, caso a caso, como subsídios econômicos para evitar quebradeiras em série —, ainda patinam na imunização.

EUA superam negacionismo e aceleram campanha

Em meio a esse cenário global, os Estados Unidos despontam mais uma vez com protagonismo, surpreendendo o mundo com um programa rápido e eficiente de imunização em massa, a despeito de todo o negacionismo propagado ao longo de 2020 sob os auspícios do então presidente Donald Trump.

“Trump tinha um discurso negacionista mas nunca deixou de investir na compra de imunizantes. Joe Biden assumiu e conseguiu acelerar esse processo. Os americanos estão dando um show na imunização”, afirma o cientista político Márcio Coimbra, coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. “Ao contrário do Brasil que apostou no negacionismo e não comprou as vacinas [ao longo do ano passado].”

Os Estados Unidos ainda contaram com a vantagem de que alguns imunizantes contra a Covid-19 foram desenvolvidos por laboratórios lá sediados, como Pfizer e Moderna “Isso resolveu bastante as questões logísticas, sem falar que o governo americano firmou contratos agressivos com essas empresas, inclusive viabilizando o fornecimento de insumos, materiais e acesso.

Essa ação conjunta da iniciativa privada com o governo é característica deles, muito do que conhecemos da ciência deriva dessa simbiose”, analisa o historiador Ricardo Cabral de Freitas, pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para a médica epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, os Estados Unidos saíram na frente por causa do investimento e de facilitações burocráticas. O país assumiu o risco e investiu em várias vacinas ainda em 2020, sem saber se seriam eficazes.

O órgão regulador, FDA, também agiu muito rápido na aprovação das vacinas. “Além disso, os fabricantes não tiveram tantos problemas na produção e acompanharam melhor a demanda que outros produtores. Com o número de doses garantido, a mudança na administração federal teve papel essencial no sucesso da campanha: uma administração que segue a ciência e deixa cientistas gerenciarem a estratégia de vacinação.”

União Europeia tropeça e se atrasa

Enquanto os Estados Unidos já têm 27% da população totalmente imunizada, os países da União Europeia na maioria estão na casa dos 7%. Uma série de dificuldades levou a essa situação, conforme apontam especialistas.

Em primeiro lugar, a decisão, tomada ainda no ano passado, de que a negociação dos imunizantes seria feita de forma multilateral, em bloco — simbolicamente, a vacinação de todos os 27 países integrantes da União Europeia se iniciou no mesmo dia, 27 de dezembro.

O objetivo era garantir melhores condições de negociação e, ao mesmo tempo, que todos pudessem se recuperar simultaneamente da crise sanitária. Mas a própria estrutura engessada do funcionamento do bloco acabou se configurando como um obstáculo.

“Trata-se de um organismo político e jurídico complexo e diverso, um bloco de países em condições desiguais, com aparatos institucionais que não são idênticos”, frisa o historiador Carlos Henrique Assunção Paiva, coordenador do Observatório História e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz. “Qualquer movimento que opere no interior desse bloco exige articular interesses e burocracias que são diferentes.”

O continente ainda enfrenta correntes de discursos antivacinas que remontam aos anos 1990 — muitos deles turbinados com teorias conspiratórias contemporâneas — e o descrédito popular frente a imunizantes que supostamente teriam efeitos colaterais graves, embora isso tenha sido desmentido oficialmente.

Ao mesmo tempo, também houve queda de braços envolvendo a vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca. Sobre sua distribuição para o continente, respingam fagulhas decorrentes do Brexit, o tumultuado acordo que fez do Reino Unido a primeira nação a sair da União Europeia.

Garrett resume os problemas europeus em “disputas políticas, demoras nas aprovações pelos órgãos reguladores e confiança [abalada] na vacina da AstraZeneca, que [também] enfrentou muitos problemas de produção, com grandes atrasos na distribuição”. 

E um ponto torna semelhante o cenário europeu e o brasileiro: as dificuldades contratuais. “As negociações com os produtores demoraram muito, já que os europeus focaram em conseguir preços baixos e, como o Brasil, questionaram várias cláusulas dos contratos de compra, o que atrasou a negociação com a Pfizer e a Moderna”, frisa a epidemiologista.

 

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